A operação russa que expôs a Europa
Relatório atribui à Rússia uma campanha de vigilância sobre instalações nucleares e militares em mais de uma dezena de países
Um relatório do centro de estudos britânico IISS (International Institute for Strategic Studies) atribuiu à Rússia uma campanha coordenada de vigilância com drones contra instalações nucleares e militares na Europa, conduzida com grande impunidade ao longo de cerca de 19 meses, entre o fim de 2024 e meados de 2026.
O levantamento mapeou 144 sobrevoos suspeitos em mais de uma dezena de países da Otan, além da Irlanda, e nenhum dos drones analisados no relatório foi capturado ou abatido pelas defesas ocidentais, diferentemente do que ocorreu em setembro de 2025, quando a Otan abateu drones que invadiram o espaço aéreo da Polônia, episódio fora do escopo do estudo. O autor do estudo, Charlie Edwards, descreveu essa falha como um fracasso estratégico da aliança.
Entre os alvos estão a base aérea de RAF Lakenheath, no Reino Unido, que passou a abrigar armas nucleares americanas em julho de 2025, a base naval francesa de Île Longue, onde ficam os submarinos nucleares da França, e as bases de Kleine-Brogel, na Bélgica, e Volkel, na Holanda, que, segundo o IISS, abrigariam bombas nucleares dos Estados Unidos sob o acordo de compartilhamento nuclear da Otan, informação que os governos da Holanda e da Bélgica não confirmam nem negam oficialmente.
Segundo o relatório, os drones provavelmente foram lançados a partir de navios da "frota-fantasma" russa navegando com o sistema de rastreamento desligado, entre eles o petroleiro Boracay, apreendido pela Marinha francesa em setembro, com um capitão chinês e dois russos empregados pelo Grupo Moran, empresa de segurança privada russa que seria parte de uma campanha que o IISS acredita ter sido orquestrada pela GRU, a agência de inteligência militar russa.
Os sobrevoos atingiram o pico em setembro e novembro de 2025, com mais de 30 registros em cada mês, a maioria na Alemanha, e provocaram o fechamento temporário de aeroportos em Copenhague, Munique e na Espanha.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, chamou os episódios em seu país de o "ataque mais grave" já registrado contra a infraestrutura crítica dinamarquesa.
A Rússia nega envolvimento. O presidente Vladimir Putin afirmou, em maio, que o país não conduz uma campanha de sabotagem contra a Europa, e o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, respondeu com ironia ao ser questionado sobre o relatório.
Autoridades da Otan, como o vice-comandante-supremo aliado na Europa, John Stringer, reconheceram que cabe a cada país decidir como reagir, já que a maioria dos governos evita atribuir os incidentes diretamente a Moscou.
Segundo o IISS, os objetivos da campanha incluíam vigiar o arsenal nuclear da Otan, testar o tempo de resposta das defesas aliadas, mapear rotas logísticas militares e gerar custo econômico e pressão psicológica sobre os países-alvo. O número de sobrevoos caiu depois que marinhas europeias passaram a apreender navios da frota-fantasma em 2026.
Essa campanha de drones se insere em um padrão maior de operações híbridas russas na Europa. Em relatório publicado em agosto de 2025, o IISS afirmou que o número de ações de sabotagem atribuídas à Rússia na Europa quase quadruplicou entre 2023 e 2024, abrangendo desde interferências em cabos submarinos até interrupções logísticas, revelando uma estratégia coordenada de desgaste contínuo.
O padrão sistemático de sobrevoos sobre instalações nucleares, historicamente entre os alvos mais sensíveis do continente, sugere planejamento de longo prazo, e não incidentes isolados, aumentando o risco de um incidente em meio à guerra na Ucrânia.
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