Em quem não votar?
Quando o eleitor justifica tudo, sua cobrança perde força. Quando preserva critérios, lembra ao candidato que o apoio tem condições
Em quem não votar? A pergunta exige mais de nós do que parece. É fácil respondê-la apontando o adversário. Difícil é estabelecer um critério que possa atingir também o candidato que desejamos eleger.
Há razões legítimas para rejeitar um político. Seu histórico, suas decisões e seus compromissos devem pesar na escolha.
Mas a rejeição perde a capacidade de orientar quando passa a justificar qualquer conduta de quem promete derrotá-lo. O medo de um candidato pode acabar concedendo ao outro uma licença que jamais deveria acompanhar o voto.
Ao pensar o Brasil a partir de Lula e Bolsonaro, precisamos preservar a possibilidade de julgar cada um pelos próprios atos. Suas trajetórias e responsabilidades são distintas. O rigor está em examinar essas diferenças e aplicar critérios que não mudem conforme nossa preferência.
Antes de decidir quem merece o voto, cabe perguntar quais condutas nos fariam recusá-lo. E se estaríamos dispostos a sustentar essa recusa diante de alguém que fala em nome das nossas convicções.
Não votar em quem trata o poder como patrimônio pessoal é um começo.
A Presidência não pertence ao ocupante, à sua família, ao seu partido ou aos grupos que financiaram sua ascensão.
Os recursos, os cargos e a autoridade do Estado estão vinculados a finalidades públicas. Essa obrigação continua valendo quando o beneficiado é alguém de quem gostamos.
Também deve pesar a maneira como o candidato compreende os limites do cargo. Quem pede votos precisa aceitar que será fiscalizado, contrariado e, eventualmente, derrotado. A disposição de respeitar regras não pode depender da conveniência do resultado.
O compromisso democrático aparece sobretudo diante de obstáculos: uma investigação, uma reportagem incômoda, uma oposição organizada, uma decisão desfavorável. É nessas circunstâncias que se percebe se o governante reconhece a legitimidade de outras vozes ou considera legítimo apenas aquilo que o favorece.
A tolerância com a corrupção exige o mesmo exame. Explicações jurídicas, provas e responsabilidades individuais importam.
Acusações precisam ser apuradas com garantias. Mas lembrar a corrupção do adversário não responde a uma denúncia contra o próprio grupo. Um desvio não absolve outro, e a disputa eleitoral não pode funcionar como sistema de compensação de responsabilidades.
Há ainda a competência. Por que ela tantas vezes parece secundária quando avaliamos quem pretende administrar o país?
Governar exige escolher prioridades, formar equipes, compreender consequências e corrigir rumos. Um candidato deve ser cobrado pelo que fez e pela consistência do que propõe. A convicção com que promete não resolve a falta de condições para cumprir.
É preciso desconfiar, igualmente, de quem precisa manter a população em estado permanente de hostilidade. Um projeto político deve conseguir explicar o que pretende construir, como pretende fazê-lo e a quem suas escolhas beneficiarão. Se toda pergunta recebe como resposta o perigo representado pelo outro, falta algo essencial à prestação de contas.
Nenhum desses critérios produz um candidato sem defeitos. A política envolve escolhas entre alternativas concretas, concessões e riscos. Cabe distinguir uma divergência tolerável de uma conduta que ultrapassa nossos limites. Essa distinção pede reflexão antes da campanha e coragem durante ela.
O exercício mais difícil talvez seja reconhecer quando começamos a reduzir nossas exigências para proteger uma escolha anterior. Ter votado em alguém não nos obriga a defendê-lo para sempre. Rever um apoio pode ser sinal de responsabilidade. Persistir exige razões que possam ser examinadas, além do receio de admitir um erro.
Ainda podemos ter esperança num Brasil melhor. Mas essa esperança depende também do que deixamos de aceitar. Quando o eleitor justifica tudo, sua cobrança perde força. Quando preserva critérios, lembra ao candidato que o apoio tem condições.
“Em quem não votar?” Será uma pergunta útil se estivermos dispostos a aplicá-la ao nome que preferimos ver na urna.
Se a resposta só puder atingir o adversário, ainda não estabelecemos um critério. Apenas escolhemos um lado.
Maristela Basso é professora de direito internacional na USP
Instagram: @maristelabasso.adv
Linkedin: Maristela Basso Advogados
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