Arquivo pessoal"Há pelo menos vinte países que precisam do petróleo para financiar mais da metade do seu orçamento"

A ‘bendição’ do petróleo

Estudioso dos efeitos do petróleo sobre a sociedade dos países produtores, o cientista político americano acredita que a crise no preço do barril afetará a estabilidade de algumas ditaduras
24.04.20

Professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, o cientista político Michael L. Ross tem se dedicado a estudar as interconexões entre a biliardária indústria do petróleo e temas como religião, guerras civis, direitos das mulheres e democracia.

Em 2012, Ross publicou suas conclusões no livro A Maldição do Petróleo, que saiu no Brasil dois anos depois. Na obra, o professor, hoje com 59 anos, argumenta que a nacionalização das linhas de produção e beneficiamento do petróleo em vários países após a década de 1970 fez mal à democracia. Entre as explicações para a “maldição”, ele diz que muitos governantes acabaram se apropriando dos vultosos recursos e passaram a utilizá-los para ampliar o próprio poder.

Ross atendeu Crusoé na semana passada, quando o preço do barril do petróleo bruto tipo Brent era cotado a 20 dólares, menos de um terço do valor negociado no início deste ano. Na entrevista, ele falou sobre as possíveis consequências políticas dessa queda, acelerada pela pandemia do coronavírus, e destacou que os efeitos da crise sobre o Brasil tendem a ser menos cruéis. “O Brasil tem uma economia muito diversificada e exporta outros produtos. Países do Oriente Médio, Rússia e Venezuela terão mais problemas.”

A queda no preço do petróleo pode ter consequências políticas?
Teremos alguma instabilidade, caos orçamentário e penúria em muitas nações. Há pelo menos vinte países que precisam do petróleo para financiar mais da metade do seu orçamento. Esse dinheiro agora desapareceu.

Quanto tempo leva para a queda levar a democracia aos países mais fechados?
A queda no preço do petróleo não deixará governos mais democráticos automaticamente. Esse é um processo lento, que depende muito de quanto tempo o preço ficará em um patamar baixo. Então, uma mudança de verdade poderá demorar dois ou três anos para acontecer nos países que dependem da exportação de hidrocarbonetos. Dificilmente ocorrerá algo em menos de um ano. Governos de países com muitos recursos naturais sempre podem pegar dinheiro emprestado. Alguns têm recursos financeiros extras, guardados em fundos soberanos, e podem usar esse dinheiro. Isso dá a eles algum tempo para lidar com a situação.

Arquivo pessoalArquivo pessoal“Quando o preço caiu, o governo soviético foi incapaz de manter sua autoridade”
O sr. teria exemplos de países que sofreram mudança política após uma queda no preço do petróleo?
Nos anos 1990, o preço do petróleo estava a um nível muito similar ao de hoje. Esse fator foi muito importante para gerar uma transformação no México. O Partido Revolucionário Institucional (o PRI) foi financiado ao longo de muitas décadas pelos dividendos oriundos da riqueza do subsolo. Foi somente após esse recurso se tornar escasso que o sistema político foi derrubado. Nesse caso, foram necessários cinco anos de preços baixos para que uma mudança emergisse. A mesma coisa aconteceu na Argélia. Esse país foi governado por uma ditadura militar por décadas e sempre foi muito dependente do petróleo. Os líderes militares eram muito corruptos e ricos. Foi só depois que os preços caíram, no começo dos anos 1990, que a população assistiu a uma mudança política. Um terceiro exemplo é o da União Soviética, que precisava das exportações de petróleo para obter divisas em dólares. Quando o preço caiu, o governo soviético foi incapaz de manter sua autoridade.

Por quanto tempo o preço ficará baixo?
Será por muito tempo. Mesmo que as atividades econômicas retornem em breve e as medidas de isolamento social acabem nos próximos meses, será necessário esperar pelo menos um ano para ver os preços subirem significativamente. Muito da produção dos últimos meses foi estocada em armazéns e poderá ser comercializada mais adiante.

Qual país exportador de petróleo hoje está em situação mais frágil?
Sem dúvida, a Venezuela. O país já estava numa situação terrível e piora a cada dia. O Irã e o Iraque também estão muito suscetíveis. Enquanto alguns países do Golfo foram capazes de juntar dinheiro, iranianos e iraquianos não têm meios financeiros para lidar com uma situação como a de agora.

Dois países que o sr. citou, a Venezuela e o Irã, estão sob sanções americanas. As restrições à exportação de petróleo têm fomentado a democracia nesses países?
Acho que não. É muito difícil julgar o impacto de sanções, mesmo quando se acompanha os países ao longo de vários anos. Não acho que sanções econômicas, por si só, possam levar a mudanças políticas. Talvez agora, que os preços caíram muito e não há ninguém disposto a comprar o petróleo desses países, elas possam ter algum resultado.

O Brasil será muito afetado?
Alguns países enfrentarão crises ao longo de muitos anos, porque não possuem outros recursos além do petróleo. Felizmente, o Brasil não é um deles. O Brasil tem uma economia muito diversificada e exporta outros produtos. Países do Oriente Médio, Rússia e Venezuela terão mais problemas.

Arquivo pessoalArquivo pessoal“Alguns países enfrentarão crises ao longo de muitos anos, porque não possuem outros recursos além do petróleo”
Com o preço das commodities muito alto, houve muitos casos de corrupção na indústria do petróleo, inclusive aqui no Brasil. É natural que, agora, a corrupção diminua?
Há corrupção em todos os lugares onde existe uma forte indústria petrolífera. Isso é quase inevitável. Nem os Estados Unidos são uma exceção. Mas, sempre que a indústria de petróleo encolhe, a fonte desse problema diminui. A queda do preço não faz nenhuma mágica. Não deixa os políticos mais honestos, os governos mais transparentes ou o sistema judicial mais ético. O que acontece simplesmente é que o fluxo de dinheiro que pode ser desviado diminui. E isso provavelmente é uma coisa boa.

A Arábia Saudita e a Rússia chegaram a um acordo na Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a Opep, para reduzir a produção. Isso poderá conter a queda nos preços?
Não vai ajudar em nada. Esse acordo é uma ilusão. Os jornais adoram contar histórias sobre negociações entre governos como Arábia Saudita, Rússia e Estados Unidos. Os líderes desses países, por sua vez, gostam de acreditar que podem mudar a economia do mundo e alterar todo o mercado. Mas a verdade é que esse pacto terá muito pouco efeito. Mesmo que cortem a produção em quase 10 milhões de barris por dia, isso não será suficiente para elevar o preço. O valor do barril é determinado no médio prazo e no longo prazo por forças que não são afetadas por esses acordos de curto prazo. No longo prazo, todos serão obrigados a sair do petróleo como fonte de energia e mudar para outras fontes.

Que impacto a redução no preço do petróleo pode ter na vida das mulheres no Oriente Médio, por exemplo?
Isso poderá abrir oportunidades para as mulheres, principalmente no Oriente Médio. Elas poderão ter empregos mais bem remunerados e conquistar alguma influência política. Não foi por acaso que, depois de os preços caírem em agosto de 2014, países como a Arábia Saudita começaram a diversificar a economia e a dar mais direitos para as mulheres. Se um governo entende a necessidade de ter uma economia mais diversificada, então precisa considerar as mulheres como um recurso de capital humano. A Arábia Saudita é um exemplo extremo, porque ainda tem muitos recursos e consegue explorar seu subsolo com alta eficiência. Em outras nações, essa mudança de mentalidade poderá ser mais rápida.

Por que a economia baseada no petróleo é pouco receptiva às mulheres?
Muitos países, ao enriquecer, oferecem mais oportunidades para as mulheres. Para a economia se expandir, é preciso que elas trabalhem nas fábricas, nas lojas, nas pequenas empresas. Os países que são ricos em recursos naturais, contudo, conseguem crescer sem precisar inserir as mulheres na força de trabalho. Seus governos distribuem dinheiro em programas assistencialistas. Com isso, não há a necessidade de a mulher sair de casa para contribuir com a renda familiar. Só o homem sai para trabalhar. Além disso, os dólares obtidos com a exportação do petróleo distorcem o câmbio e dificultam o surgimento de indústrias voltadas para a exportação. Em muitos países do Ocidente e do Sudeste Asiático, essas fábricas hoje são a porta de entrada das mulheres no mercado. Mas essas indústrias tendem a não prosperar quando os países ganham muitas divisas com a exportação de petróleo. Com a queda no preço do barril, podemos esperar que as mulheres terão mais chances.

Grupos democráticos podem aproveitar o momento?
Sim. Também acho que será uma boa oportunidade para os ambientalistas e grupos preocupados com o aquecimento global. O que aconteceu nos últimos meses foi apenas uma versão condensada do que iria acontecer, de uma forma ou de outra, ao longo dos próximos dez anos. O mundo já estava se movendo para ficar menos dependente das fontes fósseis. Então este é o momento de os ambientalistas exercerem maior influência. As pessoas puderam vislumbrar como será o futuro. As mudanças necessárias poderão ser aceleradas.

Já é assinante?

Continue sua leitura!

E aproveite o melhor do jornalismo investigativo.

O maior e mais influente site de política do Brasil. Venha para o Jornalismo independente!

Assine a Crusoé

CONFIRA O QUE VOCÊ GANHA

  • 1 ano de acesso à CRUSOÉ com a Edição da Semana: reportagens investigativas aprofundadas, publicadas às sextas-feiras, e Diário, com atualizações de segunda a domingo
  • 1 ano de acesso a O ANTAGONISTA+: a eletrizante cobertura política 24 horas por dia do site MAIS conteúdos exclusivos e SEM PUBLICIDADE
  • A Coluna Exclusiva de Sergio Moro
  • Podcasts e Artigos Exclusivos de Diogo Mainardi, Mario Sabino, Claudio Dantas, Ruy Goiaba, Carlos Fernando Lima e equipe
  • Newsletters Exclusivas

Os comentários não representam a opinião do site. A responsabilidade é do autor da mensagem. Em respeito a todos os leitores, não são publicados comentários que contenham palavras ou conteúdos ofensivos.

500
  1. Esperamos que, diante de tanta turbulência que estamos passando na saúde e nos negócios, possamos vislumbrar, de fato, novos rumos para a vida neste planeta. Nada pior do que tem sido na mesmice aos poderosos. Chega!

  2. Por essas e por outras que não se pode deixar o Estado no controle e na produção de riquezas de um país, como o petróleo, produto de alto valor agregado, que o mundo precisa e capaz de produzir riqueza ou pobreza, as ditaduras começam por ai, o povo que escolhe! Venezuela maior reserva de petroleo do mundo=pobreza ou Noruega=riqueza e prosperidade

  3. Petróleo barato , vai desestimular o comércio e a criatividade na busca de novas e limpas fontes de energia. Essa nova realidade vai “atrasar” a tão esperada mudança na matriz energética.

  4. Certamente o petróleo que outrora foi definido como o "ouro preto" vai ser gradativamente colocado na prateleira de algum museu. Claro que não estaremos vivos para podermos viver este momento mas o fato das tecnologias alternativas do petróleo avançarem rapidamente teremos um mundo bem diferente se Deus permitir.

  5. Ótima matéria. Mas como já aventado, como ficam os recursos renováveis com o petróleo tão barato? Acho que haverá uma desaceleração temporária, enquanto perdurar a crise .

  6. Se o fim da "Idade da Pedra" não aconteceu por falta de pedra, não é ilusão acreditar que o fim da "Era do Petróleo" acontecerá mesmo havendo, ainda, grandes reservas petrolíferas.

  7. Os combustíveis fósseis já estavam com os dias contados. Os países produtores sérios vêm fazendo investimentos e fundos soberanos capazes de garantir rendimento eterno na vida pós petróleo.

  8. Ao contrário do que diz o entrevistado,a queda no preço do petróleo vai inviabilizar investimentos em fontes renováveis, pra que investir em combustíveis não fósseis se a indústria do petróleo já esta montada e produz a mesma energia muito mais barato?

  9. Faltou perguntar: com esta forte queda do preço do petróleo poderemos ver enfraquecido o desenvolvimento de novas fontes de energia? As poluidoras termo-elétricas ganharão força?

Mais notícias
Assine 50% off
TOPO