Superfícies do cotidiano urbano, como bancos de metrô, corrimãos e redes de esgoto, esconderiam milhares de vírus até agora ignorados.
Ao examinar amostras coletadas em 102 cidades de 31 países, uma equipe de cientistas identificou mais de 42 mil espécies de vírus de RNA nunca descritas.
A pesquisa saiu em julho na Nature Communications.
Com os resultados, os pesquisadores montaram o Atlas de Vírus de RNA Urbanos e Periurbanos, reunindo 54.945 espécies de vírus de RNA catalogadas.
Esse grupo abrange os causadores de doenças já conhecidas, como dengue, zika, gripe, febre amarela e COVID-19.
Do conjunto mapeado, cerca de 77% eram inéditos para a comunidade científica.
Mais de 40 mil novos vírus são descobertos após estudo feito em 100 cidades espalhadas pelo mundo
A maior parte do material analisado, 1.862 amostras, foi coletada pelo projeto internacional MetaSUB entre março e julho de 2020.
Os pesquisadores passaram cotonetes esterilizados por superfícies tocadas frequentemente por pessoas: corrimãos de escadas, bancos de praças, máquinas de bilhete em estações de transporte.
Além de ambientes urbanos, os cientistas incorporaram sequências de solo, sedimentos, água doce, estufas agrícolas e redes de esgoto extraídas de bancos de dados públicos que cobrem regiões do entorno das cidades.
No total, 2.922 amostras biológicas foram reunidas e processadas pela técnica de metatranscriptômica, capaz de ler ao mesmo tempo o material genético de tudo o que está na amostra, seja vírus, bactérias, fungos e insetos, dispensando a separação prévia de cada organismo.
A quantidade de novas espécies não significa uma ameaça imediata para quem transita por essas cidades.
A maior parte das espécies descobertas é incapaz de infectar seres humanos, segundo os pesquisadores responsáveis pelo levantamento.
Os pesquisadores estimaram o hospedeiro de apenas um terço das sequências.
Bacteriófagos representam mais da metade desse grupo, e esses agentes atacam exclusivamente bactérias e não oferecem risco para pessoas ou outros animais.
Após comparação com o banco de dados global VIRON, apenas 60 vírus mostraram probabilidade de infectar humanos, e apenas 19 desses foram coletados nas superfícies urbanas analisadas.
Variações entre cidades pedem cautela
Hospitais em São Paulo e Islamabad, no Paquistão, apresentaram concentração maior de famílias virais capazes de infectar vertebrados do que hospitais em Seul (Coreia do Sul) e Baltimore (Estados Unidos).
Antônio Pedro Camargo, professor do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da Universidade de São Paulo e um dos autores do estudo, alerta para a necessidade de cautela na interpretação dos dados.
A variação pode ser resultado simplesmente do volume de material coletado em cada localidade.
O artigo científico também ressalva que, em alguns países, a coleta se restringiu a um único tipo de ambiente, fator que reduz a confiabilidade de comparações diretas entre regiões.
Segundo os autores, os 54.945 vírus catalogados representam apenas a “ponta do iceberg”. Novas coletas devem revelar milhares de outras espécies ainda desconhecidas.







