Argentina: disputa por 2027 já começou
Investidores já olham para a eleição de 2027 na Argentina, enquanto Javier Milei perde popularidade, mas segue competitivo nas pesquisas
Os investidores argentinos já começaram a olhar para a eleição presidencial de 2027. Um dos sinais está no mercado de títulos públicos.
Papéis com vencimento depois da disputa continuam pagando juros superiores aos que vencem antes da votação, indicando que parte do mercado atribui um prêmio de risco ao período eleitoral e à possibilidade de mudanças na condução da política econômica.
Essa cautela acompanha um cenário político mais complexo do que o observado há poucos meses. Apesar do desgaste enfrentado pelo presidente Javier Milei, as pesquisas ainda não apontam uma mudança clara na liderança da corrida presidencial.
Levantamentos recentes mostram que a aprovação do governo permanece próxima de 40%, enquanto diferentes pesquisas de intenção de voto continuam mostrando Milei à frente de Kicillof ou em empate técnico, dependendo do instituto e do cenário pesquisado.
A perda de popularidade do presidente, no entanto, tornou a disputa menos previsível do que parecia há alguns meses. Embora o governo tenha reduzido a inflação em relação aos níveis herdados da gestão anterior, desemprego, recuperação lenta dos salários e denúncias envolvendo integrantes da administração aumentaram o desgaste político e reduziram parte do capital acumulado por Milei no início do mandato.
Apesar disso, o governo Milei preserva alguns indicadores econômicos favoráveis. O superávit fiscal primário foi mantido, a inflação segue em desaceleração e as projeções de mercado apontam crescimento do PIB superior a 4% em 2026. Esses fatores ajudam a explicar por que o presidente continua competitivo nas pesquisas eleitorais.
A combinação entre um desempenho econômico ainda favorável em alguns indicadores e um cenário político mais aberto ajuda a explicar por que os ativos argentinos passaram a incorporar um prêmio de risco maior para o período posterior à eleição de 2027.
Esse cenário abriu espaço para uma parcela do eleitorado que hoje não se identifica nem com Milei nem com o peronismo representado por Kicillof. Pesquisa da consultoria TresPuntoZero mostra que quase 30% dos argentinos afirmam não votar em nenhum dos dois, percentual muito superior ao registrado em 2025.
A existência desse eleitorado sem preferência definida indica que ainda há espaço para candidaturas fora da atual polarização, embora nenhum nome tenha conseguido ocupar esse espaço de forma consistente até agora.
Até o momento, porém, essa alternativa permanece apenas como possibilidade. Kicillof ainda trabalha para consolidar sua liderança dentro do peronismo sem depender politicamente da ex-presidente Cristina Kirchner, condenada, inelegível e vista por parte do próprio movimento como um fator de desgaste eleitoral. Paralelamente, Sergio Massa mantém articulações nos bastidores em busca de espaço na reorganização da oposição.
Enquanto isso, Milei tenta preservar sua vantagem apoiando mudanças nas regras eleitorais, entre elas o fim das eleições primárias obrigatórias. Caso a oposição permaneça fragmentada até 2027, o presidente poderá continuar competitivo, mesmo enfrentando um ambiente político mais desafiador do que o observado após sua vitória eleitoral e nos primeiros meses de governo.
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