A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o CDC da África emitiram nesta quinta-feira (09) um alerta máximo: o surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) é o de propagação mais rápida já registrada na história, superando todas as epidemias anteriores do vírus.
Até terça-feira (07), foram confirmados 1.759 casos e 600 mortes apenas na RDC, com o número de infecções dobrando a cada 28 dias no epicentro da crise.
Crescimento desenfreado
“Estamos enfrentando o surto de ebola de propagação mais rápida já registrada. Não apenas entre a epidemia do vírus Bundibugyo, mas entre todos os diferentes vírus que causam o ebola”, declarou Wessam Mankoula, chefe de operações de emergência da África CDC, em coletiva de imprensa.
A taxa de crescimento exponencial preocupa autoridades sanitárias globais. Cada 10 pessoas infectadas transmite o vírus para outras 14, resultando em uma taxa de reprodução efetiva de 1,4. As unidades de tratamento de ebola operam com 95% de ocupação, indicando que o sistema de saúde local está no limite de colapso.
A província de Ituri, no leste congolês, concentra 96% dos casos suspeitos, com as zonas de saúde de Mongbwalu, Rwampara e Bunia sendo as mais afetadas. Desde o início do surto, em meados de maio, a doença já se espalhou para 29 zonas de saúde em três províncias.
Sem vacina e nem tratamento para a nova variante
Diferentemente de surtos anteriores causados pela variante Zaire, para a qual existem vacinas e tratamentos aprovados, este episódio é provocado pela variante Bundibugyo, que deixa as equipes médicas em situação de extrema vulnerabilidade.
Não há vacinas licenciadas nem terapias específicas aprovadas para esta cepa do vírus. O manejo dos pacientes depende exclusivamente de cuidados de suporte precoce, como hidratação intensiva e controle de sintomas, para melhorar as chances de sobrevivência.
A taxa de letalidade entre casos confirmados na RDC situa-se em torno de 34%, embora especialistas alertem que o número real pode ser maior devido a mortes não registradas antes da declaração oficial do surto.
Conflito armado atrapalha resposta
A epidemia ocorre em uma das regiões mais instáveis do continente, onde o conflito armado nas províncias de Ituri e Kivu do Norte atua como um multiplicador da crise sanitária.
A violência restringe o movimento das equipes de vigilância, impede o transporte seguro de amostras laboratoriais e dificulta o rastreamento de contatos. Atualmente, identifica-se uma média de apenas 5 a 8 contatos por caso confirmado, muito abaixo do necessário para quebrar as cadeias de transmissão.
Quase 10 milhões de pessoas enfrentam fome aguda na região, e o deslocamento em massa para campos superlotados aumenta drasticamente o risco de transmissão comunitária.
“O vírus continua a avançar mais rápido do que a nossa resposta. Ele está se espalhando de forma mais veloz do que os recursos para controlar a situação estão sendo mobilizados”, afirmou Mankoula.
Resposta internacional
A OMS declarou o surto como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional em maio, acionando mecanismos de resposta global. Os Estados Unidos alocaram adicionalmente US$ 80 milhões em assistência bilateral, enquanto organizações como a UNICEF e o Programa Mundial de Alimentos expandem a distribuição de equipamentos de proteção individual (EPIs) e suprimentos médicos.
Apesar dos esforços, especialistas alertam que a evolução da segurança nas zonas de conflito permanece o fator determinante para o sucesso ou fracasso das operações de resposta.








