Um novo relatório divulgado nesta semana aponta que os usuários de smartphones no Reino Unido passarão uma média de quatro anos e oito meses de suas vidas utilizando o dispositivo sem um propósito claro.
O estudo, intitulado Age of Autopilot e encomendado pela Virgin Media O2, revela que 36% do tempo total de tela, equivalente a cerca de 1 hora e 26 minutos por dia, é gasto em rolagens involuntárias e sem objetivo definido.
A pesquisa, que ouviu mais de 6.000 participantes entre 2024 e 2026, destaca que esse comportamento não é apenas uma falha de disciplina individual, mas uma resposta ao design imersivo da tecnologia moderna.
Não é falta de vontade
Segundo a Dra. Eleanor Drage, pesquisadora sênior do Leverhulme Centre for the Future of Intelligence na Universidade de Cambridge, a culpa não é necessáriamente do usuário pelo grande período de “scrolling” no celular.
“Os resultados deste estudo mostram que o que percebemos como nossa escolha sobre como usamos nossos dispositivos é minado pela natureza imersiva da tecnologia”, afirmou Drage. “Não estamos usando nossos dispositivos da maneira que pretendemos. A lacuna crescente entre nossas intenções e nossas ações não será resolvida apenas por indivíduos.”
A especialista enfatiza que o primeiro passo para retomar o controle é reconhecer que o ambiente digital é projetado para capturar a atenção, muitas vezes independentemente da vontade do usuário. Para Drage, a solução exige uma “mudança sistêmica”, incluindo a reformulação dos ambientes digitais.
Impactos na saúde
O relatório identifica correlações diretas entre o uso não intencional e diversos prejuízos à qualidade de vida. De acordo com a pesquisa, os maiores impactos são na qualidade do sono, foco e na habilidade do indivíduo criar conexões sociais verdadeiras e duradouras.
No caso da qualidade do sono e foco, entre os usuários com altos níveis de uso involuntário, 41% relataram sono prejudicado e 23% notaram redução na capacidade de atenção.
Já na área social, 23% dos participantes sentiram que suas conexões pessoais foram reduzidas, enquanto 61% admitiram não estar “totalmente presentes” em momentos com entes queridos devido aos hábitos digitais.
Além disso, 24% dos entrevistados relataram terem sofrido exposições a conteúdos nocivos, desagradáveis ou prejudiciais durante essas sessões de “piloto automático”.
Cerca de 14 milhões de pessoas no Reino Unido gastam mais da metade do tempo no celular sem um motivo claro, sendo o grupo mais suscetível a esses efeitos negativos.
Resposta à pesquisa
Diante dos dados, a Virgin Media O2 anunciou o financiamento de um observatório de bem-estar digital por cinco anos na Universidade de Cambridge e o lançamento de um “Manifesto de Bem-Estar Digital“. A operadora também firmou parceria com a cantora Mel B para lançar o O2 Scroll Stopper, uma ferramenta que envia lembretes para pausas sem tela.
O governo britânico também reagiu. Kanishka Narayan, Ministro de IA e Segurança Online, declarou que a melhoria do bem-estar digital exige ação em múltiplas frentes, combinando regulação eficaz com educação midiática para ajudar as famílias a navegar no mundo online de forma crítica e intencional.



