Foto: Alan Santos/PRFábio Faria é um dos comandantes da milionária publicidade do governo. Com recursos públicos, aliados de Jair Bolsonaro querem garantir vitrine para 2022

A máquina de propaganda de Bolsonaro

O governo se organiza para azeitar a engrenagem oficial de propaganda no ano eleitoral. Há várias licitações – muitas milionárias – já na praça
26.11.21

Jair Bolsonaro se gaba até hoje de ter vencido nas urnas gastando uma miséria com marketing nas eleições de 2018, ao contrário dos seus principais oponentes. Só que, com a popularidade corroída pelas crises sanitária e econômica, o presidente nem pensa em repetir a dose em 2022. Pelo contrário, a intenção é limpar os cofres públicos e usar a máquina de propaganda oficial a seu favor.

Com licitações já concluídas ou em fase final, Bolsonaro chegará ao ano eleitoral com cerca de 1 bilhão de reais em contratos de publicidade, para distribuir verbas a veículos de comunicação de todo o país. A fatia mais robusta desse orçamento está concentrada na Secretaria Especial de Comunicação Social, a Secom. O órgão, comandado hoje por um coronel da Polícia Militar do Distrito Federal e vinculado ao Ministério das Comunicações, está concluindo uma concorrência para contratar quatro agências de publicidade que ficarão encarregadas de elaborar as peças publicitárias oficiais e definir em quais veículos elas serão exibidas no ano que vem. O negócio está estimado em 450 milhões de reais anuais, 73% a mais do que o valor atual dos contratos que estão em vigor com três agências e que foram assinados em 2017, no governo de Michel Temer.

O objetivo da contratação fica claro no próprio edital lançado sob o guarda-chuva do ministro das Comunicações, Fábio Faria. O texto diz que a campanha publicitária do governo federal “terá o importante desafio de fazer frente a informações não correspondentes à realidade disseminadas por parte da mídia e em redes sociais” e “deve exaltar o sentimento de confiança, esperança e otimismo dos brasileiros”.

Foto: Jefferson Rudy/Agência SenadoFoto: Jefferson Rudy/Agência SenadoQueiroga assinou quatro contratos emergenciais para gastar 49,7 milhões de reais com publicidade
A escolha das agências é feita com base não apenas na comparação dos preços dos serviços, mas também na análise da capacidade técnica e na qualidade das peças produzidas pelas empresas. Para avaliar esses requisitos na licitação, a própria Secom criou uma campanha fictícia que as agências devem apresentar no dia da abertura das propostas, prevista para 6 de dezembro. É aí que mais uma vez o governo se entrega e demonstra claramente o que deseja com a propaganda estatal no ano eleitoral. As concorrentes tiveram de elaborar uma campanha de comemoração do aniversário de 200 anos da Independência do Brasil, que será celebrado pelo governo ao longo de 2022. No edital, fica evidente o alinhamento do propósito da campanha com a retórica difundida por Bolsonaro, que neste ano transformou o Sete de Setembro em um grande ato político, emulando a “defesa da liberdade” e atacando a “ditadura” do Supremo Tribunal Federal. O texto do edital fala em “vincular a mensagem e os resultados da Independência do Brasil, ocorrida em 1822, à necessidade e ao anseio de ‘libertar-se de amarras’ acumuladas ao longo do tempo e agravadas pela pandemia”.

Além das trivialidades, como “valorizar a cultura e as riquezas do Brasil” e “ressaltar a força, a determinação e o talento do povo brasileiro”, a campanha do bicentenário da Independência proposta pela Secom deve “promover um clima de esperança, coragem e otimismo, mobilizando a população com o intuito de aflorar e intensificar o sentimento de patriotismo” e “encorajar a população para uma postura positiva e confiante em relação ao país”. A pasta pede para que as agências elaborem o material tendo como referência um investimento total de 60 milhões de reais com a produção e veiculação da campanha em todo o país, já a partir de janeiro de 2022, e diz que as peças apresentadas pelas empresas que vencerem a licitação poderão ser “ajustadas e executadas” pela secretaria, respeitando as restrições impostas pela legislação eleitoral, que proíbe propaganda institucional, seja do governo federal, seja das gestões estaduais, nos três meses que antecedem as eleições – salvo em casos de reconhecida necessidade pública, como uma crise sanitária.

A Secom não é o único braço do governo a despejar verbas publicitárias em emissoras de televisão, rádios, revistas, sites, blogs e mídias sociais. Os ministérios da Infraestrutura e do Desenvolvimento Regional também estão fechando novos contratos com agências de publicidade para promoverem suas obras e programas. No caso da pasta comandada por Tarcísio de Freitas, o valor previsto com propaganda, 14,9 milhões de reais, é o dobro do atual. Já o ministro Rogério Marinho prevê um gasto de até 55 milhões de reais para divulgar, principalmente, os benefícios do Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado no atual governo e que prevê universalizar o acesso à água no país até 2023.

Adriano MachadoAdriano MachadoDe olho em 2022, Tarcísio de Freitas aposta na publicidade de obras
Assim como Bolsonaro, ambos estão de olho no calendário eleitoral. A dupla deve se filiar ao PL, juntamente com o presidente, para disputar as eleições. Tarcísio é cotado para sair candidato a governador de São Paulo ou a senador por Goiás, enquanto Marinho trava um duelo nos bastidores com o ministro Fábio Faria pelo posto de candidato bolsonarista ao Senado pelo Rio Grande do Norte.

No Ministério da Saúde, cujo chefe, Marcelo Queiroga, cogita sair candidato a deputado federal pela Paraíba no ano que vem, quatro contratos emergenciais foram assinados há dez dias. Eles preveem gastos de 49,7 milhões de reais com publicidade pelos próximos seis meses, enquanto a licitação não fica pronta. A gastança do governo com publicidade é reforçada pelo caixa da Embratur. Antes de deixar a agência para virar ministro do Turismo, no fim de 2020, Gilson Machado, outro provável candidato a uma cadeira no Congresso, deixou pronta uma licitação para contratar duas agências de propaganda por 54 milhões de reais. Nesta semana, o ministério  renovou até o fim de 2022 um contrato de 50 milhões com outras duas agências — a lei permite que contratos desse tipo possam ser renovados por até cinco anos. A situação é similar à de duas agências contratadas por 75 milhões de reais em fevereiro deste ano pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Social, o BNDES, presidido por Gustavo Montezano, amigo dos filhos do presidente da República.

Os novos contratos reforçam que, depois de reduzir em mais de 50% os gastos com publicidade no primeiro ano de governo, Bolsonaro realmente decidiu apostar pesado na propaganda estatal. Só a chamada administração direta, que engloba as estruturas dos ministérios e não inclui as empresas estatais, gastou 522,4 milhões de reais com publicidade institucional desde o início do governo, segundo dados do Portal da Transparência. Os gastos vêm crescendo e podem bater os níveis recordes da era petista caso o governo execute integralmente os contratos. Hoje, a principal agência publicitária do governo é a Calia Y2 Propaganda e Marketing, que atua em cinco pastas, incluindo a Secom, e já recebeu 164 milhões de reais só neste ano. A agência pertence ao empresário Gustavo Mouco, irmão de Elsinho Mouco, o fiel marqueteiro do ex-presidente Michel Temer, responsável por redigir a carta na qual Bolsonaro recuou dos ataques feitos contra ministros do STF durante os atos do Sete de Setembro.

Mathilde Missioneiro/FolhapressMathilde Missioneiro/FolhapressElsinho Mouco: a influência do marqueteiro de Temer está em alta
Ao lado de Temer, Elsinho viajou com o presidente na comitiva oficial que foi ao Líbano, em agosto do ano passado. O marqueteiro diz não ter nenhuma relação com a agência de seu irmão, mas é irrefutável que a Calia cresceu durante o governo Temer, conquistando uma das atuais contas da Secom, e continua expandindo seus negócios sob Bolsonaro. No início deste mês, ela e as agências Binder e Propeg assinaram um contrato de 374,5 milhões de reais com a Caixa Econômica Federal, após um controverso processo de licitação que está sendo questionado na Justiça por quem perdeu a disputa. Alega-se que a Calia deveria ter sido desclassificada por deixar de apresentar documentos exigidos no edital e se questiona as notas técnicas atribuídas à primeira colocada, a  Binder, uma agência de menor porte sediada no Rio de Janeiro, estado pelo qual o presidente do banco, o bolsonarista Pedro Guimarães, cogita concorrer a deputado no ano que vem.

A propaganda estatal sempre foi uma arma usada pelos governantes de turno para tentar melhorar suas imagens. Em geral, o dinheiro da publicidade privilegia os cofres de emissoras que topam se alinhar ao inquilino da vez do Planalto. Dados das quebras de sigilo fiscal das três agências que atuam para a Secom, obtidos pela CPI da Covid no Senado, mostram que a atual gestão repassou mais verbas de anúncios para as TVs consideradas “aliadas” do atual governo. Só nos dois primeiros anos de governo, foram 35,4 milhões de reais para a TV Record, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus e líder do ranking, e 32,6 milhões para o SBT, de Silvio Santos, sogro do ministro Fábio Faria. A Rede Globo, emissora da família Marinho, aparece em terceiro lugar, com 27,6 milhões de reais. A distribuição da verba só passou a seguir critérios habitualmente usados pelo mercado a partir deste ano, por determinação do Tribunal de Contas da União.

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  1. Quanto foi gasto para instruir a população para se proteger da COVID19? foi 1 Bilhão? Foi quanto, alguma pode me dizer? Vergonha desse desgoverno, desse traíra que mentiu e mente ate hoje, que hoje da imprensa , que so responde as perguntas que quer e deixa de dar explicações ao povo brasileiro das coisas erradas que acontecem no seu governo. Chega , 2022 vamos de 3Via e bater de frente com toda essa estrutura montada pela cleptocracia para manter as coisas como estão. Imagina um Deltan na PGR!

  2. Perfeito ! Bolso .22. Tem q mostrar ao povo o excelente trabalho de todo o governo! Parabéns a toda equipe de ministros! O governo tem q mostrar o q a mídia canalha esconde!

  3. A gastança com o dinheiro público é “uma beleza”, como já citava um comentarista esportivo. Campanha publicitária para a pandemia deve ter sido um 1% desse dinheiro todo.

  4. O MARGINAL E OS COR RUPTOS ALIADOS ,SE PREPARANDO PARA SAQUEAR O PAÍS E ENCHER AS CUECAS .MILHÕES DE BRASILEIROS SEM TETO E SEM COMIDA E OS SEM CARÁTER TORRANDO 💰💰PÚBLICO

  5. Mais suposições. O cara está com o Tarcísio arrumando tudo que foi deixado parado anos e vc vem falar que é eleitoreiro. HIPÓCRITA

    1. Está enganado, amigo. O investimento é baixíssimo em infraestrutura. https://www.google.com/amp/s/www.cnnbrasil.com.br/business/investimento-em-infraestrutura-esta-no-menor-nivel-desde-1947-e-deve-cair-mais/%3famp Tarcísio é bom pra mandar fazer ponte de madeira e inaugurar asfaltamento de 800 metros de estrada. Só propaganda, lorota.

    2. Carluxo, são fatos. Seu pai não gastou praticamente nada na pandemia para orientar a população. Agora vai gastar horrores, para tentar encobrir o horror das milhares de mortes. Isso não vai prosperar. Bolsonaro acabou. Moro 🇧🇷

    1. De graça?! De graça somente dos bestões, tem muita gente ganhando.

  6. RACHADINHAS, CORRUPÇÃO nas VACINAS e MANSÕES para o 01 e 04! BOLSONARO é um DEGENERADO MORAL que IMPEDE o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

    1. Carluxo, aqui não tem criança. Sem argumento é só lamento. Moro 🇧🇷

  7. por que acham que os IMPERADORES TUTORES deste ridículo país querem controlar as redes sociais algo que fere frontalmente a Constituição que não cansam de estuprar? porque elas mais uma vez elegerão o presidente . há tempo afirmo que vivemos uma guerra revolucionária planejada e executada por Zé Dirceu que confessou a quem quiser ver e ninguém teve peito de encarar . a TUTRELA DO ESTADO é a quarta e penúltima fase desta guerra suja e na minha opinião o Art 142 da CF será usado ano que vem.

    1. Só lambento,q a fortuna gasta,vira de nossos impostos,e suor.....Pagarem os caro pra chutar o ASNO de chifres do Palácio....

    1. Teremos q prestar muita atenção nesses nomes.....Tudo q for ligado ao ASNO de chifres deve ser banido da história....

    1. O desgoverno do ASNO de chifres tá cagando pro POVO....Fora BOSTONARO e "aliados"

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