Um plano sigiloso de Infantino para ceder parte da Copa a investidores privados veio à tona e detonou uma crise política capaz de mudar os rumos da Fifa e dos principais torneios do futebol mundial.
UEFA, Concacaf e AFC reagiram rapidamente à proposta, e o episódio mexeu com a correlação de forças na cúpula da Fifa, escancarando uma disputa antiga por seu comando.
A Europa perdeu o controle em 1974, quando João Havelange foi eleito e Stanley Rous deixou o cargo. O brasileiro conquistou apoio de africanos e sul-americanos.
Em 1998, os europeus tentaram voltar ao comando, mas Lennart Johansson perdeu a disputa eleitoral para Joseph Blatter.
A guinada de Infantino rumo ao Oriente Médio
Gianni Infantino retornou ao comando em 2015 com apoio europeu, mas aos poucos se distanciou desses aliados originais.
Durante sua gestão, aproximou-se progressivamente de dirigentes do Oriente Médio, especialmente do Qatar e da Arábia Saudita, além de fortalecer laços com os Estados Unidos.
Essa reorientação o transformou em rival dos europeus e abriu espaço para o conflito atual.
A tensão se intensificou quando Infantino patrocinou o Mundial de Clubes com 32 times e investimento saudita.
O torneio se tornou um competidor direto da Liga dos Campeões, domínio europeu consolidado há décadas.
O presidente da Fifa entrou em um território que historicamente pertencia à UEFA e a seus líderes europeus.
A proposta, mais tarde abandonada, de repassar uma parcela dos direitos do torneio a investidores via uma empresa terceirizada acabou gerando um desgaste que foi muito além das discussões internas da Fifa.
A revolta europeia se intensificou depois que um jogador dos EUA que havia sido suspenso atuou na Copa após ligação de Donald Trump para Infantino. O episódio alimentou críticas sobre influências externas.
A UEFA mantém um boicote formal às competições da Fifa, que começou pela Copa do Mundo Feminina sub-20 na Polônia, até que sejam atendidas as condições para restabelecer a confiança na gestão de Infantino.
A entidade europeia mobilizou confederações para tentar derrubar Infantino por meio do Conselho da Fifa, que possui 37 membros, mas a tentativa não prosperou.
O caminho para 2027 e a reformulação dos torneios
Infantino se fortaleceu internamente ao arregimentar confederações africanas, a Conmebol e dissidências internas entre asiáticos e membros da Concacaf.
Conforme o estatuto da Fifa, uma assembleia pode ser convocada com apoio de 43 federações de um total de 211. Os opositores possuem esses números, mas o processo é lento.
O prazo para inscrição de candidaturas encerra em 18 de novembro, com a eleição presidencial marcada para 2027.
Como forma de garantir o apoio da Conmebol, a Fifa deu sequência à proposta de ampliar o Mundial de 48 para 64 seleções, o que renderia à América do Sul um número maior de jogos, hoje limitado a 3 partidas na edição de 2030.
Publicamente contrários à expansão, a UEFA e a Concacaf se posicionam de forma unida contra essa medida.
Se Infantino vencer em 2027, terá de tocar o projeto de expansão da Copa mesmo que ele se torne impopular.
Se a Europa retomar o controle da Fifa, a entidade não aumentará o torneio, já que, nas mãos da aliança europeia, a Copa não será expandida.
O Mundial de Clubes também será afetado. Sob gestão europeia, o torneio poderia ser enfraquecido, e a expansão para 48 times seria vetada em uma Fifa controlada pela UEFA.
Os clubes europeus, liderados pelo presidente Nasser El-Khelaïfi, podem resistir a planos que diminuam o torneio. Nasser está sujeito à influência do governo do Qatar, que tem interesse em receber a competição.
Os clubes aprovaram cotas superiores a US$ 100 milhões por uma competição curta.
Sob o comando europeu ou de Infantino, a Fifa seguirá rumos diferentes para suas principais competições.








