Aprender a ler e escrever após os 40 anos traz benefícios concretos para a memória e a capacidade de raciocínio, mesmo entre quem nunca teve oportunidade de estudar quando criança ou jovem.
Essa é a principal constatação de uma pesquisa conduzida por equipes das faculdades de Medicina e de Educação da UFMG.
O trabalho analisou alunos da Educação de Jovens e Adultos na capital mineira, contrastando exames cerebrais feitos no início e no fim de um semestre letivo.
Segundo dados do governo federal, havia 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabiam ler nem escrever no Brasil em 2023.
Voltar a estudar traz incontáveis benefícios em adultos e idosos, revela estudo
O trabalho nasceu de uma lacuna concreta: faltam remédios capazes de deter doenças como o Alzheimer.
Foi esse cenário que levou João Victor de Faria Rocha a investigar uma alternativa ainda pouco explorada: usar o ambiente escolar como estratégia para proteger o cérebro e, possivelmente, prevenir quadros de demência.
A baixa escolaridade está entre os fatores de risco modificáveis para demência na América Latina, incluindo o Brasil.
Grande parte do que se sabe sobre o tema vem de estudos com crianças e jovens, deixando uma lacuna sobre adultos que só aprendem a ler mais tarde.
Faltava entender se o cérebro de adultos e idosos responde ao estímulo da Leitura e da Escrita de forma semelhante ao de crianças e jovens.
Essa dúvida levou o Grupo de Pesquisa em Neurologia Cognitiva e do Comportamento da UFMG a montar um acompanhamento direto com alunos da EJA.
Alunos matriculados em turmas iniciais de alfabetização de escolas públicas ligadas à Secretaria de Educação de Belo Horizonte participaram da pesquisa.
A Faculdade de Educação da UFMG e o Centro de Alfabetização somaram forças à Faculdade de Medicina na condução do trabalho.
Os pesquisadores mediram memória, funções executivas e atividade cerebral por ressonância magnética funcional no começo do ano letivo e repetiram as avaliações depois de seis meses.
Praticamente todos os voluntários eram analfabetos ou tinham pouquíssimo domínio de leitura e escrita, somando, em média, apenas dois anos de estudo em toda a trajetória escolar.
Um grupo seguiu somente as aulas comuns da EJA. Outro recebeu uma hora extra de alfabetização, três vezes por semana, com professoras da rede e estagiárias de pedagogia.
Essa divisão permitiu comparar o efeito de uma carga maior de ensino com o do modelo tradicional e observar se mais tempo dedicado à leitura traria ganhos cognitivos maiores.
Memória e raciocínio avançaram nos dois grupos
Seis meses depois, a memória episódica, que é a capacidade de aprender e lembrar do dia a dia, melhorou nos dois grupos.
O avanço mais notável, porém, apareceu nas funções executivas, que envolvem raciocínio e capacidade de decidir com mais rapidez.
Quem passou pelo reforço intensivo teve resultados ainda melhores nesse quesito.
Ler mais esteve ligado a uma conexão mais forte entre o córtex pré-frontal, ligado ao raciocínio, e o hipocampo, responsável pela formação de novas memórias.
Para João Victor, a ausência de tratamentos capazes de deter ou modificar doenças como o Alzheimer torna urgente buscar caminhos de prevenção.
Aprender a ler entre os 40 e os 80 anos de idade surge, nesse cenário, como ferramenta com efeito mensurável sobre o cérebro.
O achado amplia o olhar sobre a função da escola para além da infância e da juventude.
Retomar os estudos na vida adulta aparece como cuidado com a saúde cerebral, não apenas como via de inclusão social.
Pessoas com histórico de dificuldade de aprendizagem na infância mostraram progresso menor ao longo do acompanhamento.
A hipótese levantada é que parte delas conviva com transtornos do neurodesenvolvimento nunca diagnosticados, como dislexia ou TDAH.
Esse público enfrenta um duplo desafio: sofre mais com a baixa escolaridade e responde menos aos programas padrão de ensino.
Um suporte pedagógico mais personalizado dentro da EJA pode ser o caminho para alcançar esses alunos com eficácia.
Escolas vinculadas à SMED se tornam, dessa forma, espaços de promoção da saúde cerebral, e não apenas de alfabetização formal.
Voltar à carteira escolar depois dos 40, dos 60 ou dos 80 anos passa a ser, segundo os achados da UFMG, um investimento direto no funcionamento do cérebro.








