A Meta, dona do Instagram, do Facebook e do WhatsApp, fechou na última semana um acordo de cerca de US$ 18 bilhões com procuradores-gerais dos Estados Unidos para encerrar o processo que a acusava de desenhar deliberadamente recursos que induzem ao uso compulsivo em crianças e adolescentes.
Apesar dessa vitória, especialistas em saúde mental e psicólogos vêm apontando que o valor do pagamento é quase irrelevante diante do que o acordo realmente representa: pela primeira vez, a maior empresa de redes sociais do mundo aceitou desmontar, a céu aberto, a arquitetura do vício que construiu ao longo de uma década.
O acordo impõe um limite de duas horas diárias combinadas de uso para menores de 18 anos, bloqueio dos aplicativos da meia-noite às 6h da manhã, notificações silenciadas durante o horário escolar, ocultação do número de curtidas, proibição de filtros que simulam procedimentos estéticos e a opção de um feed sem manipulação algorítmica.
De acordo com psicólogos, essa restrição pode trazer benefícios incalculáveis para a geração que cresceu com o smartphone na mão.
Quais são os benefícios?
Segundo os especialistas, um conjunto robusto de estudos experimentais e meta-análises sustenta que reduzir o tempo de uso traz melhorias mensuráveis na saúde mental adolescente.
Um ensaio controlado randomizado conduzido pelo HHS em 2024 mostrou que limitar o uso a 30 minutos diários por três semanas produziu melhora de 35% nos escores de depressão entre quem tinha alto nível basal.
Outro estudo publicado no Journal of Affective Disorders em 2026, com 220 jovens de 17 a 25 anos, demonstrou que uma hora diária de uso reduziu significativamente solidão, depressão e ansiedade, além de acrescentar 30 minutos de sono por noite.
A meta-análise realizada em 2025 também confirmou que a restrição de uso produz efeitos pequenos a moderados, mas consistentes, na redução de ansiedade e depressão. O mecanismo é atribuído à “hipótese do deslocamento“: o tempo economizado nas redes é redirecionado para interações presenciais, sono e atividade física.
Mas o problema, como a própria Meta agora reconhece, não era apenas o tempo, e sim o mecanismo. Pesquisas de Stanford e da Cornell University demonstram que o aprendizado por reforço em loops de rolagem infinita leva à comparação social ascendente, que por sua vez impacta a autoestima e o humor.
Outras redes também foram afetadas
O acordo foi desenhado para também arrastar os concorrentes como TikTok, YouTube e Snapchat a aceitarem acordos parecidos, com restrições ainda mais duras: o limite cai para uma hora diária e o bloqueio noturno se estende das 22h às 7h.
A Meta publicou carta aberta em jornais como The New York Times e Washington Post convocando as rivais a aderir, criando um padrão para toda a indústria.
Segundo a imprensa norte-americana, a pressão já vem surtindo efeito. A Pensilvânia processou a Snap em 26 de agosto, acusando-a de práticas viciantes como mensagens que desaparecem, rolagem infinita e o sistema de Snapstreaks. A ação fez as ações da empresa caírem 7,94% naquele dia, apagando cerca de US$ 791 milhões em valor de mercado.
Dois julgamentos adicionais sobre segurança de jovens, nomeando Meta, Google e Snap, estão agendados para outubro.
O que ainda falta?
Apesar da vitória para a saúde mental, especialistas apontam que isso não significa que “está tudo liberado”. Duas horas por dia seguem excessivas para um cérebro em desenvolvimento. As mudanças nas plataformas reduzem o dano; não as tornam seguras ou saudáveis.
Para psicólogos, o que protege de verdade continua sendo presença dos pais, brincadeira livre, esporte, natureza, sono e convívio com família e amigos. Adiar ao máximo o smartphone e o acesso às redes continua sendo a melhor decisão.
A vitória traz esperança de uma internet mais segura e de redes que voltem a ser de fato “sociais”, em vez de vitrines de produtos e ideologias nocivas. E, com menos vício, é possível começar a devolver a infância ao mundo real, onde crianças e adolescentes encontram seu melhor desenvolvimento e bem-estar.








