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    Crônica

    Um novo Oriente Médio

    A região deve ter menos presença de Rússia e Irã. Por outro lado, Turquia e Arábia Saudita ganham destaque

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    Samuel Feldberg
    6 minutos de leitura 02.01.2026 03:30 comentários 0
    Trump e Mohammed bin Salman. Foto: Joyce N. Boghosian
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    O Oriente Médio passou por uma enorme transformação nos últimos anos.

    A Primavera Árabe já havia destruído a Líbia e desestruturado a Síria.

    Por outro lado, os ataques de 7 de outubro de 2023, não só não destruíram Israel, como reafirmaram o seu poderio.

    Agora, encerrados os principais combates, inicia-se uma fase de articulações que tem no centro os Estados Unidos de Donald Trump e a reconfiguração de poder na região.

    MBS em Washington

    A visita do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, a Washington em novembro enfatizou a mensagem de que a Arábia Saudita é um parceiro estratégico dos Estados Unidos, com um status semelhante ao de Israel.

    A visita incluiu a assinatura de uma série de entendimentos e acordos com implicações estratégicas significativas para o cenário regional, inclusive o compromisso de Trump de vender à Arábia Saudita aeronaves F-35, bem como cooperação em energia nuclear civil, minerais críticos, tecnologias avançadas e segurança.

    O aprofundamento desta relação fortalece os Estados Unidos em relação à China e mantém a influência ocidental sobre tecnologias centrais no Oriente Médio, contribuindo para a estabilidade regional.

    Para Israel, a cooperação entre EUA e Arábia Saudita pode criar um novo diálogo regional e até apoiar futuros processos de normalização.

    Ao mesmo tempo, o fornecimento do F-35 exige uma reavaliação dos mecanismos de preservação da vantagem militar qualitativa de Israel e uma compreensão de até que ponto a implementação desses negócios será condicionada ao avanço da normalização entre os dois países.

    No passado, quando os Estados Unidos forneceram à Arábia Saudita os modernos aviões F-15, estes deixaram de ser equipados com tanques de combustível externos, para limitar seu alcance e atender a uma preocupação israelense.

    A Arábia Saudita voltou a prometer vultuosos investimentos nos Estados Unidos, mas atualmente toma empréstimos para lidar com sua situação de déficit fiscal e enormes investimentos em infraestrutura.

    Na melhor das hipóteses, os números prometidos serão apresentados se as compras de armamentos forem contabilizadas como investimento.

    O que fica em aberto são questões relacionadas ao que prometeu a Arábia Saudita em troca do acesso ao F-35 — como garantir que equipamentos antiaéreos russos e chineses não possam “aprender” a evitar seus radares e como reagirá a Turquia, que teve seu projeto ligado ao F-35 cancelado, apesar de ser membro da Otan.

    A Turquia de Erdogan apresenta um novo protagonismo na região.

    O país ficou em evidência principalmente por sua intermediação para a obtenção do cessar-fogo entre Israel e o Hamas em Gaza, e seu papel na derrubada do governo de Bashar Assad na Síria.

    No resto do mundo, será criada uma nova percepção de ameaça se a Síria se tornar, na prática, um proxy da Turquia, estendendo a sua presença até a fronteira das Colinas de Golan, no norte de Israel.

    Isso poderia ampliar o risco de um confronto entre Israel e Turquia.

    A percepção da Turquia como um elemento possivelmente desestabilizador (assim como o Irã) decorre do compartilhamento ideológico e de valores da Irmandade Muçulmana, tendo como objetivo impulsionar Jerusalém como tema central do discurso islâmico radical.

    Dezenas de milhões de dólares doados pelo governo turco foram transferidos a organizações em Jerusalém Oriental para fortalecer o caráter e a herança muçulmana da cidade, o que provoca enorme insegurança nas autoridades jordanianas, legalmente responsáveis por essas atividades.

    Os laços da Turquia com o Hamas, que antes eram um fardo, transformaram-se em ativo geopolítico para Washington.

    Mas a aspiração turca de colocar forças militares como parte de uma força multinacional em Gaza constitui perigo aos interesses estratégicos de Israel, pois garantirá que o Hamas seja apenas parcialmente desarmado e se torne parceiro político do governo de tecnocratas que deveria governar Gaza.

    A conquista na Síria

    A decisão do governo israelense, em 2011, de não intervir na guerra civil síria levou à consolidação da presença do Irã, do Hezballah e de milícias pró-iranianas na Síria, exigindo também uma estreita coordenação com os russos, aliados de Assad.

    Enquanto isso, a Turquia apoiou durante anos as organizações jihadistas e permitiu seu controle da província de Idlib, de onde partiram para derrubar o regime sírio.

    E criou uma zona-tampão para afastar as forças curdas da fronteira, ocupando assim partes do norte da Síria.

    Al-Julani, hoje o presidente sírio Ahmed al Sharaa, tornou-se parceiro estratégico do turco Recep Erdogan, embora ainda mantenha certo grau de independência, tentando apresentar-se como um líder moderado, defensor também de todas as minorias sírias.

    A queda do regime de Assad, juntamente com o declínio do status dos grandes aliados da Síria — Rússia e Irã — permitiu à Turquia aumentar significativamente sua influência no país, o que poderia transformar a Síria em protetorado turco.

    Assim, substituiria o Irã como principal ator anti-israelense na Síria e construiria um bloco sunita islamista que, no atual contexto, poderia ser visto pelo Ocidente como uma barreira ao radicalismo xiita.

    No contexto geopolítico mais amplo, a Turquia compete com o projeto que pretende ligar a Índia, via Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordânia e Israel, com conexões marítimas até a Europa, percebido como alternativa estratégica à Iniciativa do Cinturão e Rota da China (também chamado de Rota da Seda).

    O propósito da iniciativa é promover a “Estrada do Desenvolvimento”, através do Iraque e da Síria, em cooperação com o Catar.

    Os turcos talvez representem a mais importante mudança deste período. Se adotarem uma postura hostil a Israel, eles poderiam até superar a ameaça iraniana.

    O país tem um importante Exército moderno e, desde o final de 2024, uma ponte através da Síria, que pode se projetar até a Jordânia, Israel e Arábia Saudita.

    Em resumo: veremos menos a atuação da Rússia, que se contenta em manter suas bases na Síria, e do Irã, que tem que reconstruir seu poderio.

    Em contrapartida, haverá mais a presença da Turquia e da Arábia Saudita, que podem disputar áreas de influência na região.

    E os Estados Unidos podem se ver obrigados a fazer apostas arriscadas.

    Samuel Feldberg é diretor acadêmico do StandWithUs Brasil, doutor em Ciência Política pela USP, professor de Relações Internacionais, Pesquisador do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv e fellow em Israel Studies da Universidade de Brandeis.

    As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

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