As pérolas do Pequeno Timoneiro Lula
"Pode-se espantar, divertir ou discordar de Lula, mas o que não se pode esperar é coerência", escreve Paulo Roberto de Almeida
Para quem, como eu, cresceu politicamente nos anos 1960, quando a principal novidade literária no cenário mundial era o Livro Vermelho do Presidente Mao, animador das hordas estudantis chinesas a serviço do Grande Timoneiro – então em luta contra os seus opositores do Partido Comunista Chinês (PCC) pelos desastres causados no Grande Salto Para a Frente de 1959-61, que causou a morte, por inanição, de dezenas de milhões de chineses –, a publicação da coletânea O Livro Vermelho do Lula, feita pelo jornalista Duda Teixeira, com 171 frases do presidente (também do sindicalista, do deputado, do candidato múltiplo), apresenta duas virtudes.
A primeira é que o livro não é tão mortífero quanto o livrinho do Mao Tsé-Tung.
A segunda é que ela nos fornece 130 páginas de riso, de raiva, de surpresa e até de estupefação, graças ao verdadeiro trabalho de arqueologia literária feito por Duda Teixeira, garimpando estas “preciosidades políticas” desde as primeiras pérolas de meados dos anos 1970 até este terceiro (talvez não o último) mandato do grande personagem político e social, já em 2026.
O Livro Vermelho de Mao era uma assemblagem de frases retiradas de toda a carreira do antigo guerrilheiro comunista, desde os anos 1920 até sua condição de virtual imperador da China do início dos anos 1960.
As frases foram usadas para esvaziar escolas, universidades e sedes locais do PCC, enviando alunos, professores e funcionários para trabalhar nas aldeias mais isoladas e pobres do imenso país asiático, afundando ainda mais um país já debilitado por anos de invasões estrangeiras e uma guerra civil que já tinha eliminado milhões de vítimas inocentes.
Já o livro de Duda Teixeira tem qualidades mais desopilantes do que combatentes, pela assemblagem verdadeiramente surpreendente de frases contraditórias, já que se estendem por um período tão longo quanto o livrinho de Mao, mas combinando as afirmações mais antigas, do período sindicalista, às mais recentes, dos seus três (até aqui) mandatos presidenciais.
O exímio trabalho de Duda Teixeira foi justamente o de permitir essa confrontação, na mesma página, de frases perfeitamente opostas em intenção e significado, ainda que por vezes separadas por décadas (outras bem mais próximas).
O trabalho de seleção, organização e alinhamento das frases do “Nosso Grande Timoneiro” (introdução em uma página e meia, na qual já constam algumas delas), constando das 128 páginas da seleta feita por Duda é o resultado de um meticuloso esforço de pesquisa e compilação de mais de três centenas de afirmações próprias, respostas em entrevistas, pensamentos expressos voluntariamente e declarações oficiais (discursos gravados pela Imprensa Nacional, cujas fontes constam das duas últimas páginas do livro)
Contei 30 veículos da imprensa (grande e pequena, nacional e estrangeira), oito programas de TV, discursos presidenciais, depoimentos para a Lava Jato e a Comissão de Ética do PT, site do TSE e mais seis livros de autores conhecidos, respeitáveis pela sua credibilidade.
A relação de Lula com o dinheiro – a miséria própria na origem, o salário exíguo como torneiro mecânico, os ganhos obtidos como dirigente sindical, a ascensão como deputado constituinte, como “dono monopolista” do PT e como presidente – vem realçada em muitas páginas, e não me surpreenderia se Lula tentasse obter novas vantagens do jornalista como verdadeiro detentor dos “direitos autorais” sobre a parte principal do livro.
Outro aspecto a ser enfatizado é uma característica que ele partilha com um outro grande personagem da história mundial: Lula, como De Gaulle, fala dele na terceira pessoa, o que evidencia um irrecusável orgulho e entusiasmo com si próprio.
O próprio Lula não se considera uma pessoa como todas as outras. “Eu não sou mais um ser humano. Eu sou uma ideia, uma ideia misturada com a ideia de vocês”, aqui confirmando uma outra de suas características, já com copyright alheio, quando se afirma uma “metamorfose ambulante”.
Duda Teixeira traça outras comparações: “Se o chinês Mao Tsé-Tung ganhou o seu Livro Vermelho, o líbio Muamar Kadafi publicou o Livro Verde e o norte-coreano Kim Jong Il escreveu o Sobre a Filosofia Juche, chegou a hora de Lula ganhar uma obra com seus principais pensamentos”.
Alguns desses “pensamentos” revelam um conhecimento ingênuo, ou primário, da história e da geografia mundiais – como inventar uma visita de Napoleão à China (2003), ou desejar um Mercosul que se estendesse da “Terra do Fogo à Patagônia” (2006).
Outros são mais preocupantes, como sua admiração, no início da carreira política, por Adolf Hitler (pela sua “disposição, força, dedicação”, 1979), ou desejar trazer Vladimir Putin ao Brasil, a despeito de um mandado de prisão pelo TPI por crimes de guerra e contra a humanidade (2023), tendo ainda visitado Putin em 2025, indiferente à guerra de agressão à Ucrânia.
Algumas declarações são apenas risíveis, como desconhecer “homossexualismo na classe operária” (1979), outras simploriamente sinceras, revelando uma apreciação etílica das mais evidentes: “Política é como uma boa cachaça. Você toma a primeira dose e não tem como parar mais. Só quando termina a garrafa” (2016).
Fui pessoalmente testemunha, quando trabalhei na Presidência da República ao início do primeiro mandato, de sua tentativa raivosa de expulsar o correspondente do New York Times no Brasil, por revelar, em matéria publicada no suplemento dominical do jornal, um fato notório, o gosto imoderado de Lula por bebidas fortes: lembro-me de que o governo ficou praticamente paralisado durante uma semana inteira entre expulsar ou não o jornalista Larry Rother, um grande amigo do Brasil.
O público brasileiro bem-informado conhece, ou vai relembrar, graças à garimpagem de Duda Teixeira, as frases mais impactantes de Lula, ao passo que os interessados em política externa, ou diplomatas como eu mesmo, estamos redescobrindo as afirmações mais controversas que ele já fez nessa área, algumas das quais contradizem diretamente várias cláusulas de relações internacionais inscritas em nossa Constituição, como a não interferência nos assuntos internos de outros Estados – Lula sempre apoiou, publicamente, os candidatos de esquerda na América Latina – ou o respeito aos direitos humanos, violados em quase todas as ditaduras que sempre contaram com sua “solidariedade”.
A seleção de Duda Teixeira traz os exemplos mais eloquentes – e mais chocantes – dessa identidade de Lula com regimes autoritários (inclusive de direita, como é o caso da Rússia ou do Irã, apenas porque partilham do antiamericanismo anacrônico de Lula e do PT).
O livro talvez possa ter novas edições, pois como disse o próprio Lula: “Eu ainda preciso disputar umas dez eleições, mais uns 20 anos. O Lula de bengala disputando eleição”.
Isso depois de ter dito, na campanha presidencial de 2022 que seria “um presidente de um mandato só”.
Pode-se espantar, divertir ou discordar de Lula, mas o que não se pode esperar é coerência.
Numa nova e mais completa edição deste livro poderemos ter a confirmação dessa qualidade mais cristalina do político que pretende superar Getúlio Vargas em anos de poder, este, 19 ao todo, dos quais 8 como ditador. Lula não vai precisar recorrer à modalidade, mas certamente não vai se furtar de continuar ilustrando um novo Livro Vermelho.
Paulo Roberto de Almeida é diplomata e professor
As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista
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