ONU

‘A Síria tornou-se uma grande área de influência da Rússia’, diz Paulo Sérgio Pinheiro

19.06.21 18:36

O cientista político Paulo Sérgio Pinheiro (foto), de 77 anos, é o presidente da Comissão Internacional de Inquérito sobre a Síria, ligada ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. De sua casa em São Paulo, ele conversa por videoconferência e mensagens de texto com funcionários da ONU responsáveis por elaborar os relatórios sobre as violações de direitos humanos na guerra que já dura mais de dez anos. Ele falou a Crusoé sobre o trabalho.

O ditador sírio Bashar Assad nunca aceitou sentar-se à mesa para negociar a paz. Por que não é possível conversar com ele?
Houve muita ignorância por parte dos Estados Unidos de achar que Assad poderia cair em pouco tempo, em uma semana, em um mês. O conhecimento americano da Síria era pífio. Os franceses sabiam muito mais da situação, porque dominaram a região no passado. Mas Assad não caiu, e o governo da Síria hoje tem a convicção de que ganhou a guerra. Como fazer alguém que se considera o vencedor sentar para fazer concessões? É inviável. Além disso, uma questão que dificulta uma saída negociada é que a Síria se tornou uma grande área de influência da Rússia. Esse país se envolveu no conflito de maneira legal. Segundo a Carta da ONU, um país atacado por um grupo terrorista pode pedir ajuda a outro. Hoje, pode-se ver que existem muitos russos casados com sírias. Há muitos descendentes desses casais mistos. As monarquias do Golfo e os Estados Unidos deram de presente aquela área para os russos.

A Rússia atrapalha as negociações de paz?
Os russos não vão largar o que conquistaram tão facilmente. Ao longo dos anos, todas as ilusões de que a Federação Russa estaria trabalhando para uma saída constitucional foram frustradas. Em nenhum momento eles ajudaram a elaborar uma nova Constituição para a Síria, como forma de reduzir os atritos.

Os Estados Unidos demoraram para entrar no jogo? 
O ex-presidente Barack Obama não queria ou não podia intervir na Síria, depois da recusa do Parlamento britânico em autorizar o ataque. Depois, o Congresso americano seguiu o mesmo caminho e não deu aval para ele atuar. Para mim, é um pouco difícil estabelecer efetivamente o grau de dano praticado pelos lados na guerra. Evidentemente, só a Rússia e a Síria têm força aérea atuando, o que faz com que sejam os responsáveis pelos bombardeios em áreas civis. Em termos de vítimas, os ataques aéreos sírios e russos foram terríveis para a população. Mas a França, os Estados Unidos e o Reino Unido também participaram de ataques aéreos. A cidade de Raqqa, ex-capital do Estado Islâmico, foi 85% destruída basicamente por ataques americanos. Não se tem o número das mortes civis. Ninguém tem mãos limpas nesse conflito, porque os grupos armados também foram apoiados e financiados pelos americanos e pelas monarquias árabes. As armas não caíram do céu, então há uma responsabilidade compartilhada.

Por que a Guerra da Síria foi particularmente cruel com as crianças?
As crianças foram vítimas da guerra assim como seus pais. Todos eles estiveram na linha de frente. Foram mortos quando iam fazer compras ou quando o lugar em que estavam foi destruído. Escolas e hospitais foram atacados sem piedade por bombardeios, com artilharia, com explosões. Nós documentamos 700 ataques contra colégios e profissionais de educação, sendo 50 no ano passado. Quase 2,5 milhões de crianças estão sem poder ir para a escola. 

O que pode ser feito para evitar que os culpados pelos crimes permaneçam impunes?
É claro que temos esperança de punir os responsáveis. Se não fosse assim, não estaríamos metidos nisso. Seria terrivelmente frustrante para a população síria. Temos feito várias coisas. Nós não fazemos investigações criminais. O que fazemos é providenciar informações para os sistemas judiciários dos países-membros da ONU. Não atendemos estados, apenas os seus Judiciários, incluindo juízes e procuradores. Temos cerca de 100 investigações criminais em dez países, e três processos em direito civil. Na Alemanha, um funcionário do governo sírio foi processado e condenado por envolvimento em tortura. A colaboração da Síria é sempre difícil. Eu já cheguei a me encontrar casualmente com o embaixador sírio duas vezes no corredor do prédio da ONU, em Nova York. Falamos cordialmente. Mas é muito difícil a Síria hoje, a essa altura do campeonato, com toda essa montanha de alegações sobre crimes de guerra, estar disposta a conversar conosco.

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  1. Joãozinho muar zurra sem parar. Que vida medíocre ele leva. Joãozinho Mário é apenas um xerimbabo de bozista! Xerimbabo de bozista!

    1. Ou mandar o Zezinho diarreia defecar tudo que ele tem na cabeça e acabar com a influência de quem quer que seja…..

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