Um relatório consolidado, entregue pela Prefeitura de São Paulo à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), confirma que a implementação da Faixa Azul, faixa exclusiva para motocicletas, resultou em um aumento generalizado de mortes, atropelamentos e acidentes nas vias onde a medida foi aplicada.
Os dados, obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), contradizem discursos anteriores da gestão municipal que defendiam a iniciativa como uma “tecnologia de preservação da vida”.
Aumento de vítimas
O estudo, que compara os períodos anterior e posterior à instalação da sinalização em 46 vias da capital, aponta deterioração em todos os principais indicadores de segurança viária. O número total de mortes nas vias com Faixa Azul cresceu 19,2%, saltando de 57 para 68 óbitos.
O cenário é ainda mais crítico para os pedestres. Os atropelamentos fatais nessas vias dispararam 150%, passando de 10 para 25 mortes. Os atropelamentos não fatais também registraram alta de 24%, evoluindo de 125 para 155 casos.
No total, as vítimas não fatais de acidentes aumentaram 15,6%, chegando a 2.840, um crescimento superior ao aumento do fluxo de motocicletas no mesmo período.
Controversias
Apesar dos números negativos, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) mantém em suas conclusões que a faixa é segura, baseando-se em uma reclassificação dos locais dos acidentes. Do total de 68 mortes registradas, 20 foram inicialmente classificadas pelo Detran como “sem informação” sobre o local exato.
A CET optou por categorizar automaticamente todos esses 20 casos como ocorridos “fora da Faixa Azul”. Com essa metodologia, o órgão afirma que 48 das mortes registradas ocorreram fora da área exclusiva. Com isso, o órgão atribui a culpa à não utilização da faixa pelos motociclistas.
Por que a faixa azul teria aumentado os acidentes?
Estudos paralelos realizados pela Universidade de São Paulo (USP) e parceiros, que embasam as críticas ao projeto, identificaram que a Faixa Azul funcionou como um “corredor de aceleração”. A velocidade média das motocicletas subiu de 58,3 km/h para 72,2 km/h, com 96% dos condutores trafegando acima do limite de 50 km/h.
De acordo com os pesquisadores, essa dinâmica aumentou drasticamente a letalidade nas interseções. Pesquisas indicam que o risco de acidentes fatais envolvendo motociclistas em cruzamentos com Faixa Azul é até 120% maior comparado a vias sem a sinalização.
A maior velocidade no meio da quadra reduz a capacidade de frenagem e reação ao se aproximar dos semáforos.
Impasse com a medida
Diante dos dados e do agravamento dos índices de letalidade para pedestres, a regulamentação da Faixa Azul no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) está paralisada. A autorização para o projeto experimental em São Paulo encerrou-se oficialmente em março de 2026, e a Senatran não renovou a permissão para expansão da medida.
Enquanto a prefeitura de São Paulo planejava expandir a faixa para 400 km até 2028, a iniciativa federal de tornar a sinalização obrigatória em todo o país foi suspensa. O órgão federal aguarda uma análise técnica mais aprofundada para decidir se a medida será extinta ou se haverá necessidade de novas medidas de segurança.




