A indústria calçadista argentina registrou um marco histórico negativo nesta semana com o fechamento definitivo da última fábrica do Grupo Dass no país. Localizada na cidade de Eldorado, a unidade encerrou suas operações em julho, pondo fim a quase duas décadas de produção local de calçados das gigantes mundiais Nike, Adidas e Fila.
A decisão, classificada pela empresa como uma “reconfiguração estratégica”, resultou na demissão imediata de 150 trabalhadores e marca a transição do grupo para um modelo baseado exclusivamente na importação e distribuição comercial em solo argentino.
Repercussão
O comunicado oficial do Grupo Dass, enviado no início de julho, confirmou o que sindicatos e trabalhadores já temiam há meses. Gustavo Melgarejo, delegado da União dos Trabalhadores da Indústria do Calçado da República Argentina (UTICRA), descreveu o fechamento como um “golpe catastrófico” para a economia local.
“Alertamos que os pedidos existentes garantiam a atividade apenas até junho. A abertura indiscriminada das importações e a falta de políticas de proteção à indústria nacional sufocaram a produção local”, declarou o representante sindical à imprensa local.
O que motivou o fechamento?
Em nota oficial, a diretoria do Grupo Dass negou que o fechamento seja resultado de problemas financeiros da companhia ou de uma retirada total do mercado argentino. A empresa atribui a decisão a uma combinação de fatores macroeconômicos que tornaram a manufatura local inviável.
De acordo com a empresa, o primeiro motivo foi a queda da demanda na Argentina, o que reduziu drasticamente o volume de encomendas das marcas parceiras.
O segundo motivo foi a flexibilização das regras de importação no país, que trouxe à tona uma concorrência direta com produtos asiáticos e de outras praças, cujos custos finais tornaram-se menores que os da produção doméstica.
Além disso, a empresa ainda citou “dificuldades estruturais” e a perda de competitividade da planta de Eldorado frente ao novo cenário comercial. “A decisão foi tomada após o esgotamento de todas as alternativas para manter a produção”, afirmou o grupo em comunicado.
Impacto
O fechamento da fábrica de Eldorado deixa um rastro de incerteza para as 150 famílias diretamente afetadas. Embora o Grupo Dass tenha garantido o pagamento integral de todas as indenizações trabalhistas, a reposição desses postos de trabalho na região é considerada difícil pelos analistas locais.
Em seu auge, por volta de 2015, a fábrica chegou a empregar 1.700 pessoas e produzir 22 mil pares de tênis por dia, operando em três turnos. O declínio gradual nos últimos anos, com demissões intermitentes, já havia sinalizado o esvaziamento da unidade, que em 2026 operava com capacidade reduzida.
Com o encerramento, o consumidor argentino deixará de encontrar tênis Nike e Adidas com o selo de fabricação nacional provenientes desta linha.
Todo o abastecimento passará a ser feito via importação, principalmente das oito fábricas que o grupo mantém em operação no Brasil, utilizando a estrutura logística que a empresa preservará em Buenos Aires, Coronel Suárez e Cañuelas.







