O El Niño deste ano caminha para se tornar o mais forte desde que as medições do fenômeno começaram, em 1950. Segundo a atualização divulgada pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a chance do fenômeno atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro subiu para 81%, um salto de cerca de 20 pontos percentuais em relação à avaliação do mês anterior.
Se a projeção se confirmar, o Brasil enfrentará meses decisivos para a formação da safra 2026/2027. O período entre julho e setembro antecede o plantio da soja e qualquer atraso nas chuvas pode obrigar produtores a replantar áreas inteiras.
Além da soja, a cultura do milho de segunda safra também está no radar. Um plantio mais tardio reduz a janela ideal do cereal, aumentando a exposição à falta de chuva no fim do ciclo.
O que muda no clima brasileiro?
O padrão associado ao El Niño costuma elevar o volume de chuvas no Centro-Sul do país e reduzir as precipitações no Norte e no Nordeste. Na prática, algumas regiões podem conviver com excesso de água enquanto outras enfrentam seca e calor acima da média.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), mesmo eventos muito intensos não produzem os mesmos efeitos em todas as regiões do país. Ainda assim, quanto maior a força do fenômeno, maior tende a ser sua influência sobre temperatura e precipitação.
Em 2024, ano do último El Niño relevante, cerca de 2,9 milhões de hectares de soja precisaram ser replantados no Brasil por causa de problemas climáticos.
Especialistas avaliam riscos para o agronegócio
César de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, avalia que o setor chega a este ciclo depois de quatro anos de margens comprimidas e agora enfrenta um El Niño forte, que traz riscos de produtividade de forma desigual entre regiões.
De acordo com o especialista, os maiores impactos tendem a recair sobre a soja produzida no Cerrado e, principalmente, sobre o milho de segunda safra. Já no Sul do país, assim como na Argentina e no Paraguai, o principal risco é o excesso de chuva.
O mercado internacional também está mais sensível a eventuais perdas depois que a produção mundial de soja praticamente empatou com o consumo na safra 2025/2026, interrompendo a recomposição de estoques. Segundo a consultoria do banco, um cenário de quebra em Mato Grosso semelhante ao visto em 2023 poderia tirar cerca de 5 milhões de toneladas da balança global da oleaginosa.
No milho, a boa produção da safrinha 2025/2026 mantém o abastecimento interno confortável no curto prazo, mas a demanda segue aquecida, puxada pela produção de proteína animal e pelo etanol.








