Recuperar a audiência de outros tempos virou uma espécie de obsessão para a TV aberta, ninguém espera voltar aos números de antes do streaming, mas talvez ainda seja possível reconquistar parte do público que existia antes da pandemia, sem repetir fórmulas antigas: a saída passaria por conteúdo com identidade e pela capacidade de criar acontecimentos que atravessem diferentes públicos, ideia levantada recentemente em coluna de TV do jornalista Flávio Ricco.
Números do Ibope confirmam o tamanho da fuga do público
Segundo dados da Kantar Ibope Media, em fevereiro de 2020, um mês antes da pandemia, as principais emissoras abertas somavam 45,9 pontos de audiência às 18h nas praças monitoradas, enquanto o streaming nem aparecia como categoria relevante de medição. Três anos depois, em julho de 2023, esse número já havia caído para 38 pontos, e o consumo de plataformas de streaming, praticamente inexistente antes, chegava a 10,9 pontos no mesmo horário.
Em janeiro de 2026, o abismo seguiu se estreitando: a TV aberta respondia por 53,9% do consumo total de vídeo no país, ante 39,4% do streaming, a menor diferença já registrada entre os dois formatos.
Grandes eventos ao vivo mostram força que ainda resta à TV aberta
Apesar da tendência de longo prazo, dados mais recentes da própria Kantar Ibope sugerem que essa leitura tem respaldo na prática: em maio de 2026, a TV aberta voltou a concentrar 65,6% do consumo de vídeo feito diretamente na tela da televisão.
Na semana de 1º a 7 de junho daquele ano, o amistoso Brasil x Egito, transmitido pela Globo, reuniu 28,7 pontos de audiência, o equivalente a 8,8 milhões de domicílios sintonizados ao mesmo tempo, número que nenhuma plataforma digital reproduz isoladamente.
O avanço estrutural do streaming, porém, aparece confirmado por uma fonte oficial: segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, o número de domicílios brasileiros com acesso a serviços pagos de streaming de vídeo chegou a 32,7 milhões em 2024, alta de 1,5 milhão em relação ao ano anterior.
No mesmo período, a assinatura de TV paga seguiu em queda, presente em apenas 24,3% dos domicílios com televisão, uma redução de 0,9 ponto percentual frente a 2023. Os dados reforçam o diagnóstico: o streaming não é mais um fenômeno passageiro, mas a audiência perdida durante a pandemia ainda pode ser, ao menos em parte, reconquistada quando a TV aberta oferece aquilo que só ela sabe fazer.







