Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revela que os brasileiros destinam mais de R$ 30 bilhões mensais a apostas online, as chamadas “bets“, um volume que saltou de quase zero em 2023 para patamares bilionários em apenas três anos.
Enquanto o dinheiro deixa de circular no comércio, no pagamento de contas essenciais e na poupança das famílias, o Governo Federal enfrenta críticas por atuar de forma reativa diante do que especialistas classificam como um novo vício em massa.
Em resposta a isso, o Executivo publicou, neste mês, o Decreto nº 13.033/2026, uma medida de “asfixia financeira” que obriga os bancos a bloquear recursos de operadores ilegais. A ação, no entanto, chega após o mercado ilegal já representar entre 41% e 51% do setor e causar um rombo de R$ 143 bilhões no varejo desde o início de 2023.
Êxodo de recursos do varejo
De acordo com a CNC, o impacto econômico é severo. A confederação alerta que o dinheiro injetado nas plataformas de bets não é “renda nova”, mas sim recurso desviado do consumo tradicional. Ou seja, dinheiro que as famílias brasileiras antes investiam no varejo e recursos essenciais (como alimentação) estão sendo usados em bets.
O primeiro impacto apontato pela CNC é o rombo no comércio. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência severa ligada a jogos de azar retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. Esse montante equivale ao faturamento total do varejo em dois períodos de Natal somados.
O segundo impacto é o endividamento das famílias brasileiras. O estudo aponta que cerca de 270 mil famílias entraram em estado de inadimplência severa (atraso superior a 90 dias) diretamente por causa das apostas.
Dilema no Bolsa Famílias
Um dos pontos mais sensíveis da crise é o desvio de verbas assistenciais. Dados indicam que, apenas em janeiro de 2025, beneficiários do Bolsa Família movimentaram R$ 3,7 bilhões em apostas via Pix, o que representou 27% do total pago pelo programa no mês.
Embora o governo tenha tentado implementar bloqueios automáticos para impedir que beneficiários usassem esses recursos em sites de jogos, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu parte dessas medidas cautelares no final de 2025.
Até a audiência de conciliação marcada para fevereiro de 2026, a proibição de abertura de novas contas permanece, mas o fechamento compulsivo de contas ativas foi barrado, mantendo uma porta aberta para o fluxo de recursos sociais para as bets.
Resposta “atrasada”
Diante da escalada do mercado ilegal e da evasão fiscal, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva endureceu o cerco sobre as bets. O novo decreto regulamenta o bloqueio de ativos financeiros de operadores sem autorização.
O Decreto nº 13.033/2026 libera a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) a emitir autos de constatação contra operadoras ilegais. Após isso, as instituições financeiras têm 24 horas para bloquear os valores e interromper transações. Se confirmada a irregularidade, os valores são perdidos em favor da União e transferidos ao Fundo Nacional de Segurança Pública.
Ministros da Fazenda e da Justiça defendem a medida como um corte na “veia jugular” do crime organizado, comparando a tática às operações contra facções. Contudo, críticos argumentam que a regulamentação chega tarde demais, permitindo que centenas de bilhões de reais já tenham sido drenados da economia formal.




