As crianças da geração atual brincam muito menos do que as anteriores, vítimas de uma “tempestade perfeita” formada pela sobrecarga de tarefas escolares e pelo uso excessivo de telas. O alerta é de Nélio Spréa, doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador das tradições populares da infância.
Em entrevista recente à imprensa, Spréa explicou que o tempo livre, essencial para o desenvolvimento da autonomia e da criatividade, foi substituído por agendas lotadas e entretenimento digital passivo.
“Brincava-se mais porque as crianças se encontravam mais e tinham que criar soluções para o tédio. Hoje, estão ocupadas demais e entretidas pelas ofertas do mundo digital”, afirmou o especialista.
Fim do “ócio criativo”
A redução do brincar livre não é apenas uma mudança de hábito, mas um fator de risco para a saúde integral da criança. Dados indicam que, em centros urbanos, o tempo dedicado a atividades ao ar livre caiu para menos de duas horas diárias.
Segundo Spréa, a tecnologia, quando usada em excesso, transforma a criança de protagonista em espectadora. “Os pais acham que nas telas elas estão mais controladas e a casa fica silenciosa, mas isso compromete a saúde física e emocional”, disse.
A neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi complementa que a ausência do tédio e do brincar sem direção atrofia a capacidade de invenção. A American Academy of Pediatrics também reforça a gravidade do cenário, declarando que brincar possui a mesma importância biológica que a alimentação e o sono.
O burnout
De acordo com os especialistas, o cenário atual de pressão por produtividade e blindagem excessiva tem gerado consequências severas, incluindo o aumento de casos de burnout infantil. Psicólogos apontam que a falta de tempo para “não fazer nada” e a proibição de brincadeiras que simulam conflitos (como “polícia e ladrão”) impedem que as crianças processem emoções complexas.
“Seria melhor que as escolas não proibissem, mas acompanhassem essas brincadeiras. É rico fazer a mediação a partir do que acontece no jogo”, defende Spréa, criticando o “excesso de pudor pedagógico” que recai sobre a sabedoria popular.



