Pesquisadores de Cambridge e da UFRJ mapearam como plataformas de redes sociais tratam dados públicos em diferentes regiões.
O estudo coloca o Brasil em situação crítica: o país ocupa a pior posição no ranking de transparência digital.
Universidades divulgam ranking mundial de transparência e posição do Brasil vai te surpreender
Comparado a outros países analisados, o Brasil fica muito atrás quando o assunto é a possibilidade de consultar dados sobre anúncios e sobre o conteúdo publicado pelos próprios usuários.
Essa restrição abre espaço para que golpes financeiros e conteúdos manipulados circulem sem controle, além de fragilizar as instituições democráticas.
Sem acesso às informações básicas das plataformas, especialistas, autoridades e entidades da sociedade civil perdem a capacidade de identificar ações articuladas de manipulação e de verificar quem, de fato, recebeu determinados anúncios em disputas eleitorais ou publicidade comercial.
O estudo revela que as big techs só abrem seus dados quando são obrigadas por lei.
A União Europeia e o Reino Unido alcançaram esse nível de abertura por meio de regulações rigorosas, como a Lei de Serviços Digitais Europeia.
O Brasil, sem legislação equivalente, continua com o menor nível de proteção de dados entre as regiões analisadas.
Essa disparidade deixa cidadãos brasileiros sem direitos que seus pares europeus já possuem.
Enquanto europeus podem rastrear e questionar a segmentação dos anúncios dirigidos a eles, usuários brasileiros enfrentam barreiras severas para compreender como suas informações circulam nas plataformas.
O comportamento das plataformas no Brasil
A Meta oferece acesso “Significativo” a dados de anúncios no Reino Unido, mas reduz sua transparência a níveis “Insignificantes” para conteúdo de usuários no Brasil.
A empresa restringe esses dados à própria ferramenta, a Biblioteca de Conteúdos.
Isso impede que pesquisadores independentes realizem análises em larga escala sobre tendências de desinformação e manipulação.
Aplicativos de grande alcance no país, como o TikTok, que concentram bilhões de usuários brasileiros diariamente, transformam a forma como consumimos conteúdo.
Já Kwai, WhatsApp, Discord e Threads simplesmente não abrem seus dados de publicidade nem de conteúdo para qualquer tipo de acompanhamento externo, recebendo a classificação “Indisponível”.
Apenas Bluesky e YouTube obtiveram classificação “Significativa” e consistente para acesso programático aos dados públicos de conteúdo.
As cobranças proibitivas do X, antigo Twitter, tornaram inviável a pesquisa independente, apesar da previsão de acesso.
O custo político da falta de dados
A opacidade das plataformas tem impacto direto na política brasileira.
Candidatos como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Fernando Haddad (PT-SP) utilizaram Instagram e Facebook em campanhas de publicidade.
Essas campanhas gastaram pelo menos R$ 2,2 milhões em anúncios nas plataformas.
A Meta concentra o mercado formal de publicidade político-eleitoral porque outras grandes plataformas proíbem ou restringem esse tipo de anúncio.
Sem acesso a dados detalhados sobre segmentação de público, gastos reais e alcance de campanhas, eleitores e reguladores ficam impedidos de entender plenamente quem está financiando cada mensagem política e para qual público específico ela se destina.
Pesquisadores da Universidade de Cambridge e do NetLab UFRJ recomendam uma ação multissetorial com criação de leis regionais de transparência no Brasil.
Também defendem que sejam criados acordos internacionais capazes de padronizar o intercâmbio de dados entre países, além de instrumentos que equiparem as garantias hoje concedidas a usuários europeus àquelas disponíveis aos brasileiros.
Sem essas mudanças, o Brasil continuará vulnerável a fraudes, à manipulação e ao enfraquecimento dos processos democráticos.








