Milei chega a 2027 com menos dólares e mais pressão
Argentina ainda acumula dólares, mas o preço é mais dívida em pesos e crescente desgaste político de Javier Milei
O governo de Javier Milei chega ao terço final de 2026 com o plano de juntar reservas e afastar a dívida em pesos da janela eleitoral de 2027, mas perdendo ritmo. A compra oficial de dólares recuou com força desde agosto, o Tesouro parou de alongar prazos e o Orçamento de 2027 já abriu ruído no próprio oficialismo.
O Banco Central argentino comprou mais de 13,3 bilhões de dólares no mercado de câmbio entre janeiro e julho de 2026, média de 1,905 bilhão de dólares por mês. Em agosto, o ritmo caiu para 770 milhões de dólares e, na primeira quinzena de setembro, ficou abaixo de 150 milhões.
A desaceleração coincide com uma pausa do Tesouro no alongamento dos vencimentos em pesos. Dados da Eco Go, reproduzidos pela Bloomberg Línea, indicam que a fatia de vencimentos com privados dentro do atual mandato caiu de 98% para 54,2%. Nas licitações de agosto e setembro, o Tesouro voltou a privilegiar prazos curtos e médios.
Segundo cálculo de Sebastián Menescaldi, da Eco Go, citado pela Bloomberg Línea, as compras de mais de 14,2 bilhões de dólares pelo BCRA em 2026 equivaleram a uma injeção da ordem de 20 trilhões de pesos.
Na leitura do consultor, sem demanda suficiente por moeda, a maior parte desses pesos foi absorvida por títulos públicos. O mesmo exercício estima alta de cerca de 9 bilhões de dólares nas reservas e alta da dívida em pesos, medida em dólares, de 69 bilhões para 95 bilhões. São estimativas privadas, não um balanço oficial do BCRA.
No plano político, o governo de Javier Milei também enfrenta um desgaste. O projeto de orçamento de 2027 prevê o fim da atualização automática da Atribuição Universal por Filho e muda regras e correção da assistência a pessoas com deficiência.
A presidente do bloco de senadores libertários, Patricia Bullrich, afirmou que essas mudanças no orçamento não passaram pela mesa política e que esse tipo de descompasso deteriora as relações com aliados.
Ao mesmo tempo, o governo apresentou o projeto de lei chamado Lei Malvinas, que altera o artigo 225 bis do Código Penal para prever entre cinco e 12 anos de prisão a quem, a mando de agente estrangeiro, realizar campanhas de desinformação que afetem processos eleitorais. Juristas questionaram a redação vaga do projeto e o risco de uso da norma contra jornalistas e organizações da sociedade civil.
Até a eleição presidencial argentina de 2027, o governo busca combinar contenção na macro com medidas de microcrédito e desregulação. Três delas circulam com mais força: um mercado aberto para negociar cupons de cartão de crédito, em fase de estudos no BCRA e na CNV, a autorização para bancos descontarem empréstimos direto da folha de pagamentos, para empréstimos bancários, já habilitada na reforma trabalhista e um registro unificado de garantias empresariais, previsto no anteprojeto de desregulação do ministro Federico Sturzenegger.
Dessas três frentes, só o desconto em folha já vale. As outras duas seguem em estudo ou em anteprojeto. Nenhuma delas, por si, muda a política monetária ou o regime cambial. O secretário de Finanças, Federico Furiase, disse nesta sexta que o programa em dólares de 2026 e 2027 está coberto e que mais de 50% dos vencimentos em pesos ficam depois de outubro de 2027.
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