O que está em jogo no Ceará para além de Michelle e Flávio
É preciso união de direita e esquerda contra o crime. Todos precisam pensar não apenas em projetos pessoais, mas na libertação do estado
As articulações políticas do PL no Ceará são o pano de fundo do bombástico vídeo postado por Michele Bolsonaro na quarta-feira, 24. A questão é delicada, porque, de fato, há uma situação peculiar.
O avanço do crime organizado, o poder paralelo das facções e a infiltração destas na política cearense com a complacência dos que ora estão no poder justificam a urgência do apoio a uma candidatura viável que possa confrontar o poder da máquina estatal.
Nenhum outro candidato além de Ciro Gomes (PSDB, foto) consegue atualmente fazer frente a candidatura petista no Ceará. Todas as pesquisas mostram o ex-governador à frente de Elmano de Freitas (PT), ainda que em um cenário acirrado.
Ciro conseguiu liderar uma ampla aliança de oposição, levando para o seu palanque adversários como Capitão Wagner (União Brasil) e o deputado federal André Fernandes (PL-CE). E conseguiu isso sem fazer concessão alguma em termos nacionais, ou seja, manteve sua posição crítica a Bolsonaro, inclusive em entrevista recente à Veja, citada pela ex-primeira dama.
Sem concessões
Em nenhum momento Ciro acenou com apoio à pré-candidatura de Flávio. A condição de Fernandes para apoiar a candidatura de Ciro ao governo do Ceará é o apoio do ex-governador tucano à candidatura de seu pai, Alcides Fernandes, ao Senado.
São duas as vagas ao Senado. Mas, dentro do arco de aliança da oposição que busca compor a chapa apoiada por Ciro, não faz sentido que o PL indique dois nomes.
A outra vaga provavelmente ficará com o União Brasil (Capitão Wagner) ou com o PSDB (Cândido Albuquerque).
As grosserias de Flávio Bolsonaro contra Michele — ele teria dito que ela não entende nada de política e que não deveria se meter nas decisões do PL — foi o ponto mais destacado nos comentários sobre o vídeo nas redes sociais, mas o menosprezo pelas mulheres se revela justamente no fato narrado por Michele em torno da disputa pelo Senado no Ceará.
Menosprezo
Não voto em candidato nenhum do PL, e meu intento aqui não é defender qualquer candidatura, mas acompanho os bastidores da política no meu estado e posso dizer que Priscila Costa, apoiada por Michele, é uma mulher carismática, articulada, com alto potencial de votos e fiel às principais bandeiras morais dos conservadores.
Já Alcides é apenas um senhor apagado, inexpressivo, cujo único atributo político é ser pai de um deputado federal.
Como bem disse a ex primeira-dama, se André queria ceder uma vaga para manter a aliança com Ciro, que cedesse a do pai dele, que parece absolutamente despreparado para ocupar uma cadeira na Câmara alta.
André, que saiu fortalecido após chegar ao segundo turno na disputa pela prefeitura de Fortaleza em 2024, contra o candidato vitorioso do PT, tem se mostrado mais pragmático, menos caricato em seu bolsonarismo radical, mais aberto a diálogos.
Sua justificativa para a aliança do PL com Ciro é a necessidade imperiosa de tirar o PT do poder e libertar o Ceará das garras das facções criminosas. Motivo justo e louvável, mas, se fosse apenas isso, se o interesse pelo Ceará fosse genuíno, ele não tentaria impor a todo custo, contra a vontade de Michelle, a candidatura inexpressiva de seu pai.
Não deveria mais haver espaço para interesses puramente pessoais e familiares em um contexto caótico como o atualmente vivido pelo Ceará. Na mesma entrevista a Veja citada por Michelle , Ciro disse que “tem um inquérito em andamento investigando o prefeito de Fortaleza, que teria recebido, através do filho, 20 milhões de reais de um cara do PCC”.
Essa é a declaração mais grave feita pelo ex-governador na entrevista. E ela é tão mais grave pelo fato de ser verdadeira e de não ter sido repercutida pelos principais veículos de imprensa cearense, todos eles devidamente silenciados pelo dinheiro.
Um único veículo de imprensa cearense investigou e noticiou tanto o referido inquérito quanto a descoberta do milionário patrimônio oculto, não declarado, do prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT).
Crime organizado e a política cearense
No dia 24 de junho, mesmo dia em que Michelle publicou o vídeo comentando seu embate com Flávio acerca das disputas políticas no Ceará, a Polícia Federal (PF) prendeu Daniel Queiroz , filho do ex-prefeito de Choró Bebeto Queiroz (PSB). Como diria o meu conterrâneo Ciro Gomes, repare bem:
Bebeto do Choró foi eleito prefeito de Choró, município do interior do Ceará, em 2024, mas nunca assumiu o cargo.
A chapa foi cassada pela Justiça Eleitoral por captação ilícita de votos e abuso de poder econômico. Ele foi preso preventivamente em novembro de 2024 em uma operação da PF, inicialmente por fraudes em contratos de abastecimento de veículos da prefeitura, solto após prisão temporária e, depois, se tornou foragido.
Ele é apontado pela PF como líder de uma organização criminosa que atuava em vários municípios cearenses. Seu filho, também envolvido no esquema, foi preso ontem em Fortaleza.
Em relatório de janeiro de 2026 enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a PF descreve um esquema sofisticado de fraudes em licitações de prefeituras, desvio de emendas parlamentares federais, lavagem de dinheiro, financiamento ilegal de campanhas, compra de votos e coação política de prefeitos.
Bebeto do Choró e o deputado federal Júnior Mano (PSB-CE) são apontados pela PF como peças centrais e líderes do mesmo grupo criminoso. Mano atuava fornecendo e intermediando emendas parlamentares, enquanto Bebeto era o “braço direito”/operador no Ceará: recebia os recursos, direcionava para prefeituras alinhadas, controlava a execução e a lavagem.
A estrutura de Bebeto já existia antes, mas a chegada de Mano ampliou o alcance com mais recursos. Há diálogos interceptados entre Bebeto e Adriano Almeida Bezerra, assessor de Mano.
Chapa governista
Mano tem sido cotado como um dos pré-candidatos ao Senado pela chapa governista do PT, com o apoio insistente do senador Cid Gomes (PSB-CE), irmão e rival político de Ciro, que, por algum motivo, sente-se na obrigação de indicá-lo.
“Eu assumi um compromisso e primo por manter a minha palavra, de que o nome que defenderei para ser candidato ao Senado, pelo meu partido, é o deputado federal Júnior Mano”, afirmou Cid.
Imagine o leitor que belo senador será Mano e a que tipo de interesses escusos ele serviria.
São essas coisas podres, imorais, indecentes e revoltantes que estão acontecendo na política cearense.
Junte-se a isso o terror constante ao qual as facções, aliadas de políticos desse calibre, submetem a população trabalhadora do Ceará, expulsando famílias de suas casas, extorquindo comerciantes, mandando e desmandando em comunidades já totalmente dominadas pelo crime.
Como se não bastasse, a moda agora é encontrar corpos decapitados e desmembrados nas praias do Ceará, como se pode constatar em notícias recentes.
Entendo a revolta de Michelle com a aliança em favor de Ciro, um crítico ferrenho do seu marido. Mas, de fato, ele é o único que tem chances reais de vencer esse grupo político pervertido que tenta se perpetuar no poder.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE), apoiado por ela, é um nome mais palatável à direita, mas a questão no Ceará está para além de ideologias políticas.
É preciso união de direita e esquerda contra o crime. Todos precisam pensar não apenas em seus projetos pessoais, mas principalmente na libertação efetiva do estado.
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