Delcy Rodríguez abandona Maduro à própria sorte
Presidente interina da Venezuela não fez qualquer menção pela libertação do ditador durante negociação com opositores
O governo interino da Venezuela não fez nenhum comentário sobre a prisão do ditador Nicolás Maduro, em Nova York, durante duas semanas de negociações com a oposição.
O silêncio reforça o sinal de que a presidente interina Delcy Rodríguez abandonou seu antigo aliado.
Em janeiro, ela classificou a captura de Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, como "agressão vil" e exigiu a libertação da dupla.
Seu irmão e presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, também prometeu não descansar até o retorno dos dois.
Na prática, porém, Delcy e Jorge sequer fizeram qualquer exigência pela libertação de Maduro durante as negociações, que discutiram temas como a realização de novas eleições, recuperação econômica e reformas institucionais.
“Maduro e Flores simplesmente não existem à mesa de negociações”, disse uma figura da oposição ao jornal Financial Times.
"Inferno na Terra"
Maduro descobriu que a vida no Centro Metropolitano de Detenção do Broonklyn, em Nova York, não é tão glamorosa quanto os luxos do Palácio de Miraflores.
Uma reportagem da ABC da Espanha mostrou que o ex-chefe do regime chavista passa as noites gritando frases como: "Eu sou o presidente da Venezuela. Digam ao meu país que fui sequestrado e que aqui nos maltratam".
A prisão, apelidada de "inferno na Terra", já recebeu detentos famosos.
Por lá, também passaram: o rapper Sean 'Diddy' Combs, Ghislaine Maxwell - esposa do financista Jeffrey Epstein, o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, e o antigo chefe da inteligência venezuelana, Hugo El Pollo Carvajal.
Acusado de conspiração por narcoterrorismo, Maduro está preso sozinho em uma cela de três metros por dois.
O local conta com uma cama de metal fixa à parede, um banheiro e uma pequena janela por onde passa um feixe de luz natural.
Julgamento
Junto com Maduro, sua esposa, Cilia Flores, também aguarda julgamento ou sentença definitiva.
A dupla foi capturada pelos Estados Unidos em 3 de janeiro, durante uma operação em Caracas.
Em 5 de janeiro, o ditador compareceu perante o juiz Alvin Hellerstein, em Manhattan, e se apresentou como "Presidente da República da Venezuela".
Na primeira audiência, alegou ter sido "sequestrado".
Realidade
O cientista político venezuelano José Vicente Carrasquero afirma que Maduro está vivendo "um pouco" do que milhares de venezuelanos passaram.
No entanto, ele faz a ressalva de que o ditador ainda possui direito à defesa, o que a maioria dos perseguidos não teve.
"Não um dois nem três, milhares de venezuelanos foram submetidos a uma situação parecida com o agravante de que não tinham advogado defensor, nem tinham direitos, não é? Eram desaparecidos. Ainda hoje tem gente aparecendo", diz Carrasquero.
Maduro agora se confronta com a realidade de quem, por anos, submeteu o próprio povo às piores condições possíveis.
Durante seu regime, frequentava restaurantes de luxo, gastava milhões de dólares e perseguia opositores com o poder do Estado.
Hoje, ele espera sua vez na justiça americana, onde a rotina é ditada por guardas, não por sua caneta.
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