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Campos Neto critica o "prometer agora, pagar depois"

"O exercício aqui não é um destino inevitável. É um espelho. O que ele mostra é o custo de não agir", diz o ex-presidente do Banco Central

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Redação Crusoé
4 minutos de leitura 07.09.2026 10:58 comentários 0
Campos Neto critica  o "prometer agora, pagar depois"
Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil
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O ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto (foto) publicou artigo no domingo, 6, para dizer que o ajuste fiscal das contas públicas brasileiras é "inadiável".

"Como chegamos aqui não é um mistério, tampouco responsabilidade de um governo específico. Por duas décadas, ao longo de administrações de diferentes matizes, a política fiscal recorreu a um reflexo familiar: prometer agora, pagar depois", diz Campos Neto, atualmente vice-chairman do Nubank, no artigo intitulado "Espelho fiscal e o ajuste inadiável", publicado na Folha de S.Paulo.

O ex-presidente do Banco Central indicado por Jair Bolsonaro, que foi usado por Lula por dois anos como bode expiatório para justificar a alta taxa básica de juros, mantida após Gabriel Galípolo assumir a instituição após indicação de Lula, diz no texto que "o Brasil entra na segunda metade desta década com as finanças públicas sob pressão visível".

O custo de carregar a dívida

"A dívida bruta do governo geral alcançou 82,5% do PIB em julho de 2026, R$ 10,9 trilhões. A conta de juros consome cerca de 8,7% do PIB por ano, mais de R$ 1,15 trilhão nos últimos doze meses. O déficit nominal beira 10% do PIB. Com juros na casa dos 14% ao ano, a aritmética da dívida tornou-se abertamente hostil: o governo se financia a um custo muito superior ao ritmo em que a economia cresce", constata Campos Neto no artigo.

O ex-presidente do BC explica assim as razões para esse quadro preocupante:

"Pisos constitucionais de saúde e educação, pensões indexadas ao salário mínimo real, expansão de transferências, desonerações tributárias e sucessivas flexibilizações das regras fiscais foram empilhando despesas obrigatórias enquanto estreitavam o espaço para ajustes. Cada medida era defensável isoladamente. É verdade que houve avanços no período 2017-2020 e que a pandemia impôs custos extraordinários. Mas olhando o arco mais longo, o resultado é um déficit estrutural que nenhum ciclo de crescimento foi capaz de absorver."

Campos Neto faz o que chama de uma "ilustração aritmética" para alertar que, na comparação com a situação de diversos países, "o que singulariza o Brasil não é o ponto de partida, mas o custo de carregar sua dívida —uma taxa real próxima de dois dígitos que reflete, antes de tudo, o risco fiscal precificado pelo mercado, não uma escolha idiossincrática da política monetária".

Chile e Argentina

O ex-presidente do BC usa Chile e Argentina como exemplos ao dizer que "países que reverteram trajetórias semelhantes não o fizeram com uma única medida, mas com uma combinação de regra fiscal crível, superávit primário sustentado e reformas que elevaram o crescimento".

"O caminho é conhecido. Primeiro, restaurar uma âncora fiscal genuinamente crível e parar de legislar em torno dela. Segundo, enfrentar o gasto obrigatório: desindexar pensões e benefícios do salário mínimo real, alongar o tempo efetivo de contribuição e flexibilizar as vinculações constitucionais que colocam a maior parte do orçamento no piloto automático. Terceiro, ampliar a base tributária de forma consistente com o crescimento", descreve o economista, antes de finalizar:

"Acima de tudo, fiscal e monetário precisam se reforçar mutuamente: uma consolidação crível é o que permitiria finalmente a queda sustentada da Selic —e é essa queda nos juros, mais do que os cortes de gasto em si, que faz o trabalho pesado sobre a dívida. O exercício aqui não é um destino inevitável. É um espelho. O que ele mostra é o custo de não agir. E esse custo, medido em décadas de oportunidades perdidas, é alto demais para continuar ignorando. Ainda há tempo, mas isso requer um compromisso inabalável com este ajuste."

Leia mais: Campos Neto enfim reage à “narrativa política infundada” do PT

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