Após uma reunião de emergência marcada por tensão com a FIFA, a UEFA confirmou, nesta quinta-feira (30), que suas 55 federações-membro votaram unanimemente pelo boicote total a qualquer competição organizada pela entidade máxima do futebol.
A decisão vem em resposta ao plano do presidente Gianni Infantino de vender uma participação de 20% dos direitos comerciais da entidade a investidores privados.
No comunicado oficial, que também foi publicado nas redes sociais da entidade, a UEFA afirma que não haverá participação em Copas do Mundo masculinas ou femininas, nem em qualquer outro torneio da FIFA, enquanto a proposta da FIFA Forward Enterprise (FFE) não for “abandonada em sua totalidade”.
A medida coloca em xeque a viabilidade da Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil, e esvazia completamente a Copa do Mundo Masculina de 2030, cujas sedes principais seriam Espanha, Portugal e Marrocos.
A proposta que causou o conflito
O estopim da revolta foi a revelação, no início da semana, de que a FIFA planeja criar uma subsidiária comercial, a FFE, avaliada em US$ 20 bilhões. O objetivo é captar US$ 4,2 bilhões através da venda de uma participação minoritária para um consórcio de investidores.
A proposta da FIFA previa um pagamento imediato de US$ 20 milhões para cada uma das 211 federações filiadas, além de um aumento significativo nos repasses anuais de desenvolvimento. No entanto, a UEFA e outras entidades críticas veem a manobra como uma “privatização disfarçada”.
O temor central é que a entrada de acionistas privados crie um conflito de interesses permanente, em que o lucro dos investidores se sobreponha às decisões esportivas, ao calendário dos jogadores e à integridade das competições.
A UEFA também classificou o prazo imposto pela FIFA para aceitação da proposta (19 de setembro) como um ato de “intimidação” e “coerção”.
Oposição global
Embora a Europa tenha sido a única a decretar boicote total, a rejeição ao plano de Infantino ecoa globalmente. A CONCACAF (América do Norte, Central e Caribe), reunida em caráter de emergência, também rejeitou formalmente a proposta.
Em nota, a confederação criticou a “falta de devido processo”, o “prazo artificialmente curto” e a ausência de consulta prévia, questionando a necessidade de capital privado logo após a realização da “Copa do Mundo mais lucrativa da história”.
Na Ásia, a AFC manifestou “profunda decepção” por não ter sido consultada e pediu uma revisão urgente da governança da FIFA, alinhando-se às preocupações de transparência levantadas pelos europeus.
O sindicato mundial dos jogadores, a FIFPro, também se posicionou contra, alertando que a transformação da Copa do Mundo em um “ativo investível” remodelaria irreversivelmente as competições onde os atletas constroem suas carreiras, sem que houvesse qualquer diálogo com quem realmente joga o esporte.
Impacto do boicote
As consequências práticas do boicote já seriam sentidas no próximo ano. A Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil, perderia três das quatro semifinalistas da edição anterior: as campeãs da Espanha, além de Inglaterra e França.
No masculino, além da perda das Seleções Europeias, também haveria uma troca de sede pela FIFA, pois como os três países-sede estão na Europa, eles não participariam do próprio torneio que sediariam.
Agora, a pressão recai sobre a FIFA e seu presidente. Com 60% da receita global do futebol originada na Europa, a viabilidade financeira da própria FFE se torna duvidosa sem a participação das seleções europeias.
Investidores como a Thrive Eternal, um dos consórcios mais interessados na FFE, dificilmente injetariam bilhões em uma entidade cujos principais ativos estão em greve contra sua própria governança.








