O Governo Federal aposta em mais um instrumento de crédito para ampliar a base de motoristas de aplicativo, mas segundo especialistas, a estrutura do programa causa um dilema: quanto mais se facilita o acesso ao financiamento, maior o risco de agravar um quadro de endividamento que já atinge a maioria dos trabalhadores de plataforma.
Lançado em maio por Medida Provisória, o Move Aplicativos, linha do programa Move Brasil, destina R$ 30 bilhões em crédito para a aquisição de veículos flex, híbridos, elétricos e a etanol, com cobertura de até 80% do risco de crédito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A aquisição de veículos através desse programa acarreta juros que giram em torno de 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres, com prazo máximo de 72 meses.
O problema
De acordo com analistas, o problema nisso é que o público-alvo já chega endividado. Pesquisa da Fairwork divulgada em 2025 apontou que 92% dos motoristas de plataforma tinham alguma forma de dívida. No universo mais amplo do crédito para aquisição de veículos, quase um quarto do estoque está em situação de superendividamento.
Os dados da pesquisa mostram ainda que a inadimplência no setor saltou de 5,3% em junho de 2025 para 6,6% em junho de 2026, num cenário em que a Selic se mantém em 14% ao ano, pressionando a renda dos tomadores e reduzindo o apetite dos bancos.
Os analistas ainda apontam que o mecanismo de cobertura de perdas pelo governo, como a cobertura de 80% do risco de crédito, não tem sido suficiente para destravar a operação. Até julho, apenas 7,3% do total (R$ 2,2 bilhões) foi liberado, financiando 21.720 veículos com valor médio de R$ 102 mil por motorista.
A principal barreira, segundo analistas do setor, não é o juro, mas a comprovação de renda e as restrições cadastrais de motoristas com dívidas antigas, exatamente o perfil que o programa pretende alcançar.
Diante da fraca execução, o governo elevou o teto de financiamento de R$ 150 mil para R$ 200 mil em agosto, na tentativa de atrair mais operações. A medida, no entanto, amplia o valor médio dos contratos e, consequentemente, a exposição do sistema financeiro a um público de alta vulnerabilidade.
Qual é a conclusão do mercado?
Para especialistas, a combinação do prazo máximo de 72 meses, considerado muito longo, da depreciação do veículo como garantia e da renda instável do motorista cria um cenário em que a recuperação do bem, em caso de calote, pode não cobrir o saldo devedor.
Ou seja, quanto mais o governo facilita a entrada, maior o passivo potencial com o qual o próprio Estado pode ter que arcar, considerando o alto risco de calote de alguns beneficiários do programa.







