Por três meses seguidos, um funcionário do dono de restaurante Maurício Nishimori sumiu por um dia inteiro logo depois de receber o salário. Segundo reportagem a imprensa, o empresário só entendeu o motivo ao ligar para a esposa do trabalhador: ele havia caído em um vício em apostas on-line.
O caso reflete um problema que já chega aos departamentos de recursos humanos de empresas de diferentes portes, segundo a ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos). Dívidas de milhares de reais e crises familiares viraram relatos comuns, enquanto a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) associa pedidos constantes de adiantamento salarial e desatenção no trabalho aos primeiros sinais de alerta.
Números seguem disparando
No primeiro ano do mercado de apostas regulado, em 2025, os afastamentos por ludopatia subiram 59,8% em relação a 2024 e passaram de 425 para 679 casos, segundo o Ministério da Previdência. Um levantamento do Intercept Brasil mostra um salto ainda maior mês a mês: as concessões de auxílio-doença por jogo patológico aumentaram mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025, com recorde de 62 concedidos só em junho deste ano.
Para a Organização Mundial da Saúde, o diagnóstico de ludopatia ocorre quando o jogo passa a ter mais peso do que áreas centrais da vida, como a família e o trabalho.
Companhias como Ypê, Gerdau e Whirlpool já organizaram programas de acolhimento para funcionários com o problema, e a orientação da ABRH é evitar a demissão por justa causa e encaminhar o trabalhador para avaliação médica.
Na Justiça do Trabalho, o TST avalia se a ludopatia deve ser equiparada à dependência química como critério para reverter demissões, já que um entrave comum é a falta de ciência do empregador sobre o diagnóstico.
Onde buscar ajuda
A Femaco, federação que representa trabalhadores da limpeza, relata que o problema, em casos extremos, já resultou em suicídios entre trabalhadores acompanhados pela entidade. Quem enfrenta dificuldades semelhantes pode buscar apoio pelo CVV (188) ou pelo teleatendimento gratuito do Ministério da Saúde, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, com inscrição pelo aplicativo Meu SUS Digital, programa que tem capacidade para 600 atendimentos por mês.







