Economia do Ozempic: como as canetas emagrecedoras redesenham o consumo
Com mercado de GLP-1 projetado em R$ 27 bilhões, avanço de remédios como Ozempic e Mounjaro encolhe porções e muda os gastos dos brasileiros. Entenda
Os remédios da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, deixaram de ser apenas uma solução médica para tratar diabetes ou obesidade para se tornar um fator econômico.
Ao reduzir o apetite, essas canetas emagrecedoras estão mudando o que milhões de pessoas compram, comem e onde gastam seu dinheiro, com efeitos que já chegam às gôndolas de supermercado e às mesas de restaurantes.
No Reino Unido, um levantamento da Worldpanel by Numerator com mais de 11 mil famílias mostrou que domicílios com ao menos um usuário do medicamento gastaram em média 418 libras a menos em compras de supermercado no ano seguinte ao início do tratamento, uma queda estimada em 780 milhões de libras em todo o país.
Uma pesquisa da Universidade Cornell reforça a tendência nos Estados Unidos: famílias com usuários do remédio reduziram o consumo em lanchonetes e cafeterias e passaram a comprar menos itens calóricos, priorizando proteínas e iogurte no lugar de queijos, manteiga e refrigerantes.
Curiosamente, cresceu o consumo de produtos que combatem efeitos colaterais, como goma de mascar, enxaguante bucal e tintura para cabelo.
No Brasil, o setor de bares e restaurantes já sente o impacto. Uma pesquisa inédita da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 61% dos empresários notaram mudanças no comportamento dos clientes associadas ao uso desses fármacos.
O levantamento aponta que 64% dos estabelecimentos registraram aumento na procura por miniporções, enquanto 70% viram maior demanda por pratos considerados saudáveis. As sobremesas, tradicionalmente uma das margens mais lucrativas do setor, foram as mais afetadas pela retração no consumo.
Para se adaptar, restaurantes brasileiros já testam estratégias comerciais: em São Paulo, uma pizzaria viralizou ao oferecer desconto para clientes que usam os medicamentos em seu rodízio. Outros lançaram menus com porções reduzidas. Esse movimento deve se intensificar em 2026, à medida que a queda da patente da semaglutida barateia versões genéricas e amplia o acesso ao medicamento.
Dados da IQVIA mostram que o mercado formal de consumo de remédios GLP-1 no Brasil já responde por 5,7% das vendas totais do varejo farmacêutico, com faturamento de 14,6 bilhões de reais nos 12 meses até abril de 2026, uma alta de 110% em relação ao ano anterior.
Projeções do Itaú BBA indicam que o mercado total (formal e informal) pode alcançar 61 bilhões de reais até 2030, com 27 bilhões já em 2026. A chegada dos primeiros similares nacionais, como o Ozivy da EMS, lançado em junho com preço inicial de cerca de 287 para o ciclo de um mês, acelera o acesso e deve pressionar os preços para baixo, ampliando o alcance para as classes B e C.
Esse fenômeno vai muito além de uma simples retração no setor de alimentação. Se trata de uma redistribuição profunda de gastos: menos comida industrializada e álcool, com maior direcionamento para bem-estar, vestuário, suplementos proteicos, produtos de saúde e até academias de ginástica.
No varejo e na gastronomia, adaptar cardápios, porções e estratégias comerciais está deixando de ser uma opção e está se tornando uma questão de sobrevivência financeira em um novo ciclo de consumo brasileiro.
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