Ricardo Stuckert/Twitter/LulaLula em viagem ao Nordeste com aliados locais: as alianças na região estão mais complicadas do que se previa

Os nós do PT no Nordeste

As dificuldades de Lula para fechar os palanques nos estados nordestinos sugerem que a “onda vermelha” na região pode ser menor do que foi nas eleições anteriores
07.04.22

Desde que chegou pela primeira vez ao poder em 2002, com Lula, o PT não sabe o que é perder no Nordeste em eleições presidenciais. Foram cinco vitórias consecutivas na segunda região do país em número de eleitores – hoje são 40 milhões de pessoas aptas a votar, o equivalente a 27% do eleitorado brasileiro. Em 2018, mesmo com a derrota de Fernando Haddad para Jair Bolsonaro, o partido conquistou 67% dos votos entre os nordestinos, 4% a menos do que em 2014, na reeleição de Dilma Rousseff. Neste ano, nada indica que o triunfo de Lula na região esteja sob risco. A alardeada “onda vermelha”, no entanto, pode não se reproduzir com a mesma intensidade. Isso porque o partido tem encontrado dificuldades tanto nas negociações dos palanques estaduais quanto para encontrar candidatos competitivos capazes de atuar como puxadores de votos. Há ainda casos em que os acordos fechados pelo PT com donos de extensas fichas corridas e figuras controversas da política nacional – apenas para atender às conveniências paroquiais – podem custar a Lula votos preciosos em alguns estados. Em suma, a cerca de seis meses das eleições presidenciais, as costuras políticas no Nordeste não fluem como o staff da campanha petista imaginava inicialmente.

A situação na Bahia, maior colégio eleitoral da região, é ilustrativa dos problemas encontrados pelo PT. Lá, o candidato de Lula ao governo é o ex-secretário de Educação Jerônimo Rodrigues. Neófito na política, ele aparece com míseros 4% nas pesquisas, ao passo que ACM Neto, da União Brasil, grande favorito para vencer o pleito, ostenta 66%. Não bastasse a imensa vantagem registrada até agora nos índices de intenções de voto, durante a janela partidária, a legenda do prefeito de Salvador teve o maior crescimento na Assembleia Legislativa: pulou de sete para doze deputados e encostou no PT, que ganhou apenas duas cadeiras e agora soma 13 assentos.

A formação dos palanques também assegura vantagem para ACM Neto. O herdeiro do velho carlismo baiano deve ter dez partidos em sua coalizão, contra sete do PT. Nas últimas semanas, os petistas sofreram nova baixa: depois de 14 anos, será a primeira vez que a sigla irá para uma eleição na Bahia sem o apoio do Progressistas, o antigo PP. Para piorar, na tentativa de recompor a aliança e atrair o MDB para vice na chapa do quase anônimo Jerônimo, os petistas celebraram um acordo com o notório Geddel Vieira Lima. Recém-liberado da tornozeleira eletrônica, o emedebista encontra-se atualmente em liberdade condicional, depois de ter ficado quatro anos preso em regime fechado, por causa do escândalo dos 51 milhões de reais encontrados em um apartamento em Salvador. Ninguém sabe ao certo qual será o impacto no eleitor de uma imagem com a dupla Lula e Geddel lado a lado, mas até integrantes do bem avaliado governo do petista Rui Costa na Bahia reconhecem que a parceria é eleitoralmente arriscada.

ReproduçãoReproduçãoGeddel Vieira Lima se aliou ao PT na Bahia
No Ceará, reduto de Ciro Gomes, pré-candidato ao Planalto pelo PDT, a divisão da esquerda implodiu o palanque petista. No terceiro maior colégio eleitoral do Nordeste, o autodenominado campo progressista trabalha com quatro nomes para o governo: o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, a vice-governadora Izolda Cela, o presidente da Assembleia Legislativa, Evandro Leitão e o deputado Mauro Filho. Detalhe: todos são do PDT de Ciro. Ou seja, o PT não terá candidato à sucessão do atual governador petista Camilo Santana, que concorrerá ao Senado, e ainda terá de ver partidos como PSB, PSD, PP e Solidariedade reforçando a possível coalizão cirista. Na melhor das hipóteses, o PT conseguirá indicar o candidato a vice na chapa. Mesmo assim, não há a mais remota chance de Lula subir no palanque montado para acomodar preferencialmente o candidato do PDT ao Planalto, hoje crítico mordaz do ex-presidente petista. “É completamente inviável que o palanque de Ciro receba Lula no primeiro turno”, assevera o deputado federal Denis Bezerra, do PSB cearense.

O eleitor, muitas vezes, não consegue dissociar as questões regionais das nacionais, o que reforça a importância de palanques bem costurados nos estados. “Pesquisas qualitativas estão mostrando que nesta eleição há um entrelaçamento de desafios locais e nacionais. Quando perguntamos quais desafios, o que mais incomoda o eleitor, ele cita os problemas do seu estado, que são os mesmos do Brasil. Isso significa que o desempenho do candidato a presidente será semelhante ao do seu candidato ao governo estadual”, afirma Adriano Oliveira, professor de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco.

Se essa realidade se reproduzir em Pernambuco, o segundo maior colégio eleitoral do Nordeste, Lula pode não alcançar os cerca de 70% dos votos que historicamente conquista no estado. Lá, em nome da aliança com o PSB do virtual vice de Lula, Geraldo Alckmin, o PT abriu mão da candidatura própria e ainda sofreu uma baixa: sentindo-se preterida, a deputada Marília Arraes, importante puxadora de votos, desembarcou no Solidariedade. Sem candidato, o PT ficou a reboque dos socialistas, que lançaram ao governo o deputado Danilo Cabral, pré-candidato da Frente Popular. A chapa de Cabral, no entanto, ainda está desfalcada. Até agora, não tem nem vice nem candidato ao Senado. Além disso, por ora, aparece nas pesquisas atrás do prefeito de Jaboatão dos Guararapes, Anderson Ferreira, candidato de Bolsonaro, cuja força eleitoral está concentrada na região metropolitana de Recife. Ferreira contará, em sua aliança, com o sanfoneiro Gilson Machado, ex-ministro do Turismo que concorrerá ao Senado.

Lula terá de superar também o acanhado tamanho do PT em Alagoas se quiser desbancar o bolsonarismo no estado do Nordeste em que Jair Bolsonaro obteve o seu melhor desempenho em 2018, com 40% dos votos. Por lá, os petistas só comandam uma prefeitura e irão enfrentar a aliança montada por Arthur Lira, provavelmente em torno do senador Rodrigo Cunha, que deixou o PSDB rumo à União Brasil para se candidatar ao governo. A seu favor, o possível candidato de Lira tem um ativo considerável: os milhões de reais em obras despejados pelo presidente da Câmara no estado via orçamento secreto – só em 2021, foram 500 milhões de reais. Para desbancar a coalizão do Centrão em Alagoas, Lula irá colar no notório Renan Calheiros, um antigo e fiel aliado. O senador emedebista pavimentou o caminho para a construção da candidatura do deputado estadual Paulo Dantas ao governo local e garantiu, assim, um palanque ao ex-presidente petista. O clã Calheiros pretende colocar à disposição de Lula toda a estrutura do MDB local, maior partido com 37 prefeituras. “Na prática, Lula e Bolsonaro serão os astros de mais uma queda de braço entre Renan e Lira. Em 2020, Lira levou a melhor”, lembra um interlocutor do MDB.

Edilson Rodrigues/Agência SenadoEdilson Rodrigues/Agência SenadoRenan é o homem de Lula em Alagoas para fazer frente à campanha bolsonarista, que será liderada no estado por seu rival Arthur Lira
O problema do PT em se associar a Renan é o mesmo de se vincular a Geddel na Bahia e de dividir palanque com Wellington Dias, no Piauí, sexto estado nordestino em número de eleitores. Embora Rafael Fonteles, candidato de Dias, lidere com folga as pesquisas quando é associado ao nome do ex-presidente, Lula pode sofrer desgaste na eleição nacional ao aparecer na foto ao lado de mais um nome enrolado na Justiça. Em janeiro de 2021, Wellington Dias foi alvo de uma operação da Polícia Federal que investigou contratos avaliados em 33 milhões reais, firmados sem licitação pela Secretaria da Saúde, para combater a pandemia. Meses antes, em julho de 2020, uma operação da PF teve como alvo sua mulher, a deputada Rejane Dias, numa investigação que apurou suspeitas de fraude em licitações no setor de transporte escolar durante a gestão dela à frente da Secretaria de Educação, entre 2015 e 2018.

Já no Maranhão, quarto colégio eleitoral do Nordeste, e onde o PT tem dois palanques garantidos, quem coordena a campanha de Lula é Roseana Sarney, cuja família dispensa apresentações. Ela própria foi apanhada no escândalo Lunus, em 2002, o que a impediu de ser candidata ao Planalto na eleição vencida pelo petista.

Aspectos éticos à parte — e não está garantido que eles realmente serão levados em conta pelos eleitores da região –, para tentar manter o poderio das eleições anteriores no Nordeste, a campanha do PT e de seus aliados de esquerda pretende martelar o argumento de que Bolsonaro “apenas repaginou os programas sociais” das gestões petistas. É até engraçado, porque é exatamente o que os tucanos diziam dos petistas, para tentar diminuir o efeito eleitoral do assistencialismo desavergonhado do governo Lula. “O Auxílio Brasil, por exemplo, é um ‘pix eleitoral’”, diz Danilo Cabral, pré-candidato ao governo de Pernambuco pela aliança PT-PSB.

Concorrer contra a máquina do governo federal numa região carente e historicamente dependente do estado é sempre um obstáculo a mais para quem está na oposição. Muito antes de ser majoritariamente petista, o eleitor nordestino era eminentemente governista. Prova disso é que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, venceu na região tanto em 1994, impulsionado pelo Plano Real, quanto em 1998, quando já era governo. Fernando Collor, quando estava na Presidência, também era altamente popular entre os brasileiros classificados por ele de “descamisados”. Enquanto o PT esteve no Planalto, Lula soube aproveitar o poder para fidelizar o eleitorado da região, à base, principalmente, dos repasses do Bolsa Família. Agora, com palanques trincados e o partido fora do governo, o “tsunami vermelho” na região pode estar ameaçado.

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