Foto: Adriano Machado/Crusoé

Guerra na base

A acusação de que o PTB estava sendo ‘negociado’ com o PL destampa a podridão escondida sob a disputa pelo comando de um dos principais partidos aliados do governo
04.02.22

Na quarta-feira, 2, Crusoé expôs os bastidores de um partido em chamas. Com exclusividade, revelou que o PTB, uma das principais legendas da base do governo e peça fundamental do projeto reeleitoral de Jair Bolsonaro, está em pé de guerra numa crise que opõe o dono da legenda, Roberto Jefferson, e Graciela Nienov, pupila que ele próprio havia guindado à presidência do diretório nacional, mas que estaria tramando pelas suas costas para isolá-lo depois de ele ter sido preso por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O capítulo mais grave da trama revelada dizia que, no meio do tiroteio, Graciela é  acusada de participar de uma negociata para “vender” o PTB a Valdemar Costa Neto, chefão do PL, por 30 milhões de reais.

A acusação de que o partido estava sendo negociado com o PL não apenas desnuda os podres por trás da disputa pelo comando da legenda como é potencialmente devastadora para o governo Jair Bolsonaro e para o seu projeto de se manter no poder por mais quatro anos. Uma briga dessa monta na base não é nada saudável. Apesar de ter devotado confiança a Bolsonaro no episódio atual –  o presidente chegou a receber Graciela no Palácio do Planalto em 11 de janeiro, um dia antes de a dirigente se encontrar com Valdemar –, Jefferson usa a seu favor o fato de ter se notabilizado como um político que não convém ter na trincheira oposta. Seu comportamento explosivo ficou nacionalmente conhecido durante o mensalão, quando, abandonado à própria sorte pelo PT, resolveu detonar o escândalo que engolfou o governo Lula. Valdemar, por sua vez, também é uma figura temida nos bastidores. Visto como cumpridor de acordos e exímio estrategista, multiplicou a bancada do PL no Senado, robusteceu a da Câmara dos Deputados, cooptando políticos de outras legendas, e levou para o seu partido o presidente, os seus filhos 01 e 03, Flávio e Eduardo Bolsonaro, e alguns de seus principais aliados.

Para Jefferson, as articulações para a incorporação do PTB ao PL teriam o propósito de esvaziá-lo politicamente, fazendo-o perder peso e representatividade nas negociações da campanha à reeleição de Bolsonaro. Graciela Nienov nega que estivesse negociando o partido com Valdemar e diz que processará os acusadores. “É mentira que qualquer representante da nova gestão do PTB tenha tentado vender o partido. As informações sobre suposta negociação são falsas, absurdas e irresponsáveis. Servem apenas para tumultuar o ambiente interno”, afirma.

Adriano Machado/CrusoéAdriano Machado/CrusoéValdemar, a quem Jefferson chama de “galinho mutuca”: inimizade figadal desde o mensalão
O clima nos bastidores entre os caciques já era pesado – Jefferson e Valdemar não se aturam desde o mensalão, mas a situação de lá para cá só se agravou. O presidente de honra do PTB há tempos chama seu arqui-inimigo do PL de “galinho mutuca”, como são conhecidos os  galos de rinha que fogem da briga. “Chama para a briga e depois não aguenta. Acha que vai voar alto, mas nunca consegue“, diz. Durante um discurso no sábado, 29, em meio a uma convenção estadual do PL, Valdemar, por sua vez, se referiu a Jefferson como alguém que “vive do fundo partidário”.

Cotado para assumir a presidência nacional do PTB no lugar de Graciela Nienov, Marcus Vinicius Ferreira, conhecido como “Neskau”, promete apaziguar os ânimos. Ele é o atual presidente do PTB fluminense. “Vou atuar para pacificar essa situaçãoComo aliados do presidente Bolsonaro, vamos ter que sentar na mesma mesa e nos aturar”, disse Marcus Vinicius, que é próximo de Flávio Bolsonaro.

Conforme Crusoé também revelou na quarta-feira, 2, para além da acusação de que PTB estava sendo negociado com o PL, pesam sobre Graciela Nienov suspeitas de malversação de recursos do caixa do PTB. Nesta semana, a disputa interna virou caso de polícia. Como Graciela resiste a deixar a presidência do PTB, na segunda-feira, aliados de Roberto Jefferson foram à sede do partido para formalizar a destituição, mas a iniciativa acabou na delegacia: em uma queixa prestada na Polícia Civil de Brasília, ela sustentou que está sendo “intimidada” a renunciar. Antes de registrar queixa, Graciela teria chegado a fazer um acordo com o grupo de Jefferson. Toparia deixar o posto desde que ela e seus aliados mais próximos recebessem os pagamentos a que tinham direito pelos serviços prestados no partido. Horas depois, voltou atrás e disse que ficaria na presidência da legenda.

PTB MulherPTB MulherGraciela Nienov nega as acusações e diz que vai seguir à frente do partido
Há uma tentativa de que parte do imbróglio comece a ser resolvido oficialmente no próximo dia 11, data marcada por aliados de Roberto Jefferson para a realização de uma convenção destinada a eleger a nova direção nacional do partido. Segundo a “ala robertista”, Graciela Nienov foi automaticamente afastada nesta quarta-feira, 2, após um movimento de quadros ligados ao presidente de honra do PTB, que, ao renunciarem a seus postos no diretório nacional, teriam levado à dissolução de toda a executiva – essa dissolução teria ocorrido porque mais da metade do colegiado assinou a renúncia.

A questão, porém, não é pacífica. Graciela promete não deixar barato e diz que permanece no posto, uma vez que foi eleita pela convenção nacional, dentro das regras estabelecidas no estatuto. “Trata-se de um ato jurídico perfeito que não pode ser anulado com bravatas, ameaças, fake news e conspiratas clandestinas.  A presidência do PTB entende que o desencontro de informações nos últimos dias provocou insatisfação em alguns setores, mas espera que as divergências sejam superadas num ambiente de respeito e cooperação”, diz.

Outra mudança que poderá ocorrer no PTB é de ordem familiar. Jefferson e a filha Cristiane Brasil, ex-deputada federal e integrante do diretório nacional, estavam sem se falar desde 6 de setembro do ano passado, quando ela criticou o pai justamente pelo apoio a Graciela Nienov. Agora, com Graciela na linha de tiro do cacique do PTB, uma conversa entre ambos deve ocorrer em breve. Se for realmente selada a reconciliação entre pai e filha, será o único resquício de paz no conturbado partido que é um dos aliados mais fiéis do governo Bolsonaro.

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