Em setembro de 2006, a Polícia Federal invadiu um prédio no Centro Histórico de Porto Alegre e prendeu 26 integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) que escavavam um túnel de 85 metros para alcançar os cofres do Banrisul e da Caixa Econômica Federal.
O alvo estimado era de R$ 200 milhões em valores combinados nas duas agências.
Jandir Anselmini, proprietário de um restaurante na região desde 1994, acompanhava a operação criminosa sem saber.
Criminosos do PCC frequentavam seu estabelecimento como clientes comuns e pediam regularmente de 10 a 12 marmitas.
O padrão não despertava desconfiança porque eles diziam ter comprado o imóvel próximo para reformas, e a madeira chegava ao local com frequência.
Operação da Polícia Federal que descobriu túnel do PCC
Naquela manhã, por volta das 6h30, Anselmini erguia a quarta cortina de ferro do restaurante quando se deparou com dois agentes encapuzados.
Pensou que seria vítima de assalto, mas os homens se identificaram como policiais federais e mandaram que ele entrasse.
No dia 1º de setembro, com céu azul e sem vento, a Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal deflagrou a Operação Facção Toupeira.
A operação começou às 4h30, quando um caminhão-baú com policiais estacionou na rua Caldas Júnior próximo ao prédio abandonado onde estavam os criminosos.
O restaurante, que normalmente abria às 11 horas, só começou a funcionar às 13h30 daquele dia devido à intensa movimentação de agentes policiais e curiosos.
A estrutura do túnel permanece preservada sob o estabelecimento, coberta por uma tampa de acrílico em uma das salas, hoje conhecida como “espaço do assalto” e um dos pontos mais procurados pelos clientes, que reservam o local em grupos de 20 a 30 pessoas, com capacidade total para 50.
Como a operação foi descoberta
A investigação começou com um descuido em Fortaleza, a aproximadamente 4.198 quilômetros de Porto Alegre.
Um ano antes, no roubo do Banco Central do Ceará, foram levados R$ 164,7 milhões.
Um cartão de telefone celular pré-pago foi encontrado na casa onde a entrada do túnel foi construída.
A perícia da Polícia Federal identificou o número do cartão e, por meio dele, descobriu o telefone que havia recebido os créditos.
A PF percebeu que o telefone havia sido recarregado e começou a monitorá-lo, conforme o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos.
O rastreamento dos contatos e dos proprietários das linhas associadas ao número levou os policiais a um criminoso conhecido pelo apelido de “João das Couves”, assaltante gaúcho que fazia a ponte entre a facção paulista e criminosos locais no Rio Grande do Sul.
O monitoramento dos passos dele permitiu à PF descobrir a compra do prédio no centro de Porto Alegre e interromper a escavação antes que os criminosos chegassem aos cofres dos bancos.
O erro revelava o planejamento dos criminosos e sua intenção de repetir o sucesso obtido no Ceará.
A ação coordenada impediu que a quadrilha chegasse aos cofres, localizados a 5 metros abaixo do solo, e o superintendente da PF no Rio Grande do Sul estimava que invadiriam o banco na madrugada do feriado de 7 de Setembro.
Alcance da operação e investimento do PCC
O túnel de 85 metros se estendia até a agência matriz do Banrisul, na quadra entre as avenidas Siqueira Campos e 7 de Setembro.
Faltava apenas um pequeno trecho sob a rua Caldas Júnior para que os assaltantes atingissem o prédio, onde pretendiam furtar cerca de R$ 80 milhões.
Se conseguissem também invadir a Caixa Econômica Federal, o saque total chegaria aos R$ 200 milhões.
A operação envolveu 30 suspeitos detidos em diferentes locais, e vinte e seis foram presos no edifício de sete andares na esquina da rua Caldas Júnior com a avenida Mauá.
A maioria era paulista; outros quatro foram capturados em uma casa alugada no bairro Partenon, que funcionava como QG.
Além disso, outros 12 foram localizados em nove estados, incluindo o líder do roubo anterior em Fortaleza.
O PCC investiria R$ 10 milhões para executar o assalto. O valor seria gasto com alimentação, compra do prédio, aluguel da residência, logística e contratação de advogados.
Desfecho judicial
Vinte e nove dos 30 presos na Operação Facção Toupeira foram condenados a penas que somaram 193 anos, conforme informou o Ministério Público Federal.
Vinte anos depois, a estrutura do túnel permanece preservada como registro da operação que impediu um dos maiores roubos planejados contra instituições financeiras no Sul do país.








