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    O maior showmício de todos os tempos

    Desfile teve cardápio eleitoral completo: mito de origem, resgate emocional, frase de efeito, assinatura de marca, inimigo sugerido e um refrão que funciona como aqueles jingles que grudam na memória

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    Roberto Reis
    6 minutos de leitura 17.02.2026 08:15 comentários 0
    Homenagem a Lula pela Acadêmicos de Niterói. Foto: Alexandre Macieira | Riotur
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    O desfile da Acadêmicos de Niterói (foto) não foi apenas uma homenagem cultural ao Lula. Todos sabemos disso.

    Foi a montagem de uma biografia de um agente político ainda no cargo, em ano eleitoral, com escolhas narrativas típicas de promoção.

    Cardápio eleitoral completo: mito de origem, resgate emocional, frase de efeito, assinatura de marca, inimigo sugerido e um refrão que funciona como aqueles jingles que grudam na memória.

    A complexa e planejada operação começa pelo enquadramento. A história é contada como uma epopeia, como uma travessia do herói, da pobreza, passando pela superação e chegando no destino.

    Aí surge o detalhe que reduz a margem para inocência estética: “treze noites, treze dias”, referência registrada em milhares de vídeos como alusão ao número do partido.

    Eu poderia parar por aqui, mas vamos em frente, para quando a letra encosta no comício. O desenho é reconhecível. Hagiografia com DNA de jingle eleitoral.

    O primeiro gatilho é o mais antigo e eficiente: “olê, olê, olê, olá, olá, Lula, Lula”. Nome repetido em coro é reativação de memória política de um dos jingles petistas mais famosos.

    Depois vem a síntese sentimental: “o amor venceu o medo”, frase que recicla estruturas eleitorais e costura épocas diferentes do petismo numa linha só. Não descreve só um fato, como reproduz um estado emocional.

    Em seguida, o inventário de entregas, típico de campanha eleitoral: “comida na mesa”, “filho de pobre virando doutor”. Propaganda em letra simples, pronta para virar recorte.

    A blindagem moral entra logo depois, por terceirização ética. Ao puxar autoridade moral para dentro do samba, a mensagem implícita vira esta: criticar o homenageado seria criticar a virtude do Lula.

    Por fim, a senha para 2026: expressões como “sem anistia” não são apenas ornamento cultural. Funcionam como um chamado óbvio de polarização, com alvo identificado no debate nacional que será a tônica do ano eleitoral.

    Também poderia parar por aqui, pois tudo que ouviremos é que a desculpa é “a arte”.

    É sempre assim, mas nem por isso pode passar impune. A defesa padrão é a mesma: “não teve vote em mim, foi só arte”. Ela serve para nota de assessoria de imprensa.

    Mas para análise jurídica séria, ela é totalmente insuficiente. O direito eleitoral (pelo que os melhores especialistas me disseram hoje) não se prende ao pedido literal de voto. Ele observa contexto, alcance, repetição, efeitos e vínculo com o beneficiário.

    E aqui está o ponto que muito petista finge não entender: o TSE não deu salvo conduto.

    Ao recusar proibição prévia, o tribunal evita censura e preserva a regra geral. Mas isso não convalida excesso. A própria advertência pública sobre “areia movediça” aponta a teleologia do sistema: tolera-se a manifestação, apura-se o abuso.

    Do camarote para a pista: o beneficiário virou parte da cena. Essa é a verdade.

    O risco jurídico se agrava muito quando o beneficiário deixa de ser tema e passa a interagir com o ato. Há registro de que o presidente esteve presente e que desceu para cumprimentar componentes na pista.

    Isso altera totalmente a natureza do evento, porque aproxima homenagem de promoção pessoal com participação direta do agente público, ainda que sob pretexto cultural.

    Além disso, há o debate sobre dinheiro e estrutura. Houve notícia de repasses públicos ligados ao Carnaval, inclusive com valores citados para a agremiação. Se a defesa insiste no rótulo “cultura”, a acusação deveria mostrar o contrário, como vitrine financiada e de visibilidade massiva.

    Não é sobre gostar ou não gostar do homenageado. É sobre tipicidade eleitoral.

    Propaganda antecipada surge quando há promoção pessoal com linguagem eleitoral fora da janela permitida, ainda que sem pedido explícito de voto.

    Showmício, aqui, é analogia de efeito. Não no sentido técnico de contratação de artista em campanha, mas no sentido probatório. Um evento de massa, com estética de espetáculo, usado para gerar adesão emocional e vantagem política.

    E a hipótese mais grave dita por muitos e que deve ser apurada: o abuso de poder político e econômico, quando o conjunto desequilibra o jogo pelo peso do cargo, pelo alcance, pela estrutura e por eventual emprego de recursos e alianças estatais.

    A régua do TSE em outros casos:

    1) Franklin Roberto de Lima Sousa
    Caso associado a discussão sobre evento de massa, estrutura de palco, som, telão, divulgação e distribuição de material, com debate em AIJE e AIME sobre abuso e uso indevido dos meios, com consequências potencialmente severas no caso concreto. A lógica resumida na própria jurisprudência é simples: grandiosidade, difusão e efeitos importam.

    2) Anísio Abraão David
    Figura historicamente vinculada ao patronato de escola de samba e a redes de poder local. A literatura e o registro público sobre Carnaval e influência política ajudam a lembrar o óbvio: capital simbólico de agremiação pode operar como ativo político. Nem toda cultura é neutra quando vira máquina de prestígio.

    3) Amazonino Mendes
    Há controvérsias eleitorais recorrentes sobre atos e eventos com potencial de autopromoção em período sensível, além do tema constante de publicidade institucional em ano eleitoral. O ponto comum é este: não é preciso “pedir voto” para nascer problema. O problema nasce quando a cena pública vira instrumento de vantagem.

    4) Washington Quaquá
    Exemplo do próprio campo governista em debates sobre Carnaval, financiamento, exposição e promoção. Ilustra como o Carnaval vira território jurídico quando a linha entre fomento cultural e propaganda se embaralha.

    5) Bolsonaro e a reunião com embaixadores
    O TSE aplicou inelegibilidade por abuso ao avaliar uso de estrutura institucional, transmissão e conteúdo político, com foco em contexto, efeito e peso do cargo. É precedente didático porque explicita a lógica. O tribunal olha para o conjunto, não para a justificativa.

    A discussão jurídica aqui não é birra, repito.

    Se a Justiça Eleitoral pune quando há estrutura, massa, narrativa, vantagem e participação ativa do beneficiário, então um Carnaval com biografia laudatória, símbolos, refrões de memória eleitoral e presença do presidente em cena não pode ser tratado como coincidência poética.

    Se tudo isso virar “só arte” por decreto retórico, a mensagem institucional fica cristalina: a regra existe, mas não alcança alguns.

    E aí o debate deixa de ser sobre Carnaval.

    Passa a ser sobre a função real do TSE.

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