Divulgação/Conasscomo as coisas começaram a melhorar, as pessoas estão percebendo que só precisam esperar mais um pouco

A porta de saída da pandemia

Ex-número dois do Ministério da Saúde e agora chefe do gabinete de crise paulista, João Gabbardo diz que o ideal seria esperar o quadro melhorar em todo o país, mas defende a ideia de que já é possível começar a reabrir as cidades com segurança
17.07.20

As últimas semanas de João Gabbardo no Ministério da Saúde foram tensas. No cargo de secretário-executivo, o segundo na hierarquia da pasta, o médico gaúcho teve de conciliar o combate à pandemia do coronavírus com uma difícil crise política. Braço-direito do então ministro Luiz Henrique Mandetta, Gabbardo havia sido indicado ao posto pelo deputado federal Osmar Terra, justamente quem conspirava pela queda de seu chefe imediato. Apesar da amizade de 40 anos com o parlamentar do MDB, com quem já trabalhou na década de 1990 e nos anos 2000, Gabbardo contrariou o discurso bolsonarista adotado por Terra, ao defender o isolamento social e criticar o uso da cloroquina no enfrentamento da Covid-19. Acabou exonerado do cargo no fim de abril, duas semanas após a demissão de Mandetta.

O rosto de Gabbardo, contudo, não ficou muito tempo longe dos holofotes. No fim de maio, ele assumiu o cargo de coordenador do comitê de saúde do governo João Doria, em São Paulo, com a missão de implementar um plano que, agora, converge com o desejo de quem o despachou de Brasília dois meses atrás: a flexibilização da quarentena e a retomada das atividades econômicas e sociais. Nesta entrevista a Crusoé, Gabbardo fala das pressões sofridas pelos gestores diante da polarização da pandemia, critica a militarização do ministério e explica por que este é o momento certo e seguro para começar a reabrir as cidades. “Se a gente for esperar a curva descendente no país inteiro, que seria o desejável, nós precisaríamos ficar mais 60 dias ou até 90 dias parado. Isso é impossível. O país, as pessoas, não conseguem enfrentar essa situação”, afirma.

Que leitura o sr. faz do atual cenário da pandemia no Brasil, com esse abre e fecha em várias cidades do país?
O país é muito grande, muito diverso, e tem várias epidemias. Teve um foco inicial em alguns locais, principalmente na região Norte, Nordeste e em São Paulo, e isso se desenvolveu de uma forma diferente nas regiões Sul e Centro-Oeste. São várias curvas diferentes e, por isso, a curva do Brasil é muito longa, porque ela vai somar o início da epidemia no Norte, Nordeste e em São Paulo, com a da região Sudeste depois, Centro-Oeste e Sul mais para o final, como está acontecendo agora. Então, é uma curva muito mais longa do que a dos países europeus que tiveram uma epidemia mais curta. A deles terminou mais rapidamente, mas com número de óbitos muito maior porque muito mais gente ficou doente simultaneamente. São Paulo tem a mesma situação. A epidemia começou na capital e depois começou a ir para o interior do estado.

O que dá segurança ao governo de São Paulo de que este é o momento adequado para flexibilizar a quarentena?
A gente não considera flexibilização no estado de São Paulo, mas um tratamento diferenciado de acordo com o perfil epidemiológico de cada região. A capital de São Paulo, como começou antes, tem indicadores que nos permitem dizer, com muita tranquilidade, que já estamos na descendente. O número de casos, de internações hospitalares e de óbitos já são menores. Diferente do interior do estado, que a gente começou com a fase laranja (menos rígida) e depois boa parte entrou na vermelha (a mais restritiva). Sabíamos que iria acontecer isso. Não é uma flexibilização geral para todo o estado. E as medidas adotadas aqui são diferentes das adotadas em outras regiões, como no Rio de Janeiro, por exemplo. A gente abre com horário controlado, com uso de máscara bem sedimentado na população, e não autoriza a abertura de bares à noite. Houve uma série de recomendações que foram colocadas que dão segurança para iniciar esse processo na capital de São Paulo. Seria muito difícil, com a capital nessa situação, diminuindo internações, número de casos e de óbitos, esperar todo o interior do estado entrar nessas condições para começar a flexibilizar na capital. Isso pode demorar mais 60 dias. Daí, você estará segurando a economia, impedindo as pessoas de poderem trabalhar, desnecessariamente.

Logo após o início da flexibilização em São Paulo, houve um aumento do número de casos e de óbitos em determinadas regiões do interior, onde a epidemia chegou depois. Houve um equívoco nesse plano?
Não houve. Sempre, no nosso planejamento, quando começamos o processo de discussão da flexibilização aqui em São Paulo, a gente tinha essa expectativa: a capital rapidamente vai passar para a fase amarela, e o interior, que estava laranja, vai passar para a vermelha. Nossa expectativa era que fosse aumentar o número de casos no interior. Não houve nenhuma surpresa nisso. Exatamente porque os tempos são diferentes. No interior começou depois da capital. E vai terminar depois da capital.

Muitos especialistas acreditam que a abertura começou de forma precoce, porque os índices de transmissão ainda são elevados, acima dos padrões europeus no período em que eles flexibilizaram. Qual é a sua avaliação sobre essa comparação?
A epidemia foi muito diferente nesses outros países. Eles não tiveram tempo de se preparar. Ela aconteceu de uma maneira muito rápida, subiu e desceu de forma rápida. Então, eles tiveram essa vantagem de a curva ter terminado antes do que a nossa. Eles puderam flexibilizar quando a curva descendente já estava mais clara do que a nossa. A nossa curva não teve esse pico, teve um achatamento, só que ela vai durar muito mais tempo. E era exatamente o que nós queríamos, para evitar muitas pessoas doentes simultaneamente. Onde não conseguiram controlar essa curva, foi um desastre. O número de pessoas doentes ao mesmo tempo foi muito grande, o sistema de saúde colapsou e o número de óbitos foi muito grande. Em São Paulo, os óbitos não ocorreram por falta de leitos ou de assistência, mas porque, infelizmente, as pessoas não tiveram capacidade de reação para enfrentar a infecção, seja pela faixa etária mais avançada, por alguma doença crônica ou pela imunidade prejudicada.

O que deve determinar a flexibilização?
A flexibilização tem de ocorrer de acordo com a característica de cada região. Hoje, Manaus e Belém têm uma curva absolutamente descendente. Não tem porque não começar a flexibilizar lá, com segurança e monitoramento dos dados. Se a gente for esperar a curva descendente no país inteiro, que seria o desejável, nós precisaríamos ficar até outros 90 dias parados. Isso é impossível. O país e as pessoas não conseguem enfrentar essa situação.

Antes de assumir o cargo no comitê de crise de São Paulo, o sr. atuou como uma espécie de consultor em alguns estados, como Rio Grande do Sul, Goiás e Pará. Que situação encontrou?
O estado que tenho trabalhado mais é o Rio Grande do Sul. Lá, a gente sabia que teria uma situação completamente diferente. No meu entendimento, o estado iniciou a quarentena um pouco antes do tempo, na mesma época que começou em São Paulo, quando o número de casos ainda era muito pequeno e a transmissão da doença era muito baixa. A gente avaliava que no Rio Grande do Sul o pico seria na 27ª semana epidemiológica, porque nos últimos dez anos essa semana foi sempre a que teve maior número de internações por doença respiratória, em função do inverno. E não deu outra. E como o estado começou um isolamento muito cedo, agora que era necessário fazer o isolamento, o estado enfrenta uma situação já de cansaço. A população já não aceita mais o isolamento porque está há muito tempo em quarentena. Agora, aumentou a pressão no sistema de saúde, o número de internações, de óbitos. O risco é faltar leito de UTI no Rio Grande do Sul. Neste momento, o estado tem que tomar essas medidas de restrição, não tem outra saída. Mas há uma resistência grande da população e de toda a área econômica, por conta desse período muito longo de quarentena que começou tão precocemente.

Esse cansaço da população e das empresas em relação ao isolamento é geral. Houve pressão em São Paulo também?
Esse cansaço ocorre em todos os lugares. Aqui em São Paulo, como as coisas começaram a melhorar, as pessoas estão percebendo que só precisam esperar mais um pouco. Isso dá ânimo. O difícil é estar em um lugar que já está assim há tanto tempo e as coisas estão piorando. Claro que a pressão sempre existe. Agora, como esse processo no país ficou muito polarizado, a gente tem uma pressão muito grande por parte da população para que se volte à normalidade, porque a quarentena seria ineficiente, desnecessária. E do outro lado, também tem um grupo que é radicalmente contra a reabertura, que nos critica por estar flexibilizando de uma forma que eu entendo racional e segura. Acham que enquanto houver transmissibilidade da doença, nós deveríamos ficar todos fechados em casa. São duas visões muito radicais. Esse debate está muito radicalizado. Penso que o ideal é uma medida intermediária, que é o que estamos fazendo. Onde é possível flexibilizar com controle e monitoramento, nós temos que começar. Onde é necessário ser ainda mais restritiva, com regras mais rígidas de distanciamento, tem que ser feito dessa forma.

A segurança, efetivamente, só virá com a vacina contra a Covid-19, certo? Quando ela deverá estar disponível no Brasil?
A nossa avaliação é que no primeiro semestre do ano vem, não sabemos a partir de qual mês. Pode ser que seja janeiro, fevereiro. Mas durante o primeiro semestre ela estará disponível.

Carolina Antunes/PRCarolina Antunes/PR“O mais preocupante é o fato de ele (Pazuello) ter trocado toda a área técnica por militares, sem experiência na área”
Hoje nós temos duas frentes de desenvolvimento da vacina no Brasil: uma em São Paulo, em parceria com o laboratório chinês, e outra patrocinada pelo governo federal com a Universidade de Oxford. Isso será suficiente para imunizar toda a população brasileira?
Essas duas possibilidades são importantes e necessárias: a do governo federal, pela Bio-Manguinhos com a Oxford, e a de São Paulo, do Instituto Butantan com a Sinovac. Acho que com a quantidade de vacina que a gente vai ter, produzida e importada, nós vamos conseguir, pelo menos, vacinar 100% da população de risco, que são as pessoas acima de 60 anos, as com doenças crônicas e os profissionais da saúde e da segurança, no primeiro semestre do ano que vem. Enquanto não tiver vacina, a população idosa terá de manter o isolamento. As demais nós vamos liberando gradualmente, de acordo com a transmissibilidade da doença. Daqui a pouco a gente espera que as aulas possam começar a voltar ao normal. Só vão ficar para depois da vacina os eventos com aglomerações, como jogos de futebol com 50 mil pessoas no estádio, por exemplo, uma maratona com 10 mil pessoas, e shows.

Qual é a diferença entre o atual discurso do governo de São Paulo, em favor de manter a população mais vulnerável isolada e permitir o funcionamento das atividades para não afetar tanto a economia, e aquele discurso adotado desde o início pelo presidente Jair Bolsonaro, de isolamento vertical?
A diferença é que naquele momento nós não estávamos preparados para o enfrentamento da pandemia. Nós não tínhamos leitos suficientes de UTI, não tínhamos respiradores, não conhecíamos a evolução da doença e qual a melhor maneira de tratar as pessoas. Nós tínhamos que evitar que as pessoas ficassem doentes simultaneamente no início da pandemia, como aconteceu em outros países, porque isso colapsaria nosso sistema de saúde. Naquele momento, era necessário fazer o isolamento porque nós tínhamos que estar preparados para enfrentar. Hoje, o sistema está pronto. Então, nos locais onde os índices apontam que a pandemia está regredindo, nós podemos flexibilizar gradativamente, de forma seletiva, e não um abre geral como estava sendo preconizado na época.

O que o Brasil perdeu com a falta de unidade entre as várias esferas de governo na gestão da crise?
Acho que o Brasil perdeu justamente com a criação deste grupo grande da população brasileira que não entende essas recomendações, que acha que isso é coisa de comunista, de pessoas da esquerda, e que eles precisam enfrentar isso de todas as maneiras possíveis. Criou-se na sociedade uma rivalidade grande, uma polarização extrema, que, evidentemente, atrapalha quando a gente quer orientar a população e passar as recomendações necessárias para enfrentar a epidemia. Isso é muito ruim. Nos Estados Unidos, acontece um pouco isso também, mas na Europa foi muito diferente, a sociedade ficou muito mais unida em relação a sua responsabilidade na transmissibilidade da doença. Esse engajamento da população, o entendimento de que somente com o distanciamento social é possível reduzir o número de casos e de óbitos, é fundamental.

Após a reabertura, alguns países europeus estão se vendo obrigados a impor nova quarentena em algumas regiões. O que podemos aprender com esses exemplos de flexibilização nos países que estão à nossa frente?
A epidemia não ocorre de forma homogênea em todo o país, em toda região. A Itália, por exemplo, teve uma mortalidade enorme no norte, mas no sul, onde se esperava uma situação pior por causa da situação socioeconômica, não teve quase nada. Foi uma coisa quase inexplicável. Em alguns países, como é o caso da Espanha agora, nas regiões onde a transmissão da doença não foi tão intensa na primeira fase, a população ainda não enfrentou o vírus, então pouca gente tem imunidade. É possível que nesses locais ocorram surtos epidêmicos porque é uma população que não tinha passado ainda pelo enfrentamento da doença. Isso vai acontecer em vários países. A epidemia já passou, mas em alguns lugares, onde num primeiro momento não houve grande incidência do vírus, isso vai acontecer. Mas aí é mais fácil isolar. O país já tem uma capacidade de atendimento muito melhor. Não vai haver uma demanda tão grande de pessoas por leitos, a mortalidade será menor. Isso vem acontecendo nos locais de reabertura porque há um aumento na transmissibilidade da doença na população que se expõe mais, essas pessoas que estão voltando ao trabalho, indo para bares e restaurantes, lojas. Essa é uma população mais jovem, que até pode adquirir a doença, mas não tem manifestação grave, não vai para UTI. Há uma transmissibilidade maior, mas a repercussão é menor porque a gente está falando de uma população em que, em sua maioria, os sintomas serão leves. Diferentemente da situação anterior, que estava pegando os idosos, as pessoas doentes, os asilos, uma situação dramática.

Isso deve ocorrer no Brasil também?
Deve ocorrer no Brasil. Vamos pegar o pessoal do Leblon (Rio de Janeiro). Aquela cena (aglomeração de pessoas sem máscaras nos bares) é chocante. Mas é uma gurizada que vai adquirir o vírus, ficar doente, mas que não vai para o hospital. Um ou outro que tem problema de imunidade pode ter alguma complicação. Mas os idosos não foram para as ruas no Leblon, estão em casa. É possível que haja aumento da transmissão da doença, mas sem a repercussão do ponto de vista assistencial, pressão sobre hospitais e UTI. E por consequência não deve ter uma mortalidade tão alta.

Qual é a diferença desses pequenos surtos epidêmicos para a chamada segunda onda?
A segunda onda que se poderia esperar é uma repetição do que ocorreu na primeira fase. Todos os especialistas imaginavam que a epidemia só iria cair em uma determinada região quando 70% ou 80% da população já estivesse imunizada por já ter tido contato com o vírus, o chamado efeito rebanho. Isso não aconteceu. Em Nova York, por exemplo, o inquérito sorológico mostrou que a epidemia acabou com 21% da população imunizada. Isso cria uma expectativa de que possa ter um novo surto porque muito gente não está imunizada. Mas, ao mesmo tempo, essa segunda onda tem sido muito menos intensa do que a primeira. Ninguém tem certeza porque isso acontece, mas uma das possibilidades é a de que nós já teríamos uma imunidade cruzada contra o novo coronavírus. Apesar de o vírus ter surgido no final do ano passado, já houve outros coronavírus em outros momentos, que poderiam ter deixado uma memória imunológica no nosso organismo e essa memória facilitaria o combate ao novo vírus. Talvez isso explique por que a curva cai com 20% da população imunizada. Essa segunda onda tem aparecido com uma intensidade muito menor do que a primeira. Em nenhum lugar teve o ressurgimento do surto com grande intensidade. Nem na China, nem nos Estados Unidos, nem na Europa.

Os defensores do isolamento vertical, muitos deles apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, usaram o caso da Suécia, que não impôs quarentena, como um exemplo a ser seguido. Qual é a sua opinião a respeito?
A Suécia teve um comportamento diferente dos outros países europeus. Não houve fechamento das atividades, mas as recomendações de distanciamento social ocorreram da mesma maneira. O que aconteceu lá? A taxa de mortalidade por milhão de habitante é muito superior às dos seus vizinhos, Finlândia, Dinamarca, Noruega. Por outro lado, a curva terminou mais cedo do que a da Europa. Agora, querer comparar a Suécia com o Brasil é uma coisa totalmente impensável. Uma coisa é pedir o distanciamento para uma população que tem um nível socioeconômico, cultural e intelectual melhor do que a brasileira, outra é fazer recomendação de isolamento social em Paraisópolis, aqui em São Paulo, ou nas comunidades do Rio de Janeiro. Por mais boa vontade que as pessoas possam ter, elas não têm as condições de fazer o isolamento. Nessas comunidades, quando alguém é portador da doença, mesmo que assintomática, a transmissibilidade é muito maior, muito mais intensa. Então, é muito mais difícil dar recomendações sem ser mais exigente do ponto de vista de gestão, de determinar o fechamento, de impedir a pessoa de ir à praia. Nós nunca conseguiríamos dar no Brasil as recomendações da forma que foi feita na Suécia. Quem fez essa comparação errou, até porque a Suécia teve mais casos e uma taxa de mortalidade muito maior do que os outros países escandinavos.

Quando o sr. ainda estava no Ministério da Saúde, houve uma tensão com o Planalto por causa do uso da cloroquina. O ministério chegou a modificar o protocolo, permitindo o uso para pacientes menos graves, mas o presidente Bolsonaro pressionava para liberar para o início do tratamento, como ele fez agora ao contrair a Covid-19. Qual a sua visão sobre esse embate?
De novo, a questão da polarização. Toda a discussão fica absolutamente prejudicada pelo radicalismo que existe de um lado ou de outro lado. Quando a gente estava no Ministério da Saúde, muito antes de ter esse movimento do próprio governo pelo uso da cloroquina, foi publicado aquele trabalho francês (do médico Didier Raoult) que mostrava ser um medicamento com bons resultados para tratamento nos casos mais graves. E a gente no ministério estava achando que isso poderia ser verdadeiro, ficamos entusiasmados com a ideia. Todo mundo estava atrás de alguma alternativa, já que não existia vacina. Nós também passamos por uma fase em que acreditamos que a cloroquina poderia ser uma boa alternativa farmacológica para isso. Só que logo depois os trabalhos mostraram que aquele estudo francês era muito falho, não tinha consistência científica, e caiu em descrédito. No entanto, cresceu esse movimento político pelo uso da cloroquina.

Bruno Escolastico/Photo Press/FolhapressBruno Escolastico/Photo Press/Folhapress“É capaz de ter gente que vai dizer que não vai tomar a vacina do Doria porque ela é a vacina chinesa, comunista”
Mas houve pressão direta do presidente para mudar o protocolo?
Essa pressão pelo uso da cloroquina não ocorria diretamente no Ministério da Saúde. A gente não recebia nenhuma pressão para tomar qualquer medida com relação ao uso da cloroquina, tanto que tínhamos colocado no nosso protocolo o uso da cloroquina nos casos graves. Mas depois, com o trabalho mostrando que não havia efetividade, começamos a não estimular o uso da cloroquina. Daí surgiu um embate terrível. Uma coisa é pensar no uso de um medicamento do ponto de vista individual, para tratar um familiar, por exemplo. Outra é pensar do ponto de vista de saúde pública. Naquele momento eu pensava muito na possibilidade de tomar cloroquina se eu tivesse com caso grave. Obviamente, ia discutir com o médico que estaria me cuidando, mas avaliaria com muita seriedade a possibilidade do uso do medicamento. Porque era uma alternativa, mesmo que não tivesse base científica. É muito diferente de dar a recomendação para toda a população. O gestor público tem a responsabilidade de ter o ponto de vista geral, avaliar quais são os riscos, quanto vai custar, a efetividade. É por isso que essa discussão da cloroquina, quando dizem que o doutor fulano de tal usou, isso é uma posição individual dele, é diferente da situação de recomendação em um protocolo. Até porque se você coloca em um protocolo e mais tarde identifica que esse medicamento não teve nenhuma vantagem e houve uma série de efeitos colaterais, provocando mortes, inclusive, o estado e o gestor podem ser responsabilizados. Então, acho muito arriscado essa recomendação de usar para casos leves. Tem gente tomando antes de ficar doente. Isso é sério. E para casos graves, já está consolidado que a cloroquina não tem nenhuma vantagem.

O sr. vê algum interesse econômico por trás da insistência do uso desse medicamento pelo presidente?
Eu não vejo interesse econômico. Acho que isso entra como mais uma bandeira. Tem várias bandeiras, como a do armamento, por exemplo. A cloroquina passou a ser mais uma bandeira. Já que não tem outra coisa que possa ser feita em relação à Covid, e as críticas com relação à forma como enfrentou a crise são muito grandes, acredita-se que (defendendo a cloroquina) pelo menos mostra para a população que está do lado dela, oferecendo uma alternativa. Quase um remédio milagroso. Não existe antibiótico, um antiviral, que tenha esse efeito tão rápido.

O sr. acredita que essa polarização pode contaminar até a questão das vacinas? A vacina do Bolsonaro contra a vacina do Doria, talvez?
Parece brincadeira, mas é capaz de ter gente que vai dizer que não vai tomar a vacina do Doria porque ela é a vacina chinesa, comunista, e que só vai tomar a vacina da Bio-Manguinhos. Isso não tem explicação, mas infelizmente pode acontecer.

Após o início da epidemia, começou uma pressão política pela saída do ministro Mandetta. Uma das pessoas que queriam a saída dele era o deputado Osmar Terra, de quem o sr. é amigo. Como o sr. lidou com isso? 
Eu só conheci o ministro Mandetta na transição (de governo). Imagina a situação complicada que era para mim ter sido indicado ao Ministério da Saúde, apresentado ao ministro Mandetta, pelo ex-ministro Osmar Terra? A minha relação com o Osmar tem quase 40 anos. Ele foi prefeito, eu era secretário de Saúde dele. Quando ele foi secretário de estado, eu era o adjunto dele. Tenho uma relação muito forte com o Osmar. Agora, nessa questão do enfrentamento da pandemia, a gente está em situação oposta. Tenho uma posição diferente da dele. Mas a gente continua conversando, um conhece o ponto de vista do outro e nós continuamos tendo o maior respeito mútuo.

Osmar Terra era um dos que pressionavam pela saída de Mandetta e chegou a ser cotado para assumir a cadeira dele. Como era a sua relação com o ex-ministro?
Tinha muita fofoca. Ia muita gente lá dizer para o Mandetta que ele tinha um cara do Osmar Terra próximo dele e que isso era um risco. Mas eu tenho convicção de que a relação que eu tive com o Mandetta foi de absoluta confiança e nós conseguimos separar essa questão de relacionamento pessoal das questões políticas.

Nos últimos meses, o governo escolheu militares para cargos-chaves no Ministério da Saúde, incluindo o atual ministro interino, general Eduardo Pazuello. Em que medida a militarização afeta o desempenho da pasta?
O que me preocupa mais em relação a isso não é tanto o fato de ter o general (Pazuello) como ministro. Até porque o general tem experiência, ficou durante um período na Operação Acolhida (auxílio humanitário a imigrantes venezuelanos), teve um desempenho que todos consideram muito bom. O que eu acho mais preocupante é o fato de ele ter trocado toda a área técnica por militares, sem experiência na área. Isso é preocupante. Pessoas que estavam lá havia vários governos, que conheciam bem a máquina, que tinham experiência e formação, foram substituídas por pessoas que não têm experiência, que não são da área.

Políticos e marqueteiros acreditam que a gestão da crise do novo coronavírus deva ser um dos grandes temas eleitorais e será usada como vitrine e vidraça na campanha. O sr. concorda com isso?
Não tenho dúvida de que será o tema do debate político, não só no Brasil, como no mundo. O debate político vai ser em cima da questão da Covid-19, do comportamento das pessoas, como elas se posicionaram, quais decisões tomaram. Isso vai ocupar todo o espaço de discussão política.

O sr. tem alguma pretensão político-eleitoral?
Nunca fui candidato a nada, não tenho pretensão e não terei pretensão.

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500
  1. Espetacular! Digno do nosso respeito e admiração. Está cada vez mais difícil encontrar pessoas capacita das e isentas como ele! Parabéns!!!!

  2. Hj está demonstrado que medicamentos polemizados salvam vidas e espero que vc não tenha feito parte do Protocolo da Morte usado no Pará pela equipe do Mandeta e com o apoio da Fiocruz. Tudo o que vc faz volta pra vc ! Espero que as investigações façam punição exemplar o que pode não ocorrer, mas a Divina....

  3. Uma pergunta: Quem vai ser responsabilizado pelas RECOMENDAÇÕES de uso de CLOROQUINA (mais toxica do que a Hidroxiocloroquina) em Manaus pelo uso extremamente exagerado ( 10 x mais do que para malaria) cuja dose MATOU PELO MENOS 22 pessoas????

  4. Muito bom... Sensato e equilibrado. Infelizmente estava vinculado a um desgoverno. Mas como dito ao final, o debate eleitoral irá colocar as coisas em seus devidos lugares... Afinal, "a verdade vos libertará"...

  5. Tomar conhecimento das ideias de um profissional competente como esse, altamente preparado para a função que ocupa, é realmente fantástico. Parabéns ao Sr. Gabardo. Aliás, deve ter sido difícil pra ele conviver com o exibicionismo do ex-ministro-pavão Mandetta.

  6. Ótima entrevista. Acompanho as coletivas de imprensa do Gov. de SP e concordo com a visão do Dr. Gabbardo. Se a gestão Mandetta pudesse ter continuado a história do pais teria sido bem diferente. Estou porem abismada com a falta de compreensão dos leitores da revista. Este momento histórico anarcoide é assustador. Cadê o discernimento? Onde foi parar o bom senso? Tudo é polarizado...muito triste. O Coronavírus parece não estar ensinando nada. O que ainda precisa acontecer para acordar?

    1. Parabéns pela análise da entrevista. Faço minha as suas palavras.

  7. Ele e o Mandetta são 2 idiotas...agora se curva a realidade de que o Lockdown e o isolamento foram inúteis para a saúde e péssimos para economia. Junto com o almofadinha desonesto do Dória forma uma dupla de cínicos...

    1. Marcos concordo com você. E o parabenizo pela coragem de expor seu pensamento numa quase unanimidade contrária ao seu e meu pensamento.

    2. Prezado Marcos , da minha parte você está perdoado pelo comentário fora da realidade.

  8. Tratamento precoce salva vidas! Evidência científica tipo A demoram. Vacinas demoram. Posições extremistas exterminam a dialética. Essa revista talvez seja PSDB. O tempo é o senhor da razão. Lamento todas as mortes que poderiam ser evitadas, deveríamos ter unido esforços a favor da vida.

    1. Falou tudo. Tratamento precoce. Está revista deveria fazer uma baita entrevistas com o médico responsável de tirar o PARÁ do colapso. Tem também em Santa Catarina. Tratamento precosse e de baixo custo.

  9. Vcs da Crusoe insistem em não entender. São momentos diferentes, locais diferentes, atitudes e ações diferentes . Não existe incoerência nas palavras de Gabardo. Existe uma politizaçao extremista da Crusoe. Lamentável. Gabardo vc é excelente! Em todos os momentos da epidemia e todos os locais q esteve. Pena q vc não está mais no MS.

  10. Flexibilização = salvar vidas + economia. Nada diferente do que propunha desde o início o Presidente "genocida". O princípio é o mesmo. Os fatores da equação, contudo, são os técnicos que montam. Poderiam ter trabalhado juntos. Foi um bate cabeça imbecil a saída de Mandetta. No fim, chegaríamos a isso, ao "temos que voltar à normalidade". Este sempre foi o princípio, o standard. Os detalhes técnicos deveriam ser deixados aos técnicos. O Presidente "genocida" preferiu técnicos militares.

    1. Mais um nome do mesmo Carluxo-boy que vai ganhar maus um abração do meu SARS-CoV-19. Bjin bjin panaquim

  11. Dificilmente terei condiç Irretocavel o artigo de Felipe Moura Brasil.Redacão primorosa sob todos os aspectos. Parabens a crusoe pelo redator. Sinto não ter mais destreza para alongar-me em elogios merecidos pelo jovem Felipe Moura Brasil. Vicente Pimenta

  12. Em nenhum momento se pensou em usar hidroxicloroquina para casos já graves.Ela só funciona e muito bem, no início dos sintomas,evitando até internação.Acho incrível que o Dr Gabardo,como médico,fala em casos graves. Por que Dr Gabardo morrem 1000 pessoas por dia ? O sr sabe,porque não recebem o protocolo salvador que o Sr .e o Sr Mandetta por questões políticas ,não aplicaram,além do fato de não terem implantado no inicio,o uso de máscaras caseiras. Uma tragédia que teve ajuda de vocês!!! ,

    1. Ah!!!!! Agora entendi! Desde que o MS protocolou o uso nos primeiros sintomas parou de morrer gente! Então era isso???? Passamos de 1000 mortes por ida para 100. Perfeito! Explicado!

    2. Kkk kk, quanta besteira Carlyxo-boy, ops, digo, Osmar... Vem pro abraço e vamos com o Bolsovid cheirar bastante cloroquina meu alegre coleguinha babaca.

  13. Qual a diferença entre a situação do tempo que ele era o número dois do Ministério da Saúde e hoje? Nenhuma. Ainda morrem mais de 1.000 pessoas/dia e a contaminação se alastra para todas as regiões. A única resposta: vai se flexibilizar porque a quarentena não funciona, mutos se infectaram em casa. O resto é hipocrisia.

  14. Admiro os Angonistas pela busca da verdade! Essa é a entrevista mais lúcida, competente e ética sobre a covid, Não à toa foi perdido pelo (des) governo Bolsonaro. Infelizmente não enfrentou a pandemia como ministro, pois sei que teria na epidemiologia outro especialista tão competente quanto ele. Sem dúvida, a Nação estaria preparada e planejada para o enfrentamento (pelo menos educada e sabendo que as armas existentes são, ainda, essas da prevenção). Nada de mágicas. O ponto alto

    1. foi a sua abordagem sobre a "salvação" cloroquina. Muito profissional, apolítica, honesta e, sobretudo ética. Não à toa foi pescado (com meus respeitos) pelo rei da mídia, o governador Dória. Gabardo MINISTRO DA SAÚDE (pós "mito"-afinal ninguém é de ferro). Valeu a Revista desta 6ª!

  15. Normalmente não leio ps comentários dos leitores da Crusoé. Salvo as raríssimas e honrosas exceções de sempre, a maioria das críticas são desprovidas de qualquer argumentação lógica e refletem o baldio existente no espaço entre as orelhas de pessoas fanatizadas por um discurso vazio, dicotômico, desagregador e odiento.

    1. Exatamente isso. Às vezes, pelo que escrevem, tenho a impressão que não leram nem o artigo que comentam.

  16. A Toscana era uma das regiões de população mais longeva, no mundo. Por isso, o COVID19 matou mais por lá. A essa altura, alguns comentários, saindo da boca de técnicos, prejudica mais do que ajuda. Vamos tirar esse SUS do papel? Politicos, vamos parar com os discursos e conchavos com laboratórios médicos? Não temos vacina para AIDS, Zica, Dengue, mas temos uma vacina chinesa para COVID 19, tendo Dória como garoto propaganda..

  17. Qualquer doença vai matar mais brasileiro que japonês. Por quê? O SUS tem 40 anos e não é informatizado. Século XXI. Profissionais sequer preenchem prontuários. Não é estratégico. O vírus foi notificado em novembro e tivemos carnaval. SP bancou o maior carnaval da sua história. Temos índices altíssimos de diabéticos e hipertensos. Medicalizam problemas sociais. Seu filho não aprende? Ensino ruim? Não. Ritalina, nele. Contamos mortos e não transmissores silentes. "Ciência do COVID19" by populista

  18. Conclusão: chutaram pra caramba, aterrorizaram a população e conseguiram transformar o pico em uma curva achatada sem previsão para terminar. E claro, está provado que o remédio conseguiu piorar a doença

    1. A pandemia ainda está em curso no mundo. A curva da região da Toscana, hoje, ainda é altíssima para os portadores silentes. Aqui, nunca teremos essa curva, já que optaram por contar os mortos, ao invés de mapear transmissores. Vai entender. Lembrando que mortos não caminham transmitindo vírus.

    2. Ele mesmo se contradiz quando fala da Itália e da Espanha, pois os países fizeram quarentena geral, inclusive onde tinha poucos casos, e não viram acontecer o descalabro que está acontecendo no estado de SP, que, aliás, possui tamanho e população semelhante aos países grandes da Europa.

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