As muitas juras de amor eterno para Daniel Vorcaro
Palavras como "saudades", "meu amor" e "carinho" mostram que, no Brasil, relações familiares e pessoais se sobrepõem às leis e instituições
À parte a compra de apoio com prostitutas, festas de arromba, viagens e contratos milionários, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do banco Master, pareceu exercer um poder mágico sobre as autoridades brasileiras.
Nas mensagens enviadas a Vorcaro, os políticos usaram termos afetivos e fizeram juras de amizade eterna.
Os diálogos mostram algo muito além de troca de favores, de um negócio. Eles projetam relacionamentos íntimos e de longo prazo.
"Saudades"
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, estava visivelmente feliz ao posar para a foto em Londres, em 2024, com um charuto e copos de uísque, em um grupinho com Vorcaro.
No ano seguinte, Gonet pediu ao advogado Ciro Soares que encaminhasse sua mensagem ao banqueiro dizendo que estava com "saudades".
"Meu amor"
Na revista Veja desta sexta, 25, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, envia várias mensagens a Vorcaro em fevereiro de 2025.
"Fala meu amor! Muito obrigado por tudo, em especial pelo carinho e amizade fraterna! Gratidão! Sou seu irmão!!! Pra vida toda!!!", escreveu Alcolumbre.
Vorcaro respondeu com cinco emojis de corações vermelhos. "E eu seu. A qualquer tempo para qualquer coisa. Nunca vou esquecer".
"Estarei contigo sempre"
O senador Flávio Bolsonaro chamou Vorcaro de "mermão", que responde a ele como "irmãozão".
"Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu Flávio em 16 de novembro de 2025.
Mundo da casa
Todas essas mensagens mostram que, no Brasil, a corrupção com dinheiro público se mistura com o mundo da casa, da família, das amizades.
Todos são "irmãos" e "amigos".
As negociatas, aliás, frequentemente incluíam viagens e jantares com esposas e familiares, como mostram as mensagens envolvendo Fábio Faria, Augusto Lima e Jaques Wagner.
Em artigo na Crusoé em 2022, o antropólogo Roberto DaMatta comentou sobre a mistura entre o "mundo da rua" e o "mundo da casa".
"O mundo da casa é aquele das relações entre parentes próximos. Todos nós que vivemos em família temos de cumprir com uma série de obrigações morais, as quais são pouco faladas, mas muito praticadas. O mundo da rua é aquele da sociedade, em que vicejam inúmeras regras que exigem anonimato, neutralidade e isenção", escreveu DaMatta.
No Brasil, essa distinção não existe.
No país aristocrático em que vivemos, o mundo da casa se sobrepõe ao da rua, até mesmo nas falcatruas.
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