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"Corrigir" Homero? A Odisseia

A leitura de um clássico produz uma experiência particular: em vez de sentirmos que o texto envelheceu, começamos a perceber o quanto certas inquietações humanas seguem intactas

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Dennys Xavier
9 minutos de leitura 16.07.2026 12:04 comentários 0
"Corrigir" Homero? A Odisseia
A Odisseia, de Christopher Nolan. Divulgação
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A estreia de uma nova adaptação cinematográfica da Odisseia, desta vez pelas mãos de Christopher Nolan, reacende um debate que acompanha praticamente toda tentativa moderna de reencontrar os grandes textos da Antiguidade.

A questão parece simples. Devemos adaptar Homero ao nosso tempo? Devemos reinterpretá-lo segundo as inquietações contemporâneas? Devemos corrigir aquilo que, aos olhos do século 21, parece insuficiente, desconfortável ou distante?

Perguntas desse tipo revelam muito mais sobre nós do que sobre Homero.

Os gregos tinham uma palavra cuja riqueza semântica se perde quando traduzida apenas por “verdade”. Chamavam-na alétheia (ἀλήθεια), literalmente o desvelamento, aquilo que deixa de permanecer oculto.

A grande poesia não oferece respostas prontas. Ela retira os véus que o hábito coloca sobre a experiência humana.

Por isso, os poemas homéricos atravessaram quase três milênios sem depender das circunstâncias políticas, religiosas ou culturais de cada época.

Mudaram os impérios, mudaram as línguas, desapareceram cidades inteiras, alteraram-se os costumes, mas Odisseu/Ulisses continua regressando a Ítaca, Aquiles continua escolhendo entre uma vida longa e uma vida gloriosa, Héctor continua despedindo-se de Andrômaca diante das muralhas de Troia.

Essas cenas sobreviveram porquanto falam de algo que não pertence com exclusividade ontológica ao mundo grego.

Aristóteles observava, na Poética, que a poesia é, num certo sentido, mais filosófica do que a história porque trata do universal, enquanto a história narra acontecimentos particulares.

O historiador conta o que aconteceu. O poeta investiga aquilo que pode acontecer sempre que a natureza humana é colocada diante das mesmas paixões, escolhas e limites.

Essa observação ajuda a compreender por que Homero permanece contemporâneo sem jamais ter precisado tornar-se “moderno”, “pós-moderno", “progressista” ou, ainda pior, “politicamente correto”.

A leitura de um clássico, assim deve ser, produz uma experiência particular: em vez de sentirmos que o texto envelheceu, começamos a perceber o quanto certas inquietações humanas permaneceram em todos os seus aspectos constitutivos intactas.

Continuamos desejando reconhecimento. Continuamos temendo a morte. Continuamos experimentando o peso da ausência, da perda, da fidelidade, da honra, da saudade e do retorno. Continuamos sendo seduzidos por promessas que parecem aliviar o sofrimento imediato, embora cobrem um preço invisível que será cobrado após a curva.

Odisseu conhece todas essas tentações.

Quando chega à ilha dos Lotófagos, seus companheiros experimentam o fruto do lótus e imediatamente esquecem a própria pátria. Homero escreve que aqueles que provaram a planta “não queriam voltar para dar notícias, nem regressar, mas desejavam permanecer entre os Lotófagos, alimentando-se de lótus e esquecidos do retorno”.

A palavra empregada pelo poeta continua sendo nostos (νόστος), termo que atravessa toda a arquitetura espiritual da Odisseia. Traduzi-lo simplesmente por “volta para casa” empobrece o seu significado. O nostos envolve a recuperação da própria identidade, da ordem perdida, da memória, da responsabilidade e do lugar ocupado pelo homem dentro do cosmos.

Essa pequena passagem talvez diga mais sobre o século 21 do que imaginamos.

Esquecer o retorno sempre foi uma das formas mais deletérias de perder a si mesmo.

O poema inteiro se organiza em torno dessa tensão. Cada ilha oferece um modo diferente de abandonar o próprio destino. Circe oferece uma existência dominada pelos prazeres e pela dissolução da natureza humana. Calipso oferece uma espécie de eternidade sem história. As sereias oferecem um saber absoluto que termina precisamente onde termina a vida.

Nada disso aparece em Homero como simples aventura fantástica. O maravilhoso, na épica arcaica, nunca é mero entretenimento. Cada episódio tem espessura antropológica. Cada criatura fantástica torna visível alguma dimensão permanente da alma humana.

Homero ocupa, para a cultura grega, uma posição semelhante àquela que os textos sagrados ocupam para outras civilizações. A paideia grega começa em Homero porque ali o homem aprende a contemplar sua própria medida.

Não se trata apenas de aprender virtudes. Aprende-se também o preço dos excessos, da desmedida, da hybris (ὕβρις), esse impulso que leva o homem a esquecer seus próprios limites.

Toda educação grega repousa sobre a convicção de que os poemas homéricos formavam o caráter antes mesmo de instruírem a inteligência. Essa percepção acompanha praticamente toda a tradição antiga, de Platão a Aristóteles.

Platão, embora critique asperamente Homero em diversos momentos da República, jamais o trata como um autor irrelevante (antes pelo contrário… Platão dedica páginas e mais páginas a Homero exatamente por entender o seu protagonismo no plano paidêutico do homem grego).

Sua crítica nasce precisamente porque reconhece sua enorme autoridade educativa. Nenhum pensador perde tempo combatendo aquilo que considera insignificante. A influência homérica era tão profunda que Sócrates chega a chamar Homero de “educador da Grécia”. O próprio Platão escreve isso com certa ironia, mas a ironia confirma exatamente o tamanho dessa influência.

Nossa época, isso sempre causa em mim estranhamento, parece desconfiar dessa dimensão educativa dos clássicos.

Espera-se que eles confirmem valores previamente estabelecidos. Quando isso não acontece, surge a tentação de reinterpretar personagens, modificar relações, alterar motivações psicológicas, corrigir conflitos ou substituir categorias inteiras da experiência antiga por categorias morais desenvolvidas muitos séculos depois.

Essa operação vem apresentada como “atualização”.

A palavra merece cautela.

Traduzir uma obra para outra linguagem artística sempre exigirá liberdade criativa. O cinema não conta com os recursos da poesia oral. A narrativa audiovisual precisa condensar episódios, modificar ritmos, construir imagens próprias.

Nenhuma adaptação séria pretende reproduzir literalmente um poema composto para ser cantado diante de ouvintes, por força da memória, da oralidade e da tradição repassada por gerações. A liberdade artística faz parte da própria história da recepção dos clássicos. E tudo bem…

Outra situação aparece quando o texto antigo deixa de ser interlocutor e passa a funcionar apenas como matéria-prima para ilustrar convicções inteiramente contemporâneas. Os nomes estão lá, alguns episódios sobrevivem, certas cenas são reconhecíveis, mas a estrutura espiritual, seu eixo de sustentação, desaparece.

Nesse momento, continua existindo uma adaptação da Odisseia apenas em sentido nominal.

A narrativa tornou-se outra.

Hans-Georg Gadamer lembrava que compreender um clássico nunca significa eliminar a distância histórica. O verdadeiro encontro exige precisamente preservar essa distância, porque ela impede que projetemos sobre o texto apenas nossos próprios preconceitos.

Compreender não consiste em absorver o passado dentro do presente. O movimento acontece também na direção oposta. O presente passa a ser interrogado por uma inteligência que nasceu muitos séculos antes de nós.

Poucas experiências intelectuais são tão fecundas quanto essa, é preciso reconhecer…

O desconforto provocado pelos clássicos tem enorme valor filosófico.

Odisseu/Ulisses não pensa como um homem contemporâneo. Penélope não compreende o casamento segundo categorias modernas. Telêmaco amadurece dentro de uma estrutura familiar distante da nossa. Os deuses intervêm continuamente na vida humana. A honra tem um peso que o individualismo contemporâneo não consegue experimentar.

Nada disso, entretanto, constitui um obstáculo para a leitura.

Tudo isso constitui a própria razão da leitura.

Quem procura apenas espelhos termina encontrando apenas a si mesmo.

George Steiner escreveu que os clássicos jamais cessam de nos dirigir perguntas novas porque sobrevivem ao desaparecimento das respostas provisórias oferecidas por cada época.

Uma geração lê Homero procurando compreender a guerra. Outra procura compreender a política. Outra descobre o drama da memória. Outra encontra ali uma reflexão sobre identidade, hospitalidade, exílio ou sofrimento. O poema continua o mesmo. Os leitores mudam.

A grande obra suporta sucessivas camadas de interpretação porque sua estrutura permanece aberta sem jamais perder sua identidade.

Esse equilíbrio é extraordinariamente raro… é o equilíbrio do CLÁSSICO.

Toda civilização conserva uma relação muito particular com seus fundadores. Os gregos não imaginavam superar Homero, tornando-o mais semelhante a si próprios.

O diálogo exige alteridade. Nenhuma conversa sobrevive quando uma das vozes desaparece.

Christopher Nolan fez sua leitura da Odisseia. Nenhum artista de grande porte trabalha sem imprimir sua própria visão sobre o material recebido. Isso faz parte da tradição artística ocidental. Shakespeare fez isso com Plutarco. Virgílio fez isso com Homero. Joyce fez isso novamente em Ulysses. Cada época encontra novas formas de entrar em diálogo com os grandes poemas.

A expectativa mais interessante talvez não seja descobrir quanto do texto antigo permanecerá intacto. A pergunta que desperta maior curiosidade/preocupação diz respeito ao tipo de encontro que o filme proporcionará. Depois que as luzes do cinema se apagarem, o espectador sentirá vontade de abrir Homero? Sentirá curiosidade de escutar a voz do poeta em vez da voz de seus intérpretes? Perceberá que ainda existe um texto esperando por ele, maior do que qualquer adaptação?

Esse é o melhor destino de toda grande releitura.

Os clássicos não precisam de proteção contra o tempo.

Sobreviveram porque aprenderam a atravessá-lo, incólumes. Cada geração imagina estar formulando perguntas inéditas, mas Homero conhecia muitas delas quando a filosofia ainda nem sequer havia recebido esse nome.

Antes de Platão investigar a justiça, antes de Aristóteles sistematizar as virtudes, antes de Heródoto transformar a memória em investigação histórica, um velho aedo cantava sobre homens que erravam pelo mar, sobre reis incapazes de governar a si mesmos, sobre esposas que sustentavam uma casa inteira apenas pela fidelidade e sobre um viajante que recusou a imortalidade porque compreendia que a vida humana encontra seu sentido precisamente em seus limites.

Talvez seja esse um dos motivos pelos quais a Odisseia continua exercendo fascínio sobre leitores tão diferentes. O poema não pede que concordemos com ele.

Mas exige que aceitemos permanecer algum tempo em companhia de uma inteligência antiga, suficientemente antiga para enxergar o homem antes que aprendêssemos a classificá-lo segundo as preferências de cada século. A experiência costuma ser desconcertante. Também costuma ser libertadora.

 

Dennys Xavier é escritor, tradutor e PhD em Filosofia

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Instagram: prof.dennysxavier

 

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