Uma pesquisa com 2.008 brasileiros, feita em julho, aponta as apostas como saída buscada por mulheres que enfrentam dificuldade para fechar as contas de casa.
Os números foram cruzados com informações obtidas em 20 grupos qualitativos, reunindo 60 participantes.
O retrato que emerge é de mulheres pressionadas pelo orçamento doméstico, não de quem busca fortuna rápida.
Dívidas acumuladas, aperto no custo de vida e o peso de sustentar sozinha as finanças da casa marcam a rotina de quem aposta.
Estudo revela que vício em apostas chegou nas mães com pouco orçamento para manter a casa
Do total de mulheres ouvidas, 56% se declaram endividadas, 64% notaram alta no custo de vida no último ano, e 52% dizem ser as principais responsáveis pelas contas domésticas.
Entre mulheres pretas, o endividamento atinge 69%; entre pardas, 62%, e mães apostam 1,6 vez mais que mulheres sem filhos.
Mais da metade das mulheres consultadas se declara endividada, e uma fatia ainda maior sentiu o custo de vida subir no último ano.
A administração das finanças da casa recai, na maioria dos casos, sobre elas mesmas, sem divisão com outro adulto da família.
Mulheres entram nas plataformas tentando cobrir despesas básicas, não em busca de enriquecimento.
O estudo registra como motivações a compra de material escolar, o pagamento de uma conta atrasada e a abertura de uma folga no orçamento.
A contribuição dessas mulheres para o orçamento vai principalmente para a alimentação e o mercado, segundo 68% delas.
Para 65%, o destino são contas essenciais, como luz, água, gás e internet.
Nesse contexto, a promessa de um ganho rápido funciona como atalho para dívidas que parecem sem saída.
O estudo batiza essa expectativa de “promessa de redenção”: a fantasia de quitar o cartão, limpar o nome ou dar algo aos filhos sem o aperto constante do fim do mês.
É um alívio buscado no cotidiano das pessoas comuns, não uma riqueza sonhada nos momentos de distração e fantasia.
As apostas entram em rotinas nas quais a responsabilidade pelo cuidado e pelo sustento da família já recai sobre as mulheres. Nesse contexto, apostar envolve consequências econômicas e psicológicas.
Confiança depositada em amigos ou influenciadores vira porta de entrada para apostas
A porta de entrada para começar a apostar é quase sempre um vínculo de confiança: a amiga que mostrou um ganho, o familiar que mandou um link ou o influenciador em quem se confia.
Um total de 24% conheceram as bets por redes sociais, 23% por grupos de amigos, 18% por influenciadores e 14% por familiares.
Uma cadeia de divulgação liga influenciadores a perfis locais que alcançam amigos dispostos a compartilhar links de cadastro.
Quem participa dessa rede recebe comissão sobre as perdas dos usuários recrutados por meio de laços pessoais.
Ao mesmo tempo, publicações nas redes alimentam a sensação de que ganhar é rotina.
Comprovantes de Pix circulam em grupos privados, reforçando pergunta simples: “se ele conseguiu, por que não eu?”
Depois do primeiro cadastro, o algoritmo passa a entregar ainda mais conteúdo sobre apostas para quem já demonstrou interesse.
Entre as mulheres apostadoras. 79% percebem aumento desse conteúdo nas redes sociais, enquanto 72% avaliam que a publicidade contribui para que apostem mais do que deveriam.
Entre as ex-apostadoras, 28% pararam após perceber que não obtinham os ganhos que esperavam. Outras 24% apontam o risco financeiro como motivo, e 9%, o endividamento.
Ao abandonar o jogo, 28% dizem sentir tranquilidade, enquanto 24% descrevem a sensação como alívio.
Um experimento da pesquisa mostrou que homens e mulheres eram responsabilizados de forma diferente pela perda.
Quando havia filhos, a presença da criança reduzia a responsabilização do homem, mas aumentava a cobrança sobre a mulher.
A maternidade elevava a percepção de provedora inadequada; a paternidade funcionava como atenuante.
Entre mulheres sem filhos, 24% já deixaram as apostas; entre mães, a taxa é menor.
Pesquisadores levantam hipótese de que abandonar o jogo pode significar desistir de cumprir responsabilidade de prover para filhos.
O Sistema Centralizado de Autoexclusão permite bloquear CPF nas plataformas autorizadas. Contudo, 71% dos entrevistados desconheciam o sistema quando foram ouvidos.








