O governo da Suécia está revertendo o modelo de ensino digital que dominou as salas de aula do país nas últimas duas décadas. A aposta agora é nos livros físicos, papel e lápis, como resposta à queda nos índices de compreensão de leitura e matemática dos estudantes suecos.
O movimento já é visível nas escolas. Em uma unidade de ensino médio de Nacka, perto de Estocolmo, alunos do último ano chegam às aulas com livros impressos e cadernos enquanto os laptops ficam cada vez mais de lado.
Mudança vem depois das autoridades virem queda nos números
A Suécia, que figurava entre os primeiros colocados no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), despencou na avaliação em 2012 e voltou a cair de forma expressiva em matemática e leitura em 2022. Naquele ano, 24% dos estudantes de 15 e 16 anos não alcançaram o nível básico de compreensão de textos, resultado inferior ao de países como os EUA.
Os laptops haviam se tornado padrão nas salas de aula do país no final dos anos 2000. Em 2015, cerca de 80% dos alunos do ensino médio já tinham acesso individual a um dispositivo. Em 2019, o uso obrigatório de tablets foi até incluído no currículo da pré-escola.
Intervenção federal
As mudanças começaram a ser feitas após Ulf Kristersson, um dos representantes da direita do país, ser eleito primeiro-ministro com sua coalizão. Na área da Educação, o governo adotou um lema autoexplicativo: “från skärm till pärm”, que significa algo como “da tela para o fichário”.
“Na verdade, estamos tentando nos livrar das telas ao máximo possível”, disse Joar Forsell, porta-voz de educação do Partido Liberal, cujo líder é o ministro da Educação do país.
Desde 2025, as pré-escolas deixaram de ser obrigadas a usar ferramentas digitais. Ainda em 2026, entra em vigor uma proibição de celulares nas escolas, inclusive para uso educacional. As escolas já receberam mais de R$ 1 bilhão em subsídios para investir em livros didáticos.
O que a ciência diz sobre isso?
A neurocientista Sissela Nutley, do Instituto Karolinska de Estocolmo, integra o grupo de pesquisadores que levantaram preocupações sobre o uso excessivo de telas no ambiente escolar.
Segundo a neurocientista, estudantes podem perder a concentração ao observar o que os colegas fazem nas telas, e pesquisas internacionais sugerem que a leitura em dispositivos digitais pode dificultar o processamento de informações pelas crianças.
Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicado em 2026 reconheceu benefícios gerais das ferramentas digitais, mas apontou alta incidência de distrações nas salas de aula suecas e correlacionou o uso intenso de dispositivos nas aulas de matemática a resultados inferiores.
Criticas
Apesar da mudança estar tendo recepção positiva em algumas partes do país, nem todos a veem tão bem. O setor de tecnologia educacional alerta que uma formação mais analógica pode deixar os estudantes mal preparados para o mercado de trabalho. Um relatório da União Europeia estima que 90% dos empregos em breve exigirão conhecimentos digitais básicos.
Jannie Jeppesen, CEO da associação Swedish Edtech Industry, defende que o debate entre telas e cadernos desvia a atenção de outros fatores que afetam o aprendizado, como a distribuição desigual de recursos e professores capacitados.
Há ainda a questão da inteligência artificial. Enquanto o governo quer ensinar sobre IA apenas no ensino médio, pesquisadores alertam que crianças de famílias com mais recursos já usam essas ferramentas com a ajuda dos pais, o que poderia ampliar as desigualdades no acesso ao conhecimento.




