A Anvisa calculou, a partir de um levantamento próprio, que a importação de insumos para manipulação de canetas emagrecedoras já não bate com a demanda que o mercado formal brasileiro deveria ter.
No segundo semestre de 2025, entraram no país 130 kg de matéria-prima usada nesses medicamentos, volume suficiente para preparar cerca de 25 milhões de doses, segundo a própria agência.
Mercado informal pode responder por metade das doses em circulação
Esse descompasso ajuda a explicar um número que vem repercutindo entre farmacêuticos e médicos: segundo estudo da consultoria Scanntech, o consumo de canetas emagrecedoras cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior, somando mercado formal e informal.
A estimativa não vem de uma contagem direta do comércio ilegal, mas de um cálculo indireto: a consultoria cruzou o histórico de consumo de insulina com a evolução das vendas de seringas em farmácias, item usado tanto por diabéticos quanto por quem aplica canetas emagrecedoras em casa.
Por esse caminho, o mercado informal pode responder por mais da metade das doses consumidas no país, enquanto o mercado formal, medido de forma direta, cresceu 125% em faturamento e 63% em volume no período.
Vale notar uma diferença entre os dados: em pesquisa de opinião direta com consumidores, apenas 5,2% admitiram usar medicamentos manipulados. A distância entre esse percentual e a estimativa de mercado sugere que boa parte de quem recorre ao canal informal não reconhece, ou não declara, essa origem.
Anvisa registra quase 3 mil notificações de efeitos adversos desde 2018
Diante do avanço do mercado paralelo, a Anvisa publicou, desde janeiro de 2026, dez determinações de proibição envolvendo produtos irregulares com semaglutida e tirzepatida, entre eles marcas como Gluconex e Tirzedral, retiradas de circulação em abril. Neste ano, a agência já realizou 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras, resultando em oito interdições por falhas no controle de qualidade.
Em nota técnica conjunta com a Polícia Federal, a Anvisa revelou que o país acumula quase 3 mil notificações de efeitos adversos ligados a esses medicamentos desde 2018, quase metade delas concentrada só em 2025, incluindo desfechos graves e óbitos.
A agência faz uma ressalva importante: como as notificações são declaratórias, não é possível confirmar, em todos os casos, se o produto usado tinha origem irregular. Ainda assim, a Anvisa reforça que medicamentos dessa classe exigem retenção de receita médica e acompanhamento profissional durante todo o tratamento, justamente pelo risco de contraindicações e complicações em quem os usa sem orientação médica.








