A ilusão da neutralidade
Quando a pressão do sistema internacional atinge o ponto de ebulição, a suposta solidariedade entre as potências médias evapora
O debate sobre a ordem global está saturado de anacronismos.
Acadêmicos e diplomatas, apegados às ilusões institucionais do final do século 20, continuam a pregar as virtudes de um mundo multipolar que, na realidade factual de 2026, não existe.
A paisagem internacional consolidou-se em uma bipolaridade rígida, um campo gravitacional de soma zero dominado por Washington e Pequim.
Para as chamadas potências médias — nações com peso econômico e regional significativos, mas sem escala para projeção de poder global —, o tempo da ambiguidade estratégica acabou. O disfarce do pragmatismo romântico foi arrancado pela dinâmica da realpolitik.
Historicamente, o manual de sobrevivência das potências médias consistia na prática do hedging: uma cobertura de riscos onde se terceirizava a segurança para a arquitetura ocidental liderada pelos EUA enquanto se colhiam os frutos do apetite comercial da China.
Esse jogo duplo dependia de uma premissa que desmoronou: a de que as duas superpotências tolerariam a indefinição em nome da estabilidade dos mercados.
Hoje, a competição sino-americana não é uma disputa por fatias de mercado, é uma colisão por hegemonia tecnológica, militar e normativa. Nesse cenário, o que as potências médias chamavam de neutralidade é interpretado por Washington e Pequim como desalinhamento ou, pior, deserção.
Quando a pressão do sistema internacional atinge o ponto de ebulição, a suposta solidariedade entre as potências médias evapora.
A ideia de que esses países podem se unir em coalizões ad hoc ou blocos independentes para contrabalançar os dois gigantes é uma fantasia que ignora como o poder bruto opera na anarquia internacional.
Diante de tarifas aduaneiras punitivas, sanções financeiras ou restrições ao acesso a mercados essenciais, o comportamento factual dessas nações é a dispersão. O cálculo de sobrevivência individual anula a ação coordenada.
É sob essa ótica desprovida de sentimentalismos que a inserção internacional do Brasil precisa ser dissecada.
Tecnologia
O país opera tradicionalmente sob o dogma do não-alinhamento, uma herança diplomática que pressupõe que a magnitude territorial, a autossuficiência alimentar e a distância geográfica dos principais teatros de guerra garantem um salvo-conduto de neutralidade perpétua.
No entanto, a realidade factual expôs os limites físicos e tecnológicos desse modelo. Em primeiro lugar, a disputa pela infraestrutura digital essencial — que abrange as redes de 5G/6G, a arquitetura de semicondutores, a inteligência artificial e as patentes de transição energética — removeu a possibilidade de neutralidade técnica.
Não há meio-termo na escolha de um ecossistema tecnológico estratégico. Adotar a infraestrutura digital chinesa aciona gatilhos automáticos de exclusão nos sistemas de segurança, inteligência e cooperação militar do Ocidente.
Brics
Em segundo lugar, a projeção brasileira por meio de blocos como os Brics padece de um erro crasso de diagnóstico sobre a assimetria interna do grupo.
O bloco não é uma liga de iguais concebida para democratizar a governança global.
Com as recentes expansões, os Brics consolidaram-se como uma órbita de gravidade econômica e geopolítica controlada de forma inequívoca por Pequim.
Ao buscar capitalizar politicamente no bloco para amplificar sua voz contra a hegemonia ocidental, o Brasil não está liderando uma coalizão alternativa, pois está, de fato, permitindo que sua diplomacia seja instrumentalizada como massa de manobra para a agenda revisionista chinesa.
O desejado multilateralismo transformou-se em um alinhamento por gravidade.
Segurança
A história recente oferece lições brutais sobre o custo de subestimar a realpolitik. A Austrália tentou exercer sua autonomia diplomática ao questionar Pequim e viu suas exportações agrícolas serem sumariamente estranguladas por sanções econômicas informais chinesas, e a resposta factual veio da capitulação da autonomia em troca do guarda-chuva militar americano via pacto Aukus.
A União Europeia, por sua vez, passou anos discursando sobre "autonomia estratégica", apenas para descobrir, ao primeiro disparo de artilharia em suas fronteiras, que sua segurança é inteiramente refém da infraestrutura e da vontade política de Washington.
Ficar no centro de um cabo de guerra entre duas potências nucleares exige um músculo econômico, tecnológico e militar que o Brasil e seus pares simplesmente não possuem.
A diplomacia performática de fóruns internacionais e os discursos moralistas perdem o valor diante de cadeias de suprimentos militarizadas e da diplomacia de coerção.
Para o analista que observa os fatos e não as narrativas, o diagnóstico é claro: a neutralidade absoluta na atual conjuntura não é demonstração de força ou independência, é o caminho mais rápido para a irrelevância estratégica e a vulnerabilidade econômica.
O Brasil não precisa escolher um lado por afinidade ideológica, mas precisa urgentemente abandonar o romantismo diplomático.
Em um mundo onde as superpotências traçam as linhas no chão com poder bruto, quem insiste em caminhar em cima delas inevitavelmente acaba atropelado.
Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia
X: @mcoimbra
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Comentários (3)
Marcilio Monteiro De Souza
2026-06-02 10:53:43Tá falado, o tempo de ficar encima do muro passou. Acabou.
Andre Luis dos Santos
2026-05-30 13:53:10Excelente. E lamentável que esse Lula, seu ParTidinho de merda, e seu Itamaraty de mais merda ainda, ainda se comportem como viuvas da falida União Soviética, seguindo com esse antiamericanismo idiota e essa vassalagem com a China.
ISABELLE ALÉSSIO
2026-05-30 09:16:59👏🏻🏆