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De onde vêm as armas que matam nas favelas

Os dados revelam um mercado amplamente pulverizado, caracterizado por sucessivas alternâncias na liderança entre países como Áustria, Itália, Estados Unidos, Eslováquia e outros fornecedores

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Clarita Maia
6 minutos de leitura 03.07.2026 11:11 comentários 0
De onde vêm as armas que matam nas favelas
Armas. Inteligência artificial Grok
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Os armamentos que mais alimentam a violência urbana no Brasil concentram-se, sobretudo, nas categorias revólveres, pistolas, fuzis e espingardas.

A informação consta em dados divulgados nesta semana pelo Instituto Sou da Paz, que também usou dados do Ministério da Justiça.

Recentemente, discursos políticos têm optado por um atalho tão simples quanto falacioso: atribuir a um único país a origem das armas que abastecem o crime organizado nas favelas.

Trata-se de uma afirmação politicamente rentável, repetida com frequência em debates públicos, mas que não resiste ao simples cruzamento dos dados oficiais de comércio exterior.

Para verificar se a narrativa de que as armas que matam nas favelas derivam de um país específico se sustenta nos números, basta analisar as importações brasileiras desses armamentos ao longo dos últimos 23 anos, com base nos registros do sistema de comércio exterior.

Ao longo de 23 anos de exportações de armas ao Brasil (2004-2026), o mercado foi dominado por poucos países, com movimentos claros de concentração e alternância entre eles. Ao todo, 28 países aparecem na série histórica, com volumes acumulados muito distintos entre si.

No topo, três grandes fornecedores mantiveram presença constante.

A Áustria foi, isoladamente, a maior potência histórica do setor: acumulou 86,7 milhões de dólares em 18 anos de atuação e controlou entre 47% e 92% do total anual durante praticamente todo o período entre 2006 e 2020, com pico em 2008, quando respondeu por 92,2% das exportações daquele ano.

A partir de 2018, sua participação começou a cair, até sumir completamente do ranking entre 2023 e 2026.

Em movimento inverso, a Itália, com 36,1 milhões de dólares acumulados e presença em todos os 23 anos com dados disponíveis, teve papel discreto até meados dos anos 2010, cresceu de forma consistente a partir de 2016 e assumiu a liderança justamente quando a Áustria recuou. Tornou-se assim a principal fornecedora em 2021 (16,2%), 2023 (58,8%) e, de modo ainda mais acentuado, em 2024, quando concentrou 87,1% de todo o valor exportado naquele ano.

Os Estados Unidos, com 45,3 milhões de dólares acumulados e presença ininterrupta em todo o período, tiveram dois picos marcantes: 61,9% em 2014 e um retorno expressivo em 2026, ano em que já respondem por 87,2% do total parcial, consolidando-se como o fornecedor mais constante do ranking.

Abaixo desse trio de liderança, um segundo bloco ganhou relevância mais tardiamente. A Eslováquia era quase irrelevante até 2019, disparou entre 2020 e 2022 — de 12,8% a 30,9% do total anual — e sumiu do ranking a partir de 2023. A República Tcheca teve trajetória mais estável, com picos em 2009 (16,8%), 2021 (14,4%) e 2025 (26,5%). Já a Turquia cresceu gradualmente entre 2013 e 2023, oscilando entre 9% e 10%, até praticamente desaparecer entre 2024 e 2026. Um terceiro grupo reúne países cuja relevância se resumiu a picos pontuais dentro de uma presença mais discreta: Croácia (9,1% em 2023, entre 2020-2024), Uruguai (7,3% em 2021), Israel (6,1% em 2021, sem outra aparição relevante em 23 anos), Reino Unido (destaques isolados em 2004 e 2012, apesar de presente em 21 dos 23 anos), Bélgica (8,7% concentrados em 2019), Japão (crescimento lento desde 2020, nunca acima de 2,6%), Espanha (retorno em 2025-2026, com 3% a 4%) e Eslovênia (2,7% em 2021). Alemanha, França, Argentina e Suíça completam esse grupo com presença recorrente, mas sempre marginal, abaixo de 5%.

Três ciclos

No conjunto, os dados revelam três ciclos distintos de concentração no mercado: um longo período de domínio quase exclusivo da Áustria, entre 2006 e 2020; uma fase multipolar, entre 2020 e 2023, marcada pela entrada simultânea de Eslováquia, Croácia e Turquia; e, mais recentemente, entre 2024 e 2026, uma nova concentração, agora dividida entre Itália e Estados Unidos.

Com efeito, os dados revelam um padrão importante para entender esse cenário: a escalada abrupta da importação dessas armas entre 2017 e 2023 — quando o valor anual exportado ao Brasil saltou de pouco mais de 3 milhões de dólares para picos superiores a 56 milhões de dólares — foi seguida, a partir de 2024, por um retorno às margens históricas anteriores a esse boom, com os valores recuando para a faixa de 3,5 milhões de dólares a 5,6 milhões de dólares, patamar próximo ao observado entre 2015 e 2017.

Esse salto no volume importado não é um dado neutro. Quanto maior o fluxo comercial de armamentos — legalmente destinados a colecionadores, atiradores esportivos, caçadores e instituições de segurança —, maior também a exposição a desvios ao longo da cadeia: roubos de cargas, adulteração de documentação, triangulação por meio de terceiros países e simples descaminho nas fronteiras.

O boom de 2017-2023, portanto, ajuda a explicar por que armamentos de fabricação estrangeira aparecem com mais frequência em apreensões da polícia nesse mesmo período — sem que isso implique qualquer responsabilidade do país exportador pelo destino final dado à mercadoria.

E se a denúncia for sobre a origem dessas armas, os números tornam ainda mais evidente a fragilidade da narrativa que tenta apontar um único país como grande vilão do abastecimento de armas às favelas.

Israel, especificamente, é um exemplo emblemático dessa fragilidade. Em 23 anos de série histórica, o país aparece com um único pico relevante, de apenas 6,1% do total exportado, em 2021 — participação pontual e sem continuidade, muito distante do protagonismo que discursos políticos recentes lhe atribuem. Não há, portanto, nos dados oficiais do governo brasileiro, qualquer indício de que Israel tenha papel expressivo ou sistemático nesse comércio.

Percebe-se, assim, a fragilidade da narrativa política que insiste em apresentar determinado país como o “grande inimigo da humanidade”. Trata-se de um discurso marcado mais pela retórica, por simplificações e por falácias do que por evidências empíricas.

Os dados revelam um mercado amplamente pulverizado, caracterizado por sucessivas alternâncias na liderança entre países como Áustria, Itália, Estados Unidos, Eslováquia e outros fornecedores.

Esse panorama é incompatível com a tese de um fornecedor único, permanente ou hegemônico. Menos ainda, com a ideia de que a responsabilidade pela violência armada possa ser atribuída a um exportador quando ela passa pela negligência do Estado.

Se há responsabilidades a serem examinadas, elas dizem respeito, sobretudo, à capacidade do próprio Estado brasileiro de prevenir e reprimir o contrabando, o descaminho e o tráfico ilícito de armas.

É dessa análise que surgirá a resposta sobre o verdadeiro responsável pelas mortes nas favelas.

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