A Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que a Covid-19 vitimou aproximadamente 22,1 milhões de pessoas entre 2020 e 2023, um número três vezes superior aos 7 milhões de óbitos oficialmente reportados pelos governos nacionais. Os dados foram apresentados no relatório “Estatísticas Mundiais de Saúde”.
Enquanto os dados oficiais brasileiros estacionaram na marca de 702.116 óbitos confirmados por teste, a metodologia de “mortalidade excedente” aplicada pela OMS indica que o verdadeiro impacto da pandemia no território nacional foi drasticamente subnotificado.
Os estudos de excesso de mortalidade apontam que, apenas nos anos de 2020 e 2021, o Brasil registrou mais de 628 mil mortes acima do esperado para o período, sugerindo que o total de vítimas, ao incluir óbitos sem teste e mortes indiretas decorrentes do colapso hospitalar, supera os números oficiais.
Qual foi a metodologia do estudo?
De acordo com os estudiosos, a diferença entre os números oficiais e os números do estudo vem da forma de contagem. Os registros civis tradicionais contabilizam apenas quem morreu com um teste positivo para SARS-CoV-2.
No entanto, a OMS utilizou o conceito de mortalidade excedente, que mede a diferença entre o total de óbitos ocorridos durante a pandemia e o número que seria esperado em condições normais, baseando-se em dados históricos. No caso, comparam a média de mortes nos anos de pandemia e nos “comuns”.
Ou seja, o estudo comparou os anos. Por exemplo, se antes da pandemia morriam uma média de 1,5 milhões de pessoas no país e, durante a pandemia, esses números aumentaram expressivamente, seria seguro assumir que as “mortes excedentes”, mesmo que sem diagnóstico de Covid-19, possam ter sido causadas por ela.
Essa métrica captura a “ponta do iceberg” que os sistemas de saúde não viram. Foram levadas em consideração mortes não diagnosticadas de brasileiros que faleceram em casa ou em hospitais sem acesso a testes. Além disso, também analisaram mortes indiretas, como vítimas de infartos, diabetes e câncer que morreram devido ao medo de procurar atendimento ou à falta de leitos e recursos desviados para o combate ao coronavírus.
Contraponto aos números oficiais
O estudo teve o objetivo de não apenas buscar números mais próximos da realidade, mas também apontar o cenário de subnotificação. Enquanto o mundo reportava 7 milhões de mortes, a realidade era de mais de 22 milhões.
Pesquisas indicam que o número real de infecções no país chegou a ser 11 vezes maior do que o notificado em certos períodos. A região Norte foi a mais afetada proporcionalmente: o estado do Amazonas, por exemplo, registrou uma taxa de excesso de mortalidade de quase 50% em 2020, muito acima da média nacional.
Além disso, estados populosos como São Paulo, embora tenham tido o maior número absoluto de mortes oficiais (mais de 180 mil), apresentaram taxas relativas de excesso menores comparadas ao Norte devido à maior acessibilidade à saúde e tecnologia de testagens.
O que causou essa subnotificação?
Especialistas apontam para uma chamada “máquina de desinformação” e negacionismo como principais culpados pela subnotificação. Com 73% dos brasileiros tendo acreditado em pelo menos uma notícia falsa sobre a pandemia, a adesão a medidas preventivas foi comprometida, e a confiança nos dados oficiais, erodida.
O colapso hospitalar, especialmente durante a crise do oxigênio em Manaus e o recorde de mortes diárias em 2021, impediu que muitos óbitos fossem corretamente codificados. Muitas vítimas foram registradas apenas como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), sem a especificação da Covid-19.



