Analistas alertam que o mercado de carros seminovos no Brasil vive, neste julho de 2026, um dos seus momentos mais críticos da última década. A combinação de juros proibitivos, pátios saturados e a chegada agressiva de carros elétricos chineses novos travou as vendas, especialmente para veículos acima de R$ 100 mil.
Vendedores e lojistas relatam dificuldade além da média para escoar estoques, enquanto a desvalorização acelerada de modelos elétricos usados redefine as regras do jogo.
Crise nos pátios
Analistas dão destaque à Avenida Intendente Magalhães, no Rio de Janeiro, tradicional reduto de revendedoras, e apontam que o cenário é de “desolação”. Veículos alinhados acumulam poeira, e o movimento de clientes é escasso. Thyago Damázio, vendedor com 11 anos de experiência, diz que o mercado piorou bastante.
De acordo com Damázio, hoje em dia, o que ele vendia em um final de semana, ele pode nem chegar a vender em um mês. “Antigamente eu vendia sete ou oito carros em um sábado. Hoje, se vender essa quantidade em um mês, agradeço a Deus. O mercado nunca esteve tão ruim”, declarou.
Damázio aponta para um Volkswagen T-Cross 2026, com apenas 600 quilômetros rodados, que está parado no pátio há dois meses. “Até R$ 80 mil, o carro tem saída. Acima dessa faixa, as vendas simplesmente travam”, lamenta.
Carros elétricos são fator
De acordo com especialistas, a principal pressão sobre o mercado de usados vem da oferta de veículos zero-quilômetro, especialmente os elétricos e híbridos de marcas chinesas. Com preços competitivos, tecnologia embarcada e garantias estendidas, os modelos novos atraem o consumidor que antes optaria por um seminovo premium.
Heloísa Rodrigues, consultora de vendas de 66 anos, afirma nunca ter visto concorrência tão intensa. “Os carros elétricos entram com preços muito baixos. Os SUVs são o carro da moda, mas como estão acima de R$ 100 mil, a venda do usado equivalente fica impossível”, explica.
Geraldo Victorazzo, vice-presidente da Auto Avaliar, destaca que o mercado funciona em cadeia: “Com a proposta de valor dos chineses, todo o mercado se reposicionou para baixo. Isso trouxe uma depreciação mais aguda para os veículos usados, diferentemente do que acontecia há três anos”.
Dados do índice IBV Auto, do banco BV, reforçam essa tendência. Carros elétricos lançados em 2023 já acumulam uma desvalorização de 46,1% até junho de 2026.
No mesmo período, híbridos perderam 26,1% e os veículos a combustão, 19,6%. Modelos como o Renault Kwid E-Tech 2022 chegam a desvalorizar mais de 55%, enquanto o Jeep Compass 4xe 2022 perde quase metade do valor.
Além disso, os elétricos são vendidos com muito mais velocidade. Analistas destacam que enquanto um carro flex tradicional pode levar mais de 50 dias para ser vendido, modelos como o BYD Dolphin e o Dolphin Mini usados são negociados em menos de 20 dias.








