Quarenta anos após a explosão do reator 4 de Chernobyl, em 26 de abril de 1986, a pergunta sobre um novo desastre nuclear de mesma magnitude volta ao debate.
A resposta de físicos nucleares e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) é consistente: um evento idêntico ao de 1986 é muito improvável hoje, mas não impossível.
Renato Cotta, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), resume o que tornou Chernobyl único:
“Não é correto dizer que qualquer reator pode explodir como Chernobyl. Essa combinação de fatores não está presente nos reatores modernos.”
O reator RBMK usado em Chernobyl tinha coeficiente de reatividade positivo, o que significa que a potência aumentava à medida que a água evaporava, criando um ciclo de amplificação fora de controle.
Além disso, as barras de controle tinham pontas de grafite que, ao serem inseridas, aumentavam momentaneamente a reatividade antes de reduzi-la, um defeito de projeto reconhecido e não corrigido.

O que mudou desde 1986
Após o desastre, a comunidade internacional criou dois tratados que seguem em vigor: a Convenção sobre a Pronta Notificação de Acidentes Nucleares e a Convenção sobre Assistência em Caso de Acidente Nuclear.
Ambos estabeleceram pela primeira vez a obrigação de alertar o mundo imediatamente, evitando o silêncio de quase três dias que marcou a resposta soviética em 1986.
Os reatores modernos mais comuns, como o VVER-1000, operam com coeficiente de vazio negativo, o que significa que a reatividade cai automaticamente se a água esquenta. Esse mecanismo passivo de autorregulação reduz drasticamente o risco de uma escalada de potência descontrolada como a que destruiu o reator soviético.
Contudo, a AIEA identificou um risco diferente no contexto atual. A usina de Zaporizhzhia, a maior da Europa, ficou sem energia externa pelo menos 13 vezes desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia.
Cada vez que isso ocorre, os geradores a diesel de emergência precisam ser acionados para manter o resfriamento dos reatores em funcionamento.
O risco que a guerra criou
Conforme comunicados oficiais da AIEA, a instabilidade operacional prolongada em zonas de conflito reduz as redundâncias de segurança que protegem as usinas em condições normais.
O professor Cotta reforça: “A AIEA tem enfatizado exatamente esse ponto: o risco sistêmico associado à instabilidade operacional em condições de guerra.”
Fukushima, em 2011, ilustra esse cenário: o tsunami danificou os geradores a diesel da usina e impediu o resfriamento do reator, levando ao colapso do núcleo.
A explosão foi de hidrogênio, não nuclear, e o evento foi mais contido do que Chernobyl, mas mostrou que falhas de infraestrutura externa continuam sendo o elo mais frágil da segurança nuclear global, mesmo em reatores modernos.




