O sonho de trabalhar no Vale do Silício perdeu seu brilho para muitos jovens estadunidenses. Pela primeira vez em décadas, os corredores dos departamentos de Ciência da Computação nas universidades dos Estados Unidos estão esvaziando. Um relatório divulgado nesta semana pelo Goldman Sachs aponta que há um medo crescente dos trabalhadores de TI serem substituídos pela Inteligência Artificial (IA).
De acordo com o relatório, no ano acadêmico de 2025-2026, as matrículas em cursos de Ciência da Computação e Programação despencaram mais de 10%, segundo dados do National Student Clearinghouse analisados pelo Goldman Sachs.
O relatório destaca que a área da tecnologia da informação, que históricamente registra crescimento explosivo, sofre sua primeira virada. No caso, enquanto trabalhadores já estabilizados vem relatando maior confiança e tranquilidade no ramo, os estudantes vem dando voz a seus medos de que a IA automatize os empregos de nível inicial antes mesmo que os estudantes se formem.
Êxodo, mas para qual área?
Enquanto a tecnologia sangra alunos, áreas consideradas “à prova de algoritmos” vivem um boom. O mesmo relatório do Goldman Sachs aponta que cursos nas áreas de Saúde e Engenharia viram suas matrículas crescerem cerca de 3%.
A lógica dos estudantes que investem nessas áreas é que, se uma máquina pode escrever código ou analisar dados estatísticos, ela não pode, ao menos por enquanto, cuidar de um paciente idoso com a mesma empatia humana ou gerenciar a complexidade física de uma obra de engenharia.
“É uma reavaliação completa do valor do diploma”, explica Pierfrancesco Mei, economista do Goldman Sachs que liderou o estudo. “Historicamente, ajustes levavam anos. Agora, com a saliência da disrupção da IA, os estudantes estão votando com os pés em tempo recorde.”
Instituições de prestígio sentem o impacto. Na Universidade Estadual do Arizona, a matrícula em bacharelado em Ciência da Computação caiu 14% entre o outono de 2024 e 2025. Na Universidade de Washington, a proporção de graduandos em computação reduziu 16% em dois anos.
Revolta da Geração Z
A revolta é tanta que, para se ter uma ideia, durante a cerimônia de graduação da Universidade do Arizona realizada em maio deste ano, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, foi recebido com vaias estrondosas assim que mencionou o potencial da Inteligência Artificial.
“Há um medo na sua geração de que o futuro já esteja escrito, que as máquinas estão vindo, que os empregos estão evaporando”, admitiu Schmidt no microfone, tentando acalmar a plateia hostil de 10.000 formandos. “Eu entendo esse medo.”
Vale ressaltar ainda que o incidente no Arizona não foi isolado. Graduandos em diversas universidades têm interrompido discursos pró-IA. Para especialistas, isso aponta que está crescendo um ressentimento especialmente entre os mais jovens de que a tecnologia, vendida como ferramenta de progresso, é vista agora como uma ameaça existencial à sua estabilidade econômica.
Pesquisas indicam que 70% dos universitários veem a IA como um risco iminente para seus primeiros empregos, e quase metade da Geração Z acredita que os riscos da tecnologia superam seus benefícios.




