Divirta-se com o plano de governo de Augusto Cury
"A ferramenta central aqui é a mesa-redonda do Eu: antes de reagir, o Eu deve reunir seus pensamentos, questionar seus impulsos, examinar suas emoções e decidir com lucidez"
O candidato Augusto Cury (foto), do partido Avante, cadastrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) seu plano de governo.
Em três momentos, o texto afirma que ele é o "psiquiatra mais lido do mundo".
Sua candidatura é tratada como um gesto de voluntarismo para curar a dor alheia.
"Por que eu, que sou publicado em mais de 90 países, considerado o psiquiatra mais lido do mundo, e que poderia viver confortavelmente em qualquer um destes países, coloquei-me como candidato à Presidência da República, em um ambiente tão tóxico e que, sinceramente, não amo? Porque aliviar a dor dos brasileiros é mais importante do que o meu conforto. E porque a omissão daqueles que podem contribuir é mais cruel do que a ação dos radicais e daqueles que procuram destruir...", diz o texto.
Cury lista uma série de filósofos de maneira apressada e descontextualizada, como se tudo o que eles produziram convergisse para sua própria tese.
"Kant diria que a maturidade humana começa quando temos coragem de usar o próprio entendimento. Nietzsche advertiria que multidões podem transformar a covardia em virtude e o ódio em identidade. Heidegger perguntaria se estamos vivendo de forma autêntica ou apenas repetindo os discursos impessoais do 'se diz', 'se pensa' e 'se odeia'. Viktor Frankl lembraria que nenhuma ideologia pode retirar do ser humano seu sentido existencial mais íntimo: escolher, corajosamente, sua atitude diante das circunstâncias. Tolstói nos recordaria que a paz social começa na reforma íntima, na capacidade do Eu — especialmente do político — de ver o outro apenas como um adversário de ideias, e não como um inimigo a ser abatido. Gandhi proporia uma resistência pacífica para que a paz falasse mais alto do que as armas e os ataques pessoais, reconstruindo uma nação. Martin Luther King iria às ruas de Brasília, conduzindo líderes que hoje se digladiam a lutar pelo mais nobre dos sonhos: a família brasileira, mitigando a guerra de egos e transformando as divergências na beleza da democracia. E eu, Augusto Cury, inspirado por todas essas teses, proporia um pacto nacional para mudar a mente do confronto para a cultura da paz. Viveríamos a tese de que, na essência, somos iguais e trabalharíamos em conjunto — direita, centro e esquerda —, enquanto, nas diferenças, aprenderíamos a nos respeitar."
Mesa-redonda do Eu
Ele também fala na "mesa-redonda do Eu" no capítulo "A mente 'mente': a psique e suas contradições".
"Este capítulo é o coração psicológico do plano de governo. A mente humana não é uma máquina lógica; é um teatro complexo onde pensamentos, memórias, emoções e interpretações se cruzam. A ferramenta central aqui é a mesa-redonda do Eu: antes de reagir, o Eu deve reunir seus pensamentos, questionar seus impulsos, examinar suas emoções e decidir com lucidez", diz o texto na página 17.
Servidores vão virar policiais
Várias de suas propostas soam ingênuas ou irrealizáveis.
Cury quer transformar 5% dos servidores municipais em policiais.
"Promoveremos integração plena entre Polícia Federal, Polícias Civis, Polícias Militares, Guardas Municipais (polícia FOCO - Força de Combate Preventivo), onde 5% dos colaboradores dos municípios devem ser convertidos na polícia FOCO, sem aumento, portanto, do efetivo municipal), Ministério Público, Poder Judiciário e órgãos de inteligência, compartilhando informações em tempo real e fortalecendo operações conjuntas", diz o texto.
Um em cada quatro será cooperado
Em uma população total de 210 milhões, Cury quer 50 milhões de cooperados.
"O cooperativismo é uma das formas mais eficientes de organização econômica. Estimularemos a criação e o fortalecimento de cooperativas agrícolas, industriais, de crédito e de serviços, ampliando a competitividade e a geração de renda para milhões de brasileiros. O objetivo é dobrar o número de cooperados nos próximos 10 anos, passando de 26 milhões para mais de 50 milhões de brasileiros", afirma.
Dobrar a produção agrícola em 10 anos
Outra meta estapafúrdia é dobrar a produção agrícola em uma década.
"O Brasil reúne condições únicas para liderar a segurança alimentar mundial. Investiremos em tecnologia, pesquisa, irrigação, logística e inovação para ampliar significativamente a produção agrícola, garantindo sustentabilidade ambiental e geração de riqueza", diz o texto.
80% das consultas serão virtuais
O psiquiatra propõe desafogar o Sistema Único de Saúde, o SUS, com o uso da telemedicina.
"O objetivo é desafogar o SUS ao atender certa de 80% das consultas básicas e, assim, as consultas com especialistas, que às vezes demoram mais de 50 dias, serão atendidas com maior rapidez."
Fundo global para alimentar a humanidade
Com o propósito de Make Humanity Great Again (Faça Grande a Humanidade outra vez), ele fala em erradicar a fome no mundo fazendo uma simples conta e sem consultar ninguém.
"Destinar 0,5% do comércio global e 2% da indústria mundial de armamentos para a criação de um Fundo Internacional de Erradicação da Fome. Uma contribuição mínima da riqueza já produzida pela humanidade seria suficiente para mobilizar entre US$ 177 bilhões e US$ 342 bilhões por ano, recursos capazes de transformar definitivamente o combate à fome no planeta".
Nem Lula foi tão perspicaz.
Leia em Crusoé: As esquisitices do plano de governo de Renan Santos
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