O Governo Federal lançou, no início desta semana, o Novo Desenrola Brasil, programa que permite a renegociação de dívidas com descontos e condições de pagamento facilitadas. Para famílias endividadas, a medida pode representar um alívio imediato. Para a economia, porém, o quadro é mais complexo, analisam economistas.
Especialistas em finanças apontam pontos positivos da medida no meio social do país, mas também alertam para riscos estruturais que o programa não resolve.
Podem aderir pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, o equivalente a R$ 8.105. O programa também permite o uso de parte do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitar ou reduzir dívidas.
O que tem de positivo, segundo especialistas?
O principal benefício imediato é o alívio no orçamento das famílias. O economista Alexandre Chaia, professor de finanças do Instituto Insper, avalia que o programa melhora a relação das famílias com a dívida em um momento em que o endividamento ainda compromete a qualidade de vida. Para ele, reduzir juros e melhorar essa relação “abre mais espaço no orçamento”.
Os descontos previstos vão de 30% a 90%, a depender do tempo de atraso e do tipo de crédito. A planejadora financeira Carol Stange destaca que, para quem está preso a ciclos de juros que podem chegar a 400% ao ano, a renegociação com desconto elevado e juros limitados a 1,99% ao mês representa uma saída concreta.
A inclusão de dívidas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) também é vista como acerto. Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, avalia que alcançar esse passivo estudantil pode evitar que jovens e recém-formados sigam travados por dívidas de longo prazo. Os descontos para o Fies podem chegar a 99%.
Outro ponto positivo é o bloqueio do CPF do beneficiário em plataformas de apostas por 12 meses. Stange considera a medida coerente, já que parte do endividamento atual tem relação direta com o crescimento das bets.
E o que preocupa os especialistas?
A crítica mais recorrente dos economistas é que o programa não trata diretamente a causa dos endividamentos, e sim o que chamam de “sintoma”. Para Araújo, o Desenrola ataca a dívida já acumulada, mas não elimina os fatores que empurram as famílias para o vermelho, como crédito caro, renda apertada e juros elevados.
O economista Bruno Carazza, comentarista do Jornal da Globo, lembra que o primeiro Desenrola, em vigor entre junho de 2023 e maio de 2024, trouxe alívio temporário, mas o endividamento voltou a crescer depois.
Há também a preocupação com os gastos públicos. O governo vai usar entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões em recursos esquecidos por trabalhadores em bancos para viabilizar os descontos. Chaia alerta que esse dinheiro terá de ser reposto em algum momento.
O uso do FGTS também divide opiniões. Apesar do alívio imediato, a redução do saldo enfraquece a proteção do trabalhador em caso de demissão. Stange alerta que, para quem tem emprego instável, pode ser trocada uma vulnerabilidade por outra. Além disso, o fundo é uma das principais fontes do Minha Casa Minha Vida, e o governo pode ter que compensar essa saída com mais recursos públicos.




