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    Crônica

    O choque entre duas emoções no conflito israelo-palestino

    Negociações de paz deveriam abordar também as dimensões psicológicas dos conflitos mundiais

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    Maristela Basso
    4 minutos de leitura 20.02.2026 03:30 comentários 0
    Soldados israelenses em Gaza. Foto: FDI
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    O conflito entre israelenses e palestinos é tradicionalmente analisado sob lentes estratégicas: segurança, fronteiras, soberania, terrorismo, ocupação, reconhecimento estatal.

    No entanto, uma dimensão frequentemente subestimada ajuda a explicar a persistência do impasse: a arquitetura emocional que sustenta as decisões políticas de ambos os lados.

    O filósofo israelense Micah Goodman sugere que o conflito pode ser compreendido como um choque entre duas emoções coletivas estruturantes.

    Entre os israelenses, o sentimento predominante é o medo.

    Entre os palestinos, a humilhação.

    Essa leitura desloca o debate da pura racionalidade estratégica para a esfera da psicologia política.

    Medo

    O medo israelense não é circunstancial. Ele é constitutivo da identidade estatal.

    Está enraizado em uma memória histórica marcada por perseguições e culminando no trauma do Holocausto.

    Trata-se de um medo existencial — o temor de que a falha na autoproteção possa significar não apenas derrota política, mas aniquilação.

    Na psicologia social, o medo coletivo gera três respostas recorrentes: hipervigilância, ação preventiva e legitimação moral da segurança reforçada.

    Políticas de controle territorial, barreiras físicas, inspeções constantes e restrições de circulação são percebidas, nesse contexto, como instrumentos racionais de sobrevivência.

    Entretanto, aquilo que para um grupo é mecanismo de autopreservação, para o outro pode ser experiência de desvalorização.

    Humilhação

    É aqui que emerge a segunda emoção estruturante: a humilhação palestina.

    A humilhação não deriva primariamente do medo físico imediato, mas da percepção reiterada de inferiorização, perda de status e negação de dignidade.

    Medidas de segurança — ainda que justificáveis sob a lógica do risco — são vividas cotidianamente como sinais de subordinação coletiva.

    Reconhecimento

    A teoria do reconhecimento de Axel Honneth ajuda a iluminar essa dinâmica.

    Para Honneth, conflitos sociais emergem quando indivíduos ou grupos percebem que lhes foi negado reconhecimento nas esferas fundamentais da vida social — respeito jurídico, estima social e integridade moral.

    A ausência de reconhecimento gera experiências morais de injustiça que podem se converter em mobilização política.

    Nesse sentido, a humilhação não é apenas um sentimento subjetivo; é uma reação moral à percepção de desrespeito institucionalizado.

    Espiral emocional

    Forma-se, então, uma espiral emocional.

    O medo gera políticas de proteção.

    As políticas de proteção produzem experiências de humilhação.

    A humilhação alimenta ressentimento e radicalização.

    A radicalização confirma o medo inicial.

    Trata-se de um circuito de retroalimentação que transforma decisões defensivas em catalisadores de instabilidade.

    O impasse central pode ser formulado em termos simples e profundos.

    Israel busca um acordo que não comprometa sua segurança existencial.

    Os palestinos buscam um acordo que não perpetue sua condição de inferiorização.

    Ambas as demandas são legítimas. O problema reside na forma como, na prática, a satisfação de uma tende a corroer a outra.

    Paz

    Negociações tradicionais concentram-se na divisão territorial, na definição de fronteiras e em garantias militares.

    Mas raramente incorporam explicitamente a dimensão do reconhecimento simbólico e da segurança psicológica.

    Sem tratar essas variáveis, acordos tendem a ser tecnicamente sofisticados e politicamente frágeis.

    É nesse ponto que o debate contemporâneo sobre “peace engineering” — a construção deliberada de arranjos institucionais capazes de produzir confiança sustentável — ganha relevância.

    A paz não é apenas cessação de hostilidades. É a criação de mecanismos jurídicos e políticos que reduzam o medo de um lado e restaurem o reconhecimento do outro.

    Sem segurança, não há estabilidade.

    Sem reconhecimento, não há legitimidade.

    Enquanto medo e humilhação permanecerem como emoções estruturantes do sistema, qualquer acordo será vulnerável à próxima crise.

    O conflito israelo-palestino é, evidentemente, geopolítico. Mas também é um conflito por reconhecimento. E talvez só avance quando for tratado como tal.

    Maristela Basso é professora de direito internacional na USP

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