Venezuela ia reestruturar sua dívida. Aí veio o terremoto
Com dívida superior a 200% do PIB, Venezuela enfrenta terremotos e crise política em meio à maior renegociação soberana da história
A Venezuela acumula crises como camadas de um desastre sem fim. Na quarta-feira (24), dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o país com apenas um minuto de diferença, derrubando dezenas de prédios e expulsando moradores às ruas em pânico.
Os números do balanço preliminar já superaram centenas de mortos e 4.300 feridos, segundo atualização mais recente da presidente interina Delcy Rodríguez. O estado de La Guaira, ao norte de Caracas, foi o mais devastado pelos tremores.
Como se a tragédia natural não bastasse, o país também enfrenta uma crise financeira de proporções históricas. Segundo informações do Financial Times, a Venezuela se prepara para o que pode ser a maior reestruturação de dívida soberana da história, com um passivo total estimado em 240 bilhões de dólares, bem acima dos 150 a 200 bilhões que o mercado calculava até agora.
Para efeito de comparação, o famoso calote grego de 2012, posteriormente renegociado, foi de 200 bilhões de dólares.
A dívida é formada por camadas distintas: cerca de 60 bilhões de dólares em títulos do governo e da estatal petrolífera PDVSA, mais 40 bilhões em juros acumulados desde o calote de 2017, montante que cresce 5 bilhões por ano.
Há ainda entre 20 bilhões e 6 bilhões de dólares devidos à China e à Rússia, respectivamente, além de indenizações a empresas cujos ativos foram confiscados no país.
O governo interino de Rodríguez quer fechar um acordo com credores ainda em 2026 para reabrir o acesso da Venezuela aos mercados internacionais, dos quais está excluída há quase uma década. Para isso, contratou o banco americano Centerview Partners. À frente do processo está o banqueiro francês Matthieu Pigasse, que já coordenou reestruturações de países como Grécia e Argentina.
O caminho, porém, é cheio de obstáculos. Economistas criticam o fato de o processo contornar o FMI, instituição que normalmente coordena esse tipo de negociação. Com uma relação dívida/PIB estimada acima de 200%, analistas alertam que o tamanho da dívida pode reduzir significativamente o que os credores conseguirão recuperar.
Só que agora, sob os escombros dos terremotos e a necessidade urgente de reconstrução nacional, a renegociação da enorme dívida da Venezuela ganha ainda mais pressão, já que os custos da recuperação podem fortalecer o argumento do governo interino por um alívio maior da dívida junto aos credores, testando os limites da resiliência econômica do país e da disposição dos investidores.
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