Diplomacia de palanque
Erro crasso do governo brasileiro foi presumir que a Casa Branca assistiria passivamente a esse acúmulo de hostilidades
A diplomacia profissional assenta-se em dois pilares fundamentais: a previsibilidade dos ritos e a observância da comitas gentium — a cortesia internacional pautada no respeito mútuo e no pragmatismo.
Em um sistema internacional marcado pela assimetria estrutural de poder, os Estados de médio porte dependem do rigor institucional e da discrição negociada.
É assim que preservam sua margem de manobra e protegem seus interesses estratégicos perante as grandes potências.
Quando uma nação flexibiliza essa tradição e adota uma postura de fricção velada — supondo que pode instrumentalizar ritos diplomáticos sem pagar um preço alto —, adentra um terreno de elevado risco geopolítico.
Os desdobramentos recentes na relação bilateral entre Brasília e Washington oferecem um estudo de caso emblemático sobre o custo de desafiar a lógica do poder real por meio de provocações táticas e acertos de contas ideológicos.
Nos últimos meses, a condução da política externa brasileira revelou um padrão consistente de atrito silencioso.
O represamento do agrément ao diplomata americano Daniel Perez, indicado para chefiar a embaixada em Brasília, marcou o ápice dessa engenharia de desgaste.
Embora a Convenção de Viena de 1961 não fixe prazos peremptórios para a concessão da anuência estatal, a paralisação deliberada do credenciamento por razões de política interna viola o próprio espírito de cooperação bilateral.
A essa inércia calculada somou-se a recusa ostensiva de vistos aos secretários-assistentes do Departamento de Estado, Riley Barnes e Samuel Samson, acompanhada por acusações públicas.
Ao abandonar os canais velados de negociação e expor o dissenso em tom acusatório, o governo brasileiro cruzou os limites da divergência legítima, incitando uma resposta proporcional da contraparte americana.
O erro crasso da diplomacia brasileira foi presumir que a Casa Branca assistiria passivamente a esse acúmulo de hostilidades.
Diferente de administrações anteriores, que preferiam amortecer atritos para preservar a estabilidade hemisférica, o atual governo dos Estados Unidos reage de pronto, guiado pela afirmação categórica de poder.
Perante a recalcitrância de Brasília, Washington não hesitou: revogou o visto diplomático da embaixadora Maria Luiza Viotti em uma retaliação cirúrgica.
Ao despojá-la de seu respaldo administrativo sem recorrer imediatamente à declaração formal de persona non grata (nos termos do Artigo 9º da Convenção de Viena), o Departamento de Estado deixou claro o peso de suas prerrogativas soberanas. A mensagem soou inequívoca: o exercício da representação diplomática em solo americano é um privilégio condicionado à reciprocidade — jamais um direito dado.
A reação de Brasília, traduzida em notas oficiais carregadas de retórica combativa, escancarou a profundidade da crise de método de sua política externa.
Classificar a atitude americana de "falsidade", "escalada ideológica" ou "ingerência" pode render dividendos eleitorais imediatos junto à militância doméstica, mas é um erro primário sob a ótica do Direito Internacional e da Teoria das Relações Internacionais.
Em um cenário de profunda assimetria de poder, trocar a negociação reservada por comunicados à imprensa sinaliza fraqueza.
O pedido anterior da Presidência da República pela anulação de sanções americanas a autoridades nacionais — feito sem que o Brasil dispusesse de qualquer alavanca real de barganha — já expusera a desconexão com a gramática do poder em Washington.
A politização posterior do acesso diplomático apenas consolidou a percepção de um abandono deliberado da sobriedade institucional.
O impasse gerado por esse encadeamento de escolhas confina a representação brasileira em Washington a um severo isolamento funcional, fragilizando a defesa de interesses comerciais e regulatórios cruciais.
A ilusão de sustentar uma equivalência de forças com a superpotência global corroeu o valioso capital diplomático construído ao longo de décadas pelo Itamaraty.
Enquanto Brasília recorre à narrativa de ingerência para justificar a crise, os Estados Unidos acionam um arsenal inusitado de pressões — do travamento de vistos a restrições tarifárias e operacionais — para cobrar o preço da reciprocidade.
Pragmatismo e neutralidade nunca representaram fraqueza, sempre foram os escudos mais eficientes das nações soberanas.
Ao atropelar esses preceitos, a política externa brasileira colhe o desgaste inevitável da controvérsia calculada, reaprendendo a lição clássica: no tabuleiro internacional, a retórica militante curva-se, invariavelmente, à força objetiva do poder real.
Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia
X: @mcoimbra
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